Nos EUA, eles estão vacinados e continuam usando máscaras, talvez para sempre

Proteção facial também ajuda a evitar contaminação por outros vírus

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Sarah Maslin Nir
The New York Times

Quando Joe Glickman sai para fazer compras, coloca uma máscara N95 e outra de tecido por cima dela. Depois veste óculos de mergulho. Ele usou esse protocolo de segurança nos últimos 14 meses, e não mudou depois que contraiu o coronavírus em novembro.

Nem depois que completou a vacinação, no início deste mês. E, apesar de o presidente Joe Biden ter dito na quinta-feira (13) que pessoas com a vacinação completa não precisam mais usar máscara, Glickman afirma que vai manter o hábito. Na verdade, ele disse que pretende ir ao supermercado com duas máscaras e óculos durante pelo menos mais cinco anos.

Senhor com máscara guarda compras em seu carro
Joe Glickman guarda compras em seu carro em Slingerlands, no estado de Nova York - Cindy Schultz/The New York Times

Enquanto uma combinação de recomendações de saúde pública e cansaço da pandemia leva mais americanos a dispensar as máscaras que usaram por mais de um ano, Glickman é um dos que dizem que continuarão cobrindo o rosto em público indefinidamente.

Para pessoas como ele, um conjunto de ansiedade, informação imprecisa sobre novas variantes do vírus e o surgimento de uma considerável facção antivacina significa que a vida sem máscaras está suspensa —talvez para sempre. "Eu não tenho problema em ser uma dessas pessoas", disse Glickman, que é fotógrafo profissional e musicista de Albany, no estado de Nova York. "Mas não acho que serei o único."

Sejam elas feitas de tecido colorido ou de polipropileno, as máscaras surgiram como um ponto de interesse político distópico durante a pandemia. Um mapa dos estados que obrigaram seu uso corresponde de perto à votação para presidente da população desses estados. No ano passado, manifestantes organizaram comícios contra as exigências oficiais de usar máscaras, armaram fogueiras para queimá-las e discutiram aos gritos quando confrontados por não usá-las em supermercados.

Conforme mais americanos são vacinados e as restrições ligadas ao vírus se atenuam, porém, as máscaras estão no centro de um segundo round na briga cultural no país. Desta vez, as pessoas que preferem continuar cobrindo o rosto se tornaram alvo da ira pública. Em entrevistas, pessoas vacinadas que continuam usando máscara disseram sofrer cada vez mais pressão, especialmente nos últimos dias; amigos e parentes lhes pediram para relaxar, ou mesmo sugeriram que elas são paranoicas. Em uma ida recente ao mercado, Glickman disse que foi encarado por um homem que entrou sem máscara.

"Estou confuso", escreveu o apresentador de TV Dan Rather no Twitter na semana passada, enquanto crescia na plataforma a reação contra os que continuam mascarados. "Por que as pessoas têm que se incomodar se alguém quer usar uma máscara na rua?"

Depois da última orientação do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), pelo menos 20 estados rejeitaram as ordens para usar máscara ou deram orientações isentando as pessoas vacinadas de usar a proteção. Outros estados, incluindo Nova York, disseram que estão revendo as regras.

Mas para algumas pessoas a nova liberdade não vai convencê-las a mostrar o rosto tão cedo. Após um ano, elas dizem terem se acostumado com as máscaras e estão contentes pela segurança extra que oferecem. Um dia depois do anúncio do CDC, George Jones, 82, um carteiro aposentado, tomava sol diante das General Grant Houses, onde ele mora, no Harlem, em Nova York, e disse que sua máscara cirúrgica azul —embora desconfortável e inconveniente— continuará em uso por pelo menos mais um ano.

"Não tenho pressa. Por que eu deveria ter?", disse Jones, que completou a vacinação há um mês e meio. Até que a cidade de Nova York atinja um nível mais alto de vacinação —apenas 40% estão completamente vacinados—, ele diz acreditar que é arriscado demais dispensar a máscara. "Estar vivo é o mais importante, é o que conta. Estou velho, mas gostaria de continuar por aqui o quanto puder."

Na Broadway, um grupo de rapazes passa por ele sem máscaras. Jones disse que entende: "Os jovens pensam que são invulneráveis —e espero que sejam".

Dados da saúde pública mostram que as máscaras e o distanciamento social provavelmente tiveram amplo impacto positivo, além de desacelerar a disseminação da Covid-19. Enquanto mais de 34 mil adultos morreram de gripe (influenza) na temporada de 2018-19, neste ano as mortes deverão ficar em centenas, segundo dados do CDC.

Leni Cohen, 51, uma professora de jardim de infância aposentada na cidade de Nova York, que tem o sistema imune comprometido, disse que pretende continuar usando máscara quando presta ajuda como professora substituta. Mas o que ela mais quer é que seus alunos continuem mascarados.

"As crianças pequenas são adoráveis, mas rapidamente compartilham suas secreções", escreveu Cohen em um e-mail que enumera as doenças, incluindo resfriado, dor de garganta, pneumonia, gripe e parvovírus, que ela pegou de seus alunos ao longo dos anos.

"Este ano é tão diferente!", continuou. "As crianças não estão chupando o cabelo ou colocando objetos de classe ou os polegares na boca. Suas bocas e narizes estão cobertos, por isso estou (geralmente) protegida de seus espirros e tosses. Eu pretendo continuar de máscara. É o modo mais seguro como já me senti em uma classe cheia de crianças de 5 e 6 anos."

Lá Fora

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Barry Neely, 41, um compositor de Los Angeles, adoeceu com o coronavírus em março de 2020 e lutou contra os sintomas durante meses. Ele também enfrentou a culpa sobre se havia inadvertidamente infectado pessoas com quem entrou em contato antes de receber o diagnóstico —que aconteceu em uma época na qual o governo desencorajava o uso de máscaras.

Agora ele pretende usá-la sempre que se sentir indisposto. "Não é difícil usar máscara", disse Neely. "Não é nem um pouco difícil." Ele está seguindo o hábito de vários países asiáticos, acrescentou, onde usar máscara quando você se sente doente não é apenas socialmente aceitável, como visto como uma consideração. "Se eu possivelmente espalhei o vírus um ano atrás, e depois soube que usar máscara é importante para evitar a disseminação, qual é o problema de usá-la quando eu tiver um resfriado comum?"

Para vários dos chamados "mascarados permanentes", a decisão veio depois de um trauma: eles sofreram a Covid ou viram pessoas amadas morrerem e dizem que tirando a máscara se sentem vulneráveis.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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