Descrição de chapéu oriente médio

'Esperava o horário dos bombardeios para poder dormir', conta brasileiro que mora em Tel Aviv

Advogado descreve como foram os 11 dias de confronto entre Israel e Hamas na região

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São Paulo

Os 11 dias de conflito entre o Exército israelense e o grupo palestino Hamas afetaram a vida do advogado paulista Felipe Minhoni, 25, que desde setembro do ano passado mora em Tel Aviv.

Estudante de mestrado na área de segurança e diplomacia, ele testemunhou os confrontos que costumam ser temas de seu curso. À Folha ele descreve como foram as suas duas últimas semanas.

Nesses 11 dias de conflito, houve bombardeios em Tel Aviv de tarde, de noite e até de madrugada. O Hamas já tinha feito ameaças de bombardear a cidade, mas ninguém acreditou muito porque é algo que raramente acontece. Mas desta vez aconteceu, e foi com bastante brutalidade.

No dia que eles lançaram os primeiros foguetes, na terça [11], todo mundo foi para os abrigos antibomba.

No meu caso, todos os andares do prédio têm um bunker. Eu já tinha sido instruído pela universidade de que isso poderia acontecer. De madrugada, mandaram um email para todo mundo e comunicaram nos grupos de WhatsApp. Então eu estava bem instruído, fui bem rápido para o bunker.

Foguetes disparados de Gaza, contidos pelo sistema de defesa de Israel, em Tel Aviv - Anas Baba - 11.mai.2021/AFP

Lá, tem uma porta e uma janela de ferro que precisam ser fechadas para lacrar —o abrigo não é nada mais que um apartamento fortificado, com paredes de concreto e portas e janelas de metal. E, na hora que fui fechar a janela, vi a intensidade dos bombardeios. Eu vi os foguetes sobrevoando o condomínio, passando muito perto mesmo. Tanto que, quando saímos dos abrigos, havia estilhaços na rua, carros atingidos.

O primeiro dia foi bastante intenso. As pessoas estavam um pouco apreensivas, sem saber direito o que tinha levado a essa situação. No bunker, o clima era de muita tensão no começo, porque não estava muito claro por que as hostilidades estavam começando. Tínhamos noção de que tinha a ver com a situação em Jerusalém Oriental, com os protestos árabes, mas não sabíamos para onde essa crise estava indo.

Muitas pessoas aqui têm experiência militar, então elas começaram a falar de acontecimentos prévios, de como tinham sido orientadas ou até de como tinham participado de conflitos em Gaza.

As pessoas pensam: vai começar de novo uma guerra igual à que teve no Líbano, igual à de 2014, que durou dois meses? Será que vou ter que sair do país? Tinha essa preocupação do que fazer se a situação saísse de controle. Esse foi o tipo de assunto que conversamos lá dentro. E todo mundo estava no celular, tentando mandar mensagens para a família ou recebendo mensagens.

O advogado paulista Felipe Minhoni, 25, que faz mestrado em Tel Aviv
O advogado paulista Felipe Minhoni, 25, que faz mestrado em Tel Aviv - Arquivo Pessoal

Tinha entre 10 e 15 pessoas no abrigo, todos moradores do meu andar. A maioria era de amigos, porque moro nesse prédio desde setembro. Tinha colegas do curso, pessoas que já tinha visto no prédio e que fazem programas na universidade.

Mas as pessoas que eu não conhecia viraram amigos na hora, começamos a conversar, até trocamos números de telefone. Porque essa foi a primeira vez, mas além dessa tiveram mais seis, sete, oito vezes que fomos aos abrigos. Então se tornou uma coisa mais corriqueira, que todo mundo já esperava.

À noite já estava até esperando o horário dos bombardeios para poder dormir. Por exemplo, o Hamas e a Jihad Islâmica postavam nas redes sociais que iam fazer um ataque à meia-noite. Então ninguém ia dormir antes da meia-noite porque sabia do risco. Foi fazendo parte da rotina.

Com o passar dos dias, o clima foi ficando mais relaxado, porque estava muito claro que Israel tem capacidades muito superiores às do Hamas e da Jihad Islâmica e que essa guerra traria muito mais prejuízo à outra parte. Assim, as pessoas foram levando mais numa boa e virou até motivo de brincadeira.

Nos bombardeios, a sirene de alerta tocava mais de uma vez. A ordem do Exército é que, depois do toque da última sirene, tínhamos que esperar por dez minutos e podíamos sair. Então a gente não ficava mais de meia hora no bunker. Mesmo assim, até agora essa situação está na minha cabeça. Tem outras sirenes que tocam, e eu sempre acho que vou ter que sair correndo. Claro que nunca sabemos a que hora vai acontecer um bombardeio, e pode ser que você esteja no banho. Vi gente chegando de toalha ao bunker.

Pode ser que você esteja dormindo. Teve um dia que tocou às 3h, eu acordei e tive que ir. Então isso impactou bastante. Passei a dormir de janela aberta e parei de usar fone de ouvido na rua e em casa, para poder escutar se a sirene tocasse.

Quando ela tocava, o máximo de tempo que você tem para chegar ao bunker em Tel Aviv são 90 segundos.

É uma das áreas que você tem mais tempo. Tem cidade que são só 15 segundos. Mas isso é o protocolo, a versão oficial. Teve um dia que ouvi o Domo de Ferro [o sistema de defesa antiaérea de Israel] funcionando antes de a sirene tocar. Eu estava tomando café da manhã com amigos no prédio onde moro, era por volta de 11h, e a gente ouviu o sistema antimísseis funcionando, ou seja, estavam bombardeando, tudo tremendo. E odo mundo congelou, porque ninguém tinha ouvido a sirene.

Demorou uns 10, 15 segundos, e aí a sirene tocou. Ou seja, é um sistema bom, funciona na maioria das vezes, a população está bem acostumada, mas tem esse tipo de falha.

Lá Fora

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Durante o conflito, minhas aulas de mestrado foram suspensas. No emprego, deixaram trabalhar de casa. Imagino que, como eu, muitos israelenses também fizeram isso, porque quando saí na rua percebi que tinha muito menos movimento. Fiquei vivendo uma vida normal, mas acompanhando as notícias.

Minha vida mudou nesse sentido, as pessoas ficaram mais reclusas, não viajaram. Teve um feriado judaico, e a viagem que tinha programado teve de ser cancelada. Eu ia acampar no norte do país, no rio Jordão, e isso obviamente não era possível. Tanto que no dia seguinte teve um míssil lançado da Síria que caiu lá perto de onde a gente ia. Então todos esses planos foram cancelados.

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