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Cemitério construído em Buenos Aires devido à febre amarela volta a lotar com Covid

Funcionários do setor ameaçam greve caso governo argentino não ofereça prioridade na vacinação

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Buenos Aires

Em 1871, Buenos Aires viveu uma grave crise sanitária. Acometida pela febre amarela, a capital argentina viu os dois únicos cemitérios da cidade à época transbordarem logo no início da epidemia.

Frente a números de mortes que chegavam a 700 por dia, as autoridades não viram outra solução a não ser abrir, às pressas, um novo cemitério —o da Chacarita, que acabou recebendo a maior parte das 18 mil vítimas da doença. Na época, Buenos Aires tinha não mais do que 180 mil habitantes.

Mausoléu de Carlos Gardel, ícone do tango argentino, localizado no Cemitério da Chacarita, também chamado Cemitério do Oeste, em Buenos Aires
Mausoléu de Carlos Gardel, ícone do tango argentino, localizado no Cemitério da Chacarita, também chamado Cemitério do Oeste, em Buenos Aires - Wikemedia Commons

Hoje, 150 anos depois, ampliado e com novos setores destinados apenas aos mortos por coronavírus, o cemitério da Chacarita está outra vez no limite. Os funcionários, filiados ao sindicato de trabalhadores de parques e cemitérios, apresentaram um pedido ao Ministério do Trabalho para serem vacinados o quanto antes, ou então participarão de uma greve nacional e deixarão de recolher corpos e levá-los às sepulturas.

"Fomos classificados de essenciais desde o primeiro momento, porque tínhamos de seguir trabalhando para manter o fluxo dos enterros. Agora, na hora da vacinação, não somos considerados essenciais e vamos para o fim da fila", diz à Folha Salvador Valente, do Soecra (Sindicato de Trabalhadores e Empregados dos Cemitérios da República Argentina).

"Não é justo, estamos muito mais expostos que a população em geral, somos da linha de frente, como médicos, e já perdemos muitos colegas."

Um primeiro pedido por prioridade na vacinação e mais equipamentos de proteção, feito em janeiro, foi negado pelo governo. Por isso, os trabalhadores dos cemitérios voltaram a registrar a mesma demanda nesta semana, agora com a ameaça de greve. Embora seja um problema nacional, é na região metropolitana de Buenos Aires, o epicentro da pandemia na Argentina, que a situação é mais grave.

O tradicional cemitério da Recoleta há tempos está lotado e hoje opera mais como um museu a céu aberto, pois deixou de receber novos enterros. Há também um cemitério mais popular no bairro de Flores —outro a abrir um setor exclusivo para mortos por Covid—, que, assim como Chacarita, está saturado.

O da Chacarita é o maior da cidade em funcionamento e um dos mais emblemáticos da capital argentina. Ali estão enterrados o ídolo do tango Carlos Gardel, o escritor Roberto Arlt, o artista plástico Antonio Berni e o compositor Enrique Santos Discépolo, entre outras celebridades.

O cemitério também abrigou por muitos anos o corpo de Juan Domingo Perón, até sua sepultura ser atacada, e as mãos do ex-presidente, arrancadas e roubadas, em 1987. A razão do crime e o paradeiro das mãos de Perón permanecem desconhecidos, em mais uma história misteriosa da política local.

"Chacarita é um patrimônio argentino. É o cemitério que guarda os ícones da cultura popular, jogadores de futebol, tangueiros, atores, além de Perón até certo momento [após o sequestro das mãos, o resto do corpo foi levado a uma propriedade particular da família]", diz à Folha o historiador Felipe Pigna. "Enquanto o cemitério da Recoleta é o da elite aristocrática do século 19, o de Chacarita é o da cultura popular."

Para o pesquisador, é importante preservar o cemitério tanto como local em funcionamento quanto como memória dos portenhos. "Por mais que a pandemia atual esteja causando grande sofrimento à cidade, temos de lembrar o pesadelo que foi a febre amarela e o modo como a população ficou amedrontada. Naquela época não se sabia que a doença era transmitida por um mosquito. Houve uma crise política importante e até o presidente [Domingo Faustino] Sarmiento abandonou a cidade", lembra Pigna. "Buenos Aires ficou a cargo de uma comissão de notáveis, médicos, políticos, que também foram morrendo."

O historiador lembra que, naquela época, também circulava pela cidade o chamado "trem da morte", uma locomotiva de um vagão que cruzava a capital argentina recolhendo mortos nas casas.

Valente, do sindicato de trabalhadores dos cemitérios, lembra que hoje são eles que recolhem os cadáveres nas residências e os acompanham até a sepultura. "Devido ao protocolo vigente, apenas um parente pode estar presente no enterro, além de um funcionário nosso. Ou seja, nosso papel nesta pandemia é essencial", lembra ele. "Há casas funerárias particulares que tiveram de fechar porque todos os funcionários foram contaminados. Estamos trabalhando horas extras e no nosso limite. Queremos a vacina para não ter de interromper nosso trabalho."

Em resposta, o governo afirma avaliar o pedido, mas a Argentina sofre com a escassez de imunizantes. O principal contrato do governo, com o laboratório Gamaleia, da Rússia, vem sendo cumprido com atraso, e as entregas do imunizante Sputnik V demoram a ser feitas. Da mesma maneira, os fármacos comprados da AstraZeneca e da chinesa Sinopharm chegam em menor quantidade do que o prometido.

Até agora, a Argentina vacinou apenas 15% da população com uma dose e 2% com as duas.

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