Após fugir de guerra civil, marfinense se torna 1º doutor em relações internacionais da Uerj

Lucien Ahouangan deixou o país em 2013 depois que a cidade onde estava foi atacada por grupo armado

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Matheus Rocha
Rio de Janeiro

No começo de maio, Lucien Ahouangan encerrou um capítulo de sua vida que levou quatro anos e 312 páginas para ser concluído. Ele apresentou os resultados da pesquisa que conduziu sobre resolução de conflito e operação de paz da ONU (Organização das Nações Unidas) na Costa do Marfim.

Após três horas de defesa, a tese foi aprovada, e Ahouangan, 36, tornou-se o primeiro doutor em relações internacionais pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) —fundada há 70 anos, a instituição é uma das mais importantes do país e tem doutorado nessa área desde 2016.

Embora a pesquisa tenha sido apresentada neste ano, a história que deu origem a ela começou em 2002. Nascido em Abidjan, maior cidade da Costa do Marfim, Ahouangan tinha 17 anos quando a guerra civil dividiu o país.

Lucien Ahouangan, pesquisador e doutor em relações internacionais pela Uerj - Diretoria de comunicação da Uerj

Uma das razões do conflito foi a "marfinidade", conceito forjado por Henri Konan Bédié, presidente do país de 1993 a 1999. De acordo com o professor de história da África na PUC-Rio Alexandre dos Santos, o mandatário dizia que só poderiam se candidatar à Presidência pessoas que fossem marfinenses “de verdade”.

“Isso significava ter pai e mãe de etnias reconhecidas como pertencentes ao centro-sul, região que, segundo Bédié, faria parte dos marfinenses puros”, explica.

Embora essa pureza não existisse, o conceito foi usado para impedir a candidatura de líderes da oposição e marginalizar a região norte, de maioria muçulmana. “É no ressentimento que começa em 1993 que a guerra civil explode.”

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Em setembro de 2002, rebeldes do norte pegaram em armas e marcharam em direção a Abidjan e Yamoussoukro, a capital do país. Não conseguiram dominá-las, mas capturaram duas outras cidades: Korhogo e Bouaké. Foi nessa última que a guerra alcançou Lucien.

“O conflito começou numa quinta-feira, quando a gente acordou às 4h da manhã com o disparo de armas pesadas. Como não previmos o conflito, não fizemos compras e precisei ir ao supermercado. Com medo, fui à rua e vi os rebeldes em carros, com armamento pesado atirando para o alto”, diz ele, que estava na cidade visitando os primos.

Nesse ambiente conflagrado, decidiu fugir. Foi para o Benin, onde se formou em direito e relações internacionais. Voltou para casa em 2008, com o fim da guerra, mas conseguiu ficar pouco tempo porque a situação ainda estava delicada.

Dois anos após sair novamente do país, um novo conflito começou.

Nas eleições de 2010, o oposicionista Alassane Ouattara derrotou o então presidente Laurent Gbagbo. O político, porém, não aceitou o resultado e se encastelou no poder. O país mergulhou em uma segunda guerra civil, que durou menos de um ano, mas fez entre 700 mil e 1 milhão de refugiados, segundo a ONU.

Com o fim do segundo conflito, o pesquisador voltou para a Costa do Marfim. “Havia tensão entre grupos armados e não sabíamos quando apareceria alguém em casa para nos ameaçar.” A decisão de deixar pela terceira vez seu lugar veio após uma milícia atacar com facas e fuzis um grupo étnico de Abidjan. “Você não pode viver numa situação dessas nem se conformar com o medo constante.”

Em 2013, Ahouangan fugiu de novo, mas desta vez desembarcou no Brasil, como solicitante de refúgio. Ele escolheu o país em razão da ampliação dos laços diplomáticos com a África ocorrida no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).

Ao se instalar no Rio, um de seus primeiros problemas foi não dominar o idioma, que já estudava. “Quando cheguei ao aeroporto, os funcionários da Polícia Federal faziam perguntas, e eu não entendia nada. O que eu sabia do português era 'bom dia’ e ‘boa tarde’." Ele recorreu, então, a sites de idiomas, onde conversava com brasileiros.

Após um ano, estava fluente, mas a língua seguiu sendo um desafio quando entrou no mestrado, em 2015. “A grande dificuldade foi escrever artigos no fim do semestre. Produzir algo de 12, 15 páginas, não é fácil.”

Cientista político e professor da Uerj, Maurício Santoro explica que o idioma é de fato um dos principais entraves no ensino superior para imigrantes e refugiados. “Outro obstáculo é a dificuldade para revalidar o diploma. Esse documento pode ter se perdido em guerras e fugas ou pode estar em uma língua de difícil tradução, como o árabe.” Segundo pesquisa da ONU divulgada em 2019, 34,4% dos refugiados no Brasil têm ensino superior.

Apesar dos desafios, Ahouangan conseguiu manter o bom rendimento acadêmico e fez diferença numa área em que há poucos especialistas em África, segundo Layla Dawood, orientadora do pesquisador e professora da Uerj. "A tese do Lucien é uma grande contribuição na tentativa de suprir essa lacuna. O trabalho dialoga com a literatura sobre operações de paz e resolução de conflito, temas de enorme interesse para a área de relações internacionais.”

Além do orgulho de ter se tornado o primeiro doutor em relações internacionais da instituição, Ahouangan não esconde a gratidão ao país que chama de "terra do acolhimento". “Apesar das dificuldades que o Brasil enfrenta, elas não tiraram a boa vontade do povo brasileiro”, diz ele, que conseguiu uma permissão de permanência definitiva em 2018 e se naturalizou em 2020.

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