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Daniel Avelar

Levante de árabes-israelenses é resultado da discriminação que enfrentam há décadas no país

Embora disponha de cidadania israelense, minoria enfrenta níveis elevados de miséria, desemprego e violência policial

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Daniel Avelar

Mestre em jornalismo pelo programa Erasmus Mundus. Foi voluntário no Mossawa Center em Haifa (2014) e coordenador do programa educacional da FFIPP Brasil - Rede Educacional pelos Direitos Humanos em Palestina/Israel (2018)

A escalada das tensões entre israelenses e palestinos nos últimos dias guarda muitas semelhanças com episódios de violência registrados em anos recentes, das disputas territoriais em Jerusalém à troca de artilharia na Faixa de Gaza.

Mas há pelo menos uma novidade na crise atual: a mobilização sem precedentes dos chamados árabes-israelenses, membros da minoria que compõe cerca de 21% da população de Israel.

Em várias partes do país, eles saíram às ruas em solidariedade às famílias palestinas ameaçadas de expulsão no bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental. Na cidade de Lod, os confrontos com policiais e civis judeus levaram o governo a decretar estado de emergência, e o prefeito Yair Revivo disse que há “risco de guerra civil”. Ao longo desta quarta-feira (12), protestos da minoria palestina escalaram para confrontos entre árabes e judeus em diversas cidades em Israel.

Coluna de fumaça após ataque aéreo de Israel em Gaza
Coluna de fumaça após ataque aéreo de Israel em Gaza - Rizek Abdeljawad/Xinhua

O levante dos árabes-israelenses, também conhecidos como palestinos de 1948 —por terem permanecido no território onde o Estado de Israel foi estabelecido naquele ano—, é resultado da discriminação que enfrentam há décadas no país.

Embora disponham de cidadania israelense e usufruam de mais direitos do que os palestinos dos territórios ocupados ou da diáspora —entre os quais o direito ao voto—, na prática são tratados como cidadãos de segunda classe. Eles enfrentam níveis elevados de miséria, desemprego e violência policial. Dados oficiais mostram que 47% das famílias árabes no país vivem abaixo da linha da pobreza, bem acima da média nacional, de 18%.

Além disso, as autoridades israelenses rotineiramente negam alvarás para a construção de novas casas em cidades árabes como Nazaré, agravando o déficit habitacional nessas comunidades, ao mesmo tempo que fomentam cidades e assentamentos judaicos. É um mecanismo com efeitos similares à prática do “redlining” nos EUA, que até a década 1960 segregava bairros negros e brancos nas cidades americanas.

E, da mesma forma que o Estado brasileiro falha na obrigação de demarcar terras indígenas, Israel deixa de reconhecer dezenas de vilarejos beduínos no deserto do Negev. O governo não só nega serviços básicos como água e eletricidade a essas comunidades árabes como tenta repetidamente demoli-las e transferi-las para aglomerados urbanos que nada têm a ver com seu modo de vida tradicional.

Nos últimos anos, a segregação vem tomando contornos cada vez mais institucionais. De acordo com a organização de direitos humanos Adalah, há pelo menos 65 leis discriminatórias que restringem o acesso de palestinos a moradia, educação e direitos civis, impedindo que exerçam plenamente sua cidadania em Israel. Esse é um dos motivos que levaram a ONG israelense B’Tselem e a Human Rights Watch a classificar o país como um regime de apartheid.

Além da discriminação que sofrem em Israel, os membros da minoria árabe também não se veem representados pela Autoridade Nacional Palestina (ANP). São "palestinos esquecidos", na definição do historiador Ilan Pappé, pois foram efetivamente abandonados pela liderança palestina durante os Acordos de Oslo.

Desta vez, é a ANP de Mahmoud Abbas que se encontra escanteada diante dos acontecimentos na região, enquanto os palestinos cidadãos de Israel têm uma oportunidade única de serem ouvidos por meio da mobilização nas ruas.

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