Descrição de chapéu The New York Times

David Cameron alertou para escândalos de lobby, mas acabou envolvido em um

Ex-premiê britânico acionou antigos colegas e assessores para pedir apoio à empresa financeira

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Stephen Castle
Londres | The New York Times

Poucos ex-premiês britânicos se adaptam facilmente à vida pós-Downing Street ou conquistam o respeito dado a alguns ex-governantes mundo afora. Mas poucos deles caíram tão longe e tão rapidamente quanto David Cameron, que, na quinta (13), fez sua primeira aparição pública desde que um escândalo de lobby lançou uma luz impiedosa sobre seu caráter, além da transformação moral da vida pública britânica.

A situação constrangedora em que Cameron se encontra é especialmente surpreendente porque mais de uma década atrás, quando ele ainda não era premiê, e após protestos relacionados às despesas de parlamentares, ele próprio alertou que uma crise em torno da atividade de lobistas seria “o próximo grande escândalo esperando acontecer”. “Todos sabemos como funciona”, disse Cameron em discurso em 2010.

“Os almoços, a hospitalidade, os cochichos, os ex-ministros e ex-assessores dispostos a vender seus serviços, ajudando as grandes empresas a encontrarem a melhor maneira de realizar seus intentos.”

O ex-primeiro-ministro britânico David Cameron deixa sua residência em Londres
O ex-primeiro-ministro britânico David Cameron deixa sua residência em Londres - Tolga Akmen - 13.mai.21/AFP

Por videoconferência diante de um comitê parlamentar, Cameron não se mostrou arrependido pelos esforços que fez no início da pandemia para contactar os mais altos escalões do governo e pedir apoio à empresa financeira Greensill Capital, que enfrentava dificuldades e para a qual estava trabalhando.

O trabalho frenético de lobby feito por Cameron incluiu uma enxurrada de mais de 60 mensagens de texto, e-mails e outras mensagens, mas não surtiu efeito. A Greensill Capital faliu, e suas dificuldades financeiras colocaram milhares de empregos em risco, motivando uma série de inquéritos.

Na audiência da quinta-feira, Cameron conservou a calma e rejeitou como absurdos os relatos de que ele poderia lucrar dezenas de milhões de dólares com opções sobre ações da Greensil. Ele se recusou a dar detalhes, mas admitiu que tinha “interesse econômico sério” no sucesso da empresa, que foi pago “generosamente” por ela e que ganhara mais do que seu salário de primeiro-ministro. Ele tampouco negou ter usado o jatinho particular da empresa para ir à sua casa de férias na Cornualha.

A divulgação de suas mensagens, no início da semana, revelou até que ponto o ex-premiê, que renunciou em 2016, se dispôs a adular antigos colegas e assessores, incluindo um com quem se desentendera muito publicamente alguns anos antes. “Sei que você está ocupadíssimo e que anda fazendo um trabalho fantástico”, escreveu Cameron ao secretário Michael Gove em uma mensagem de texto.

Antes de um referendo em 2016, a decisão tomada por Gove de apoiar o brexit enfureceu Cameron, que, em seu livro de memórias publicado em 2019, acusou seu colega de comportar-se “abominavelmente” e escreveu: “Quanto a Michael, uma característica sua se destacou acima de tudo. A deslealdade”.

Em mensagens enviadas no ano passado, Cameron também disse ao ministro da Economia, Rishi Sunak, que ele estava “fazendo um ótimo trabalho” —e fez questão que funcionários governamentais seniores soubessem de seus contatos com Sunak. “Vejo você na casa de Rishi para um toque de cotovelos ou pés [cumprimento adotado devido à Covid]. Abraço, DC”, concluiu Cameron numa mensagem que mandou a Tom Scholar, o assessor governamental mais sênior do Tesouro.

Cameron renunciou ao cargo de premiê após fazer a aposta fatal de que poderia convencer os britânicos a votar contra o brexit no referendo de 2016. Assim, ele se viu inesperadamente desempregado.

Após deixar Downing Street relativamente jovem, com 49 anos, Cameron inicialmente manteve um perfil discreto. Comprou uma cabana onde se isolou para escrever suas memórias e obedecer à risca a lei que proíbe ex-políticos de trabalhar para empresas por dois anos depois de deixarem a política.

Quando foi trabalhar para a Greensill Capital, mais tarde, ele já não tinha a obrigação de respeitar as obrigações de transparência impostas a lobistas profissionais externos, porque foi empregado diretamente pela empresa. Embora ex-premiês não tenham um papel claro a cumprir na vida pública, analistas não deixam de se surpreender com as escolhas feitas por Cameron.

“Considerando quanto dinheiro antigos primeiros-ministros podem ganhar hoje em dia dando palestras, seria de se supor que eles não se veriam reduzidos a isso”, opinou Tim Bale, professor de política na Queen Mary University, em Londres. “Acho que temos aqui uma evidência de um declínio nos padrões morais. Não dá para imaginar Margaret Thatcher fazendo algo assim.”

A Greensill se apresentava como intermediária entre o governo e os beneficiários, oferecendo-se para acelerar pagamentos a empresas e pessoas físicas. No caso de indivíduos, Cameron defendia a prática como uma espécie de alternativa popular a esquemas de contração de empréstimos usurários de curto prazo e sem garantias. Mas a maior parte dos empréstimos era oferecida a empresas que faziam negócios com o governo, e críticos sempre questionaram a prudência de se usar uma firma financeira terceira, em lugar de simplesmente acelerar os pagamentos feitos pelo governo.

Bale disse que é difícil imaginar qualquer outro ex-premiê fazendo um trabalho de lobby declarado junto a ministros —nem mesmo Tony Blair, que foi muito criticado por seus trabalhos de consultoria. “Isso é ilustrativo de uma queda nos padrões. Antigamente esse tipo de coisa ‘não era feita’, e agora é”, diz o professor. Mas, para ele, o lado bom disso é que “o constrangimento todo que David Cameron enfrentou pode desencorajar alguns de seus sucessores."

Tradução de Clara Allain

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