Imprensa de Hong Kong enfrenta silenciamento de jornalistas e fechamento de veículos

Entre os alvos mais recentes estão o jornal pró-democracia Apple Daily e a emissora pública RTHK

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Austin Ramzy Tiffany May
Hong Kong | The New York Times

O chefe de polícia de Hong notificou jornalistas que eles podem ser investigados por divulgarem supostas fake news. Um jornal controlado pelo governo chinês pediu que o maior veículo noticioso pró-democracia da cidade seja silenciado. Homens mascarados invadiram e revistaram a sede de uma publicação crítica do Partido Comunista chinês e destruíram suas rotativas.

A reputação de Hong Kong de bastião da liberdade de imprensa na Ásia, um lugar onde se faz jornalismo muito mais independente e agressivo do que é feito na vizinha China continental, está sob pressão contínua há anos.

Choy Yuk-ling, produtora da Radio Tlevision Hong Kong, chega ao tribunal
Choy Yuk-ling, produtora da Radio Tlevision Hong Kong, chega ao tribunal - Lam Yik Fei - 22.abr.21/NYT

Agora, no momento em que Pequim toma medidas para sufocar a dissensão na cidade, a imprensa está sob ataque frontal. Táticas de pressão tradicionais, tais como divulgar boicotes, perderam espaço para o tipo de enfrentamento direto que pode silenciar jornalistas destacados e transformar ou fechar as organizações para as quais eles trabalham.

Entre os alvos recentes desses ataques estão o jornal pró-democracia Apple Daily, cujo fundador foi sentenciado na semana passada a 14 meses de prisão, e a emissora pública RTHK, conhecida por suas investigações em profundidade. Na quinta-feira (22) uma das produtoras premiadas da emissora, Choy Yuk-ling, foi condenada por fazer declarações falsas para ter acesso a documentos públicos para uma reportagem contendo críticas à polícia. Ela foi multada em 6.000 dólares de Hong Kong (cerca de R$ 4.250).

“Parece que recentemente alguma coisa mudou de modo definitivo”, disse Keith Richburg, diretor do Centro de Jornalismo e Estudos da Mídia da Universidade de Hong Kong. “A autocensura ainda é um problema, e não sabemos quais são os limites do permissível, mas parece que estamos assistindo a um ataque mais frontal à mídia em Hong Kong.”

Não é de hoje que Pequim quer submeter Hong Kong ao seu controle. Cidade chinesa semiautônoma desde que o Reino Unido devolveu sua antiga colônia, em 1997, Hong Kong se governava por suas regras próprias. Seus habitantes desfrutavam de liberdades que não se veem na China continental, entre elas o acesso irrestrito à internet, o direito de protesto e uma imprensa independente.

Mas, depois dos grandes protestos que em 2019 agitaram a cidade profundamente e em alguns casos se tornaram violentos, o governo central chinês aproveitou a agitação para lançar uma onda de repressão. No ano passado Pequim impôs uma nova e intransigente lei de segurança nacional que criminalizou muitas formas de discurso antigoverno. Em seguida, fez modificações ao sistema eleitoral de Hong Kong, reforçando o controle do poder por parte do establishment pró-Pequim.

Parlamentares pró-democracia foram afastados. O movimento de protesto foi silenciado. Ativistas foram presos. E jornalistas se descobriram na mira do governo.

Na quinta-feira um tribunal de Hong Kong decidiu que Choy, produtora freelancer, violou a lei quando usou um banco de dados público de placas de automóveis em uma investigação sobre um ataque de uma multidão enfurecida a uma estação ferroviária em julho de 2019, que deixou 45 feridos. Ativistas haviam acusado a polícia de fazer vista grossa para a violência.

A jornalista, que também usa o nome Bao Choy, ajudou a produzir documentários para a RTHK investigando os responsáveis pelos ataques e por que a polícia tardou a reagir. Ela foi presa em novembro e acusada de dar declarações falsas sobre o uso do banco de dados público.

Choy disse que seu caso demonstra como as autoridades querem reprimir a mídia e limitar o acesso a informações que antes eram disponíveis ao público.

