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Keiko Fujimori garante lugar no 2º turno no Peru em disputa apertada

Candidata de direita à Presidência vai enfrentar o sindicalista Pedro Castillo, de esquerda

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Buenos Aires

Keiko Fujimori, 45, filha do ex-líder autocrata do Peru Alberto Fujimori, disputará o segundo turno da eleição presidencial no país, marcado para o dia 6 de junho, contra o sindicalista Pedro Castillo.

Com 98,4% das urnas apuradas, a ex-congressista aparece nesta quarta (14) com 13,3%, pouco à frente de Rafael López Aliaga (11,6%), que chamou a atenção devido ao vínculo com a Igreja Católica —ele é da Opus Dei— e à pauta conservadora nos costumes. Assim, passou a ser chamado de "Bolsonaro peruano".

Keiko, que concorre à Presidência pela terceira vez, lidera o Força Popular, partido fujimorista que ajudou a derrubar o hoje ex-presidente Pedro Pablo Kuczynski, movimento que deu início à crise política no país: o presidente do país, o interino Francisco Sagasti, é o quarto do atual mandato.

A candidata do partido Força Popular, Keiko Fujimori, deposita voto em centro de votação em Lima, no Peru
A candidata do partido Força Popular, Keiko Fujimori, deposita voto em centro de votação em Lima, no Peru - Andrés Valle - 11.abr.21/Andina via Xinhua

PPK, como Kuczynski é conhecido, renunciou em 2016. Seu sucessor, Martín Vizcarra, foi afastado em novembro de 2020 após enfrentar dois processos de impeachment, também sob a acusação de recebimento de propina, o que o enquadraria na categoria de "incapacidade moral", impedindo a continuidade no cargo. Na sequência, assumiu, por apenas seis dias, o congressista Manuel Merino de Lama, que renunciou depois dos episódios de violência que vieram na esteira da crise institucional.

A adversária de Castillo é bacharel em administração de empresas pela Universidade de Boston e é casada com um americano, com quem tem duas filhas. Em 2018, Keiko foi presa, acusada de lavagem de dinheiro e de recebimento de caixa dois da empreiteira brasileira Odebrecht. No ano seguinte, obteve um habeas corpus, mas o processo ainda não foi concluído.

Diferentemente das eleições de 2011 e de 2016, nas quais chegou ao segundo turno, mas acabou derrotada, desta vez Keiko não fará gestos de reconciliação ou pedidos de desculpas pelos abusos de direitos humanos cometidos pelo pai para amenizar a rejeição a seu nome. Em ambas as ocasiões, ela reforçou não estar de acordo com os excessos do período de Fujimori no poder e afirmou que não daria indultos a pessoas processadas ou presas por eles —como o próprio pai.

A estratégia foi avaliada como negativa por sua campanha, como disse recentemente Jorge Baca Campodónico, ministro no governo de Fujimori e líder da coordenação do programa de Keiko para a reativação da economia. Para seus marqueteiros, o gesto foi visto como sinônimo de debilidade.

Keiko tem feito promessas relacionadas à recuperação do trabalho formal. É firme ao recusar medidas de restrição devido à pandemia, que atingiriam muito mais a população vulnerável e os trabalhadores informais. O discurso anti-quarentena teve resultado, principalmente no norte do país, onde a pobreza é maior e a queda da economia foi mais sentida.

No último debate presidencial, ela afirmou que flexibirizará mais atividades para gerar mais empregos. "As quarentenas foram um fracasso, não serviu de nada o esforço de milhões de peruanos que ficamos em casa quando o governo não cumpriu sua promessa de melhorar o aparato de saúde."

Em relação à pandemia da Covid-19, Keiko promete atingir a meta de 70 mil testes de detecção do vírus por dia e colocar mais empenho na compra de vacinas.

Já Castillo, 51, é uma surpresa para muitos. Durante a transmissão dos primeiros resultados, a CNN em espanhol sequer tinha uma foto dele para exibir. O candidato se mostrou ao mundo de modo pitoresco, indo votar montado em um cavalo, em Cajamarca, na região andina.

Sindicalista e professor do ensino médio, ele ficou conhecido nacionalmente ao liderar greves de docentes, a mais famosa delas em 2017. "Queria agradecer aos povos esquecidos de meu país, cumprimentar os homens e as mulheres que estão nos cantos do país, cumprimentar os que estão além das fronteiras da pátria, onde o Estado não chega. Hoje o povo peruano acaba de tirar a venda dos olhos", disse, ao saber dos primeiros resultados que o colocavam na dianteira.

Candidato da aliança Perú Libre, ele defende maiores salários aos empregados do setor da educação. Tem um discurso anticorrupção e propõe dissolver o Tribunal Constitucional e a Constituição de 1993 —segundo ele, os responsáveis por permitir práticas irregulares.

Algumas de suas promessas de campanha são consideradas bastante autoritárias. Castillo planeja, por exemplo, regulamentar os meios de comunicação e acabar com "a televisão que só propague lixo". E prometeu reduzir o funcionalismo público, que considera corrupto.

O candidato é contra o aborto, o casamento gay e a eutanásia.

Na economia, promete mais intervenção do Estado e a nacionalização de petrolíferas e da produção de energia. Castillo afirma que sua nova Constituição implementará uma "justa divisão de bens" no Peru.

Segundo analistas, a eleição deste ano reflete a situação de desmonte dos partidos peruanos, o aumento da desconfiança em relação à política provocada por seguidos escândalos de corrupção e os efeitos da pandemia do coronavírus. O Peru é um dos países da América do Sul mais afetados pela Covid, com 1,6 milhão de casos e quase 55 mil mortes desde o início da crise —e agora vê uma nova alta de casos.

Apesar da pandemia, 72% dos eleitores foram às urnas —o voto é obrigatório no Peru. Nas eleições de 2016, esse número somou 81,8%.

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