Diferenças financeiras, obstáculos legais e suprimentos limitam esforço para vacinar o mundo

Apenas 0,3% das doses de vacinas administradas no mundo foi para os 29 países mais pobres

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

The New York Times

Ao entregar vacinas, as companhias farmacêuticas, com a ajuda de investimentos monumentais dos governos, deram à humanidade a possibilidade milagrosa de se livrar da pior pandemia em um século.

Mas os países ricos ficaram com uma parcela enorme do benefício. Apenas 0,3% das doses de vacinas administradas no mundo foi para os 29 países mais pobres, onde vivem cerca de 9% da população global.

Os fabricantes de vacinas afirmam que uma solução está próxima, enquanto eles expandem agressivamente as linhas de produção e fazem contratos com empresas do mundo todo para produzir bilhões de doses adicionais.

Homem recebe vacina contra Covid no Sudão, um dos países que receberam doses via Covax -
Homem recebe vacina contra Covid no Sudão, um dos países que receberam doses via Covax - - Mohamed Khidir - 29.mar.21/Xinhua

A cada mês, estão sendo produzidas de 400 milhões a 500 milhões de doses de vacinas nos laboratórios Moderna, Pfizer e Johnson & Johnson, segundo uma autoridade dos EUA informada sobre o tema.

Mas o mundo não está nem perto de ter o suficiente. Cerca de 11 bilhões de doses são necessárias para vacinar 70% da população mundial, a parcela mínima para se atingir a imunidade de rebanho, segundo pesquisadores da Universidade Duke. Mas até agora somente uma fração disso foi produzida. Embora seja difícil mensurar a produção global, a firma Airfinity calcula o total até agora em 1,7 bilhão de doses.

O problema é que muitas matérias-primas continuam em falta. E a necessidade global de vacinas pode ser muito maior do que se estima hoje, já que o coronavírus representa um alvo móvel: se surgirem novas variantes perigosas —exigindo doses de reforço e vacinas reformuladas—, a demanda poderá aumentar drasticamente, intensificando a necessidade de cada país segurar o suprimento para sua população.

A única maneira de contornar a concorrência é aumentar muito o suprimento global de vacinas. Sobre esse ponto quase todo mundo concorda. Mas qual é a maneira mais rápida de fazer isso acontecer? Aí as divisões continuam firmes, minando os esforços coletivos para acabar com a pandemia.

Alguns especialistas em saúde afirmam que a única maneira de evitar uma catástrofe é forçar as gigantes dos medicamentos a relaxar o controle de seus segredos e envolver muitos outros fabricantes na produção de vacinas. Em vez do acordo existente —em que as companhias farmacêuticas formam parcerias sob suas condições e definem os preços das vacinas—, os líderes mundiais poderiam obrigar ou convencer a indústria a cooperar com mais empresas para produzir um número maior de doses por preços acessíveis para os países pobres. Os que defendem essa intervenção enfocam duas abordagens básicas: abrir mão de patentes para permitir que mais fabricantes copiem as vacinas existentes e exigir que os laboratórios transfiram sua tecnologia —isto é, ensinem outros fabricantes a copiar seus produtos.

A Organização Mundial do Comércio (OMC), o árbitro em disputas comerciais internacionais, é o local para negociações sobre como proceder. Mas a instituição opera por consenso, e até agora não há um.

O governo Biden se uniu recentemente a mais de cem países para pedir que a OMC deixe de lado parcialmente as patentes de vacinas. Mas a União Europeia indicou a intenção de se opor à liberação delas e apoiar apenas transferências voluntárias de tecnologia, basicamente assumindo a mesma posição que a indústria farmacêutica, cujo lobby agressivo moldou grande parte das regras a seu favor.

Alguns especialistas advertem que revogar as regras de propriedade intelectual poderá perturbar muito a indústria, desacelerando seus esforços para entregar vacinas —seria como reorganizar o corpo de bombeiros no meio de um grande incêndio. "Precisamos que elas aumentem a produção e entreguem", disse Simon Evenett, especialista em comércio e desenvolvimento econômico na Universidade de St. Gallen, na Suíça. "Temos esse enorme aumento da produção. Nada deve ficar no caminho para ameaçá-lo."

Outros afirmam que confiar na indústria farmacêutica para fornecer vacinas ao mundo ajudou a criar o abismo atual entre os que têm ou não têm imunizantes.

