Rússia muda de tom e fala em agir se houver guerra civil na Ucrânia

Estados Unidos enviam dois navios de guerra para o mar Negro, perto da área das tensões

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São Paulo

Após passar quase duas semanas minimizando suas movimentações militares junto à fronteira da Ucrânia, o Kremlin disse nesta sexta (9) que vê risco de guerra civil no país vizinho e, neste caso, deverá intervir.

O porta-voz do presidente Vladimir Putin, Dmitri Peskov, foi além e já até elaborou um verniz humanitário para a eventual ação de apoio aos rebeldes separatistas pró-Rússia que controlam as duas áreas autônomas no leste da Ucrânia.

O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, visita trincheira de seu Exército junto à fronteira rebelde no Donbass
O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, visita trincheira de seu Exército junto à fronteira rebelde no Donbass - Serviço de Imprensa da Presidência da Ucrânia/via Reuters

"O mundo todo, incluindo a Rússia, vai tomar medidas para evitar uma repetição dos eventos de 1995 em Srebenica, na Ucrânia, em caso de que uma ação militar total recomece ali", afirmou.

Ele se referia ao massacre de 8.373 muçulmanos por forças sérvias durante a invasão daquela cidade na Bósnia, um dos símbolos da guerra que fragmentou a Iugoslávia e da inação da comunidade internacional ante o genocídio. Até hoje o massacre é centro de controvérsias na Europa.

Peskov buscou reforçar isso ao dizer que "a Rússia e países europeus civilizados não permitirão" uma repetição dos eventos. E apontou para o governo ucraniano.

"Se uma guerra civil com atividades militares de larga escala recomeçar perto das nossas fronteiras, isso será uma ameaça para a segurança nacional da Rússia", afirmou o porta-voz, dizendo que "é claro que Kiev não rejeita a ideia do uso da força".

Para adicionar tensão ao cenário, os EUA decidiram enviar dois navios de guerra para o mar Negro, que margeia justamente as áreas conflituosas e é rota vital para os russos terem acesso ao Mediterrâneo.

A Turquia disse que foi requisitado o trânsito dos dois navios, provavelmente destróieres lançadores de mísseis, pelos seus estreitos do Bósforo e de Dardanelos, que ligam os mares Negro e Mediterrâneo.

Na semana passada, o Kremlin enviou cerca de 4.000 soldados para a fronteira com a Ucrânia, onde há bases russas. Também despachou tanques e blindados para a Crimeia. Houve protesto no Ocidente e juras de apoio do presidente Joe Biden e da Otan (aliança militar ocidental) à Ucrânia.

A crise na Ucrânia recomeçou neste ano com o reforço de tropas, por parte de Kiev, em parte da fronteira de 500 km com as áreas que desde 2014 estão nas mãos de separatistas. Naquele ano, o governo pró-Putin do país foi derrubado, e Moscou respondeu anexando a Crimeia, uma área historicamente russa, e fomentando a guerra civil na região de maioria étnica russa de Lugansk e Donetsk.

Os combates mais pesados cessaram em 2015, quando foi assinada a segunda versão dos chamados Acordos de Minsk. Só que eles nunca foram implementados, porque previam autonomia às áreas rebeldes, e escaramuças seguiram em baixa intensidade. Já morreram 13 mil pessoas.

Para Putin, o status de congelado do conflito resolve seu principal problema, que é o de evitar que a Ucrânia se una à Otan ou à União Europeia. Geopoliticamente, o russo precisa do país neutro ou aliado como anteparo às forças europeias. "Moscou não pode se dar ao luxo de deixar as repúblicas autônomas declaradas perderem, ainda mais numa situação que parecerá uma derrota para um satélite dos EUA", afirma o diretor do Centro de Análise de Tecnologias e Estratégias de Moscou, Ruslan Pukhov.

Ao mesmo tempo, diz, "os americanos não vão lutar pela Ucrânia com a Rússia, e Moscou demonstra claramente que, se Kiev fizer uma guerra no Donbass, todo seu território estará ameaçado". Assim, afirmou por mensagem, o risco de uma guerra total ainda parece baixo.

Donbass é o nome histórico da região que compreende Lugansk e Donetsk e tem cerca de metade de sua área ocupada pelos rebeldes. Um fator importante é a fragilidade política do presidente ucraniano, o comediante Volodimir Zelenski. Com baixa aprovação, ele deixou a postura de negociador e está cedendo à pressão da oposição mais fortemente contrária à Rússia.

Essa elite viu no sucesso do Azerbaijão em usar a força militar no ano passado, com o apoio da Turquia, para descongelar outro conflito na periferia russa, o do encrave armênio de Nagorno-Karabakh. Baku recuperou os distritos em torno da região e está numa posição melhor de negociação agora.

Para Pukhov, contudo, a situação na Ucrânia é bastante diferente e Moscou quer, com sua posição de força, buscar a implementação dos Acordos de Minsk. Se isso acontecer, fica praticamente inviabilizada qualquer absorção de Kiev pela Otan, apesar de Zelenski ter feito um apelo por isso nesta semana.

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