“Desde que fui detida, percebi que não é um problema apenas meu”, afirmou. “É uma questão mais ampla sobre a liberdade de imprensa em Hong Kong.”

Entidades que defendem a liberdade de imprensa denunciaram a prisão de Choy e a caracterizaram como parte de uma campanha de assédio a jornalistas. O Comitê para Proteger Jornalistas descreveu a ação do governo como “uma ação absurdamente desproporcional que equivale a um ataque direto à liberdade de imprensa”.

A ação contra Choy constitui a iniciativa mais recente contra a RTHK, a maior rede pública de rádio e televisão de Hong Kong, que durante anos lançou reportagens fortemente críticas do governo. O estatuto da emissora lhe garante independência editorial, mas, como entidade pertencente ao governo, ela tem pouca proteção contra autoridades que querem submetê-la a controle mais rígido. Na semana passada a deputada pró-Pequim Regina Ip disse que o governo deve considerar a possibilidade de fechar a emissora completamente.

Meses após a aprovação da lei de segurança nacional, o governo de Hong Kong pediu que a RTHK seja mais rigidamente supervisionada por assessores indicados pelo governo.

A organização Repórteres sem Fronteiras, que defende a liberdade de imprensa, disse na terça-feira (20) que a lei de segurança nacional cria uma ameaça a jornalistas e que a RTHK “está sendo sujeita a uma campanha de intimidação frontal do governo com a finalidade de limitar sua autonomia editorial”.

O governo de Hong Kong rejeitou a ideia de que a RTHK esteja sendo atacada e se disse “chocado” com a sugestão de que “pessoas de uma profissão particular sejam imunes a sanções legais”.

Órgãos de mídia internacionais também têm sido sujeitos a pressões em Hong Kong. Um editor do Financial Times foi forçado a deixar a cidade em 2018 em aparente retaliação por ter apresentado uma palestra de um ativista pró-independência. O New York Times transferiu vários de seus editores de Hong Kong a Seul, na Coreia do Sul, em parte devido a dificuldades em renovar seus vistos de trabalho.

O jornal Epoch Times, ligado ao movimento espiritual Falun Gong, que é proibido na China continental, vem enfrentando ataques ainda mais diretos. Quatro homens invadiram sua gráfica em 12 de abril, destruindo rotativas e computadores. O jornal disse que não houve feridos e que pôde retornar à publicação pouco depois.

“O Epoch Times não tem medo da coerção violenta”, disse uma porta-voz do jornal, Cheryl Ng, em comunicado.

Possivelmente o alvo mais destacado de ataques até agora seja Jimmy Lai, crítico declarado do Partido Comunista chinês e fundador do jornal pró-democracia Daily Apple. Na semana passada ele foi sentenciado a 14 meses de prisão, depois de condenado por reunião não autorizada em conexão com dois protestos em 2019.

No ano passado a polícia invadiu a redação do Apple Daily, e Jimmy Lai enfrenta acusações criminais ligadas à lei de segurança nacional por ter supostamente pedido sanções dos EUA a Hong Kong. A lei prevê que crimes “de natureza grave”, um termo intencionalmente ambíguo, acarretam sentenças que podem chegar à prisão perpétua.

Regina Ip, a deputada pró-establishment, deixou claro aos jornalistas da RTHK qual seria o papel deles, para ela. Em uma sessão legislativa na semana passada, disse que um jornalista da emissora deve dispor-se “a ser porta-voz do governo”.

Na semana passada o comissário de polícia de Hong Kong, Chris Tang, avisou que publicações que produzem supostas fake news podem ser investigadas. Ele pediu por novas leis para regulamentar a imprensa.

Mesmo assim, muitos jornalistas dizem que não se deixarão intimidar pelos esforços do governo para sufocar seu trabalho.

“Alguns jornalistas estão desiludidos”, disse Gladys Chiu, diretora do sindicato de profissionais da emissora. “Mas outros acham que ainda há espaço pelo qual lutar.”

Tradução de Clara Allain

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