O mundo não deveria colocar os países pobres "nessa posição de basicamente ter de mendigar ou esperar por doações de pequenas quantidades de vacinas", disse Chris Beyrer, principal ligação científica da Rede de Prevenção da Covid-19. "O modelo da caridade é inaceitável, creio eu."

Nesse clima de fratura, os líderes da OMC estão modelando seus procedimentos menos como um esforço para mudar as regras formalmente do que como uma negociação que convença os governos nacionais e a indústria farmacêutica global a aceitarem um plano unificado —idealmente nos próximos meses.

Os europeus estão apostando na ideia de que os fabricantes de vacinas, temendo a quebra de patentes, acabem concordando com as transferências, especialmente se os países mais ricos lhes derem dinheiro para tornar o compartilhamento mais palatável.

Muitos especialistas em saúde pública dizem que a renúncia a patentes não terá efeito significativo a menos que os fabricantes também compartilhem seus métodos de fabricação. A abertura das patentes é como publicar uma receita complexa; a transferência de tecnologia é como enviar um chef de cozinha para ensinar a preparar um prato. "Para que você fabrique vacinas, é preciso ter várias coisas funcionando ao mesmo tempo", disse recentemente a diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala. "Se não houver transferência de tecnologia, não irá funcionar."

Mesmo com as renúncias, a transferência de tecnologia e o maior acesso a matérias-primas, especialistas dizem que levaria cerca de seis meses para que mais fabricantes comecem a entregar vacinas.

Os detalhes de qualquer plano para aumentar a vacinação no mundo todo podem ter menos importância do que reformular os incentivos que produziram a situação atual. Os países ricos, especialmente no Ocidente, monopolizaram a maior parte do suprimento de vacinas não por acaso, mas como consequência de realidades econômicas e políticas. Companhias como Pfizer e Moderna obtiveram bilhões de dólares em receitas vendendo a maior parte de suas doses para governos ricos da América do Norte e da Europa.

Os acordos deixaram poucas doses disponíveis para a Covax, parceria multilateral criada para canalizar vacinas para países de baixa e média renda por preços relativamente baixos.

Mudar esse cálculo pode depender de convencer os países ricos de que permitir que a pandemia siga seu ataque em grande parte do mundo representa um risco universal, ao permitir que variantes se imponham, forçando o mundo a um ciclo interminável de atualização farmacêutica. "É preciso que os líderes globais atuem em união, dizendo que a vacina é uma forma de segurança global", disse Rebecca Weintraub, especialista em saúde global na Escola de Medicina de Harvard. Ela sugeriu que o Grupo dos sete países mais ricos lidere essa campanha e a financie quando os membros se reunirem na Grã-Bretanha em junho.

Se o mundo possui um número suficiente de fábricas subutilizadas e adequadas para aumentar rapidamente a produção e superar as desigualdades é uma questão fortemente discutida. Durante uma cúpula de vacinas convocada pela OMC no mês passado, o órgão ouviu depoimentos de que fábricas em Paquistão, Bangladesh, África do Sul, Senegal e Indonésia têm capacidade que poderia ser rapidamente mobilizada para produzir vacinas para Covid.

A companhia canadense Biolyse Pharma, que se concentra em drogas contra câncer, já concordou em fornecer 15 milhões de doses da vacina da Johnson & Johnson à Bolívia —se obtiver autorização legal e conhecimento tecnológico da Johnson & Johnson.

Lá Fora

Receba toda quinta um resumo das principais notícias internacionais no seu email

Mas mesmo grandes empresas como AstraZeneca e Johnson & Johnson tropeçaram, ficando aquém das metas de produção. E produzir o novo tipo de vacinas de mRNA, como as da Pfizer-BioNTech e da Moderna, é complicado. Nos lugares onde as companhias farmacêuticas fecharam acordos com parceiros, o ritmo de produção muitas vezes decepcionou. "Mesmo com licenciamento voluntário e transferência de tecnologia, não é fácil fazer vacinas complexas", disse Krishna Udayakumar, diretor do Centro de Inovação em Saúde Global de Duke. Grande parte da capacidade de fabricação de vacinas já está sendo usada para produzir outros imunizantes que salvam vidas, acrescentou ele.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.