Partidos pró-independência da Escócia crescem e devem pressionar por nova consulta

Reeleita, primeira-ministra Nicola Sturgeon obteve 64 das 129 cadeiras e deve contar com os Verdes, que elegeram 8 deputados

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Bruxelas

A primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, levou seu Partido Nacional Escocês (SNP) a uma nova vitória nas eleições desta quinta (6) e ficou a apenas uma cadeira de conquistar a maioria no Parlamento regional.

Com 64 dos 129 assentos para o SNP e 8 para os Verdes, os partidos pró-independência ampliaram sua participação de 69 para 72 e devem pressionar por um novo plebiscito sobre a separação do Reino Unido —para isso, precisarão vencer a oposição do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, à consulta popular.

“O plebiscito não é uma exigência minha ou do SNP, mas um compromisso assumido com o povo por uma clara maioria de deputados eleitos para o Parlamento. É a vontade do país. E, dado esse resultado, simplesmente não há justificativa democrática para que Boris Johnson ou qualquer outra pessoa tente bloquear o direito do povo da Escócia de escolher nosso próprio futuro”, disse Nicola em discurso neste sábado (8), após a divulgação dos resultados.

Durante a campanha, a primeira-ministra —que entrou na política aos 16 anos movida pela ideia de "liberar seu país de um governo conservador sediado na Inglaterra"— se comprometeu a convocar nova consulta popular até 2023 —"se a pandemia permitir". Há dois meses, Boris havia chamado a hipótese de "completamente inadequada, irrelevante e desnecessária”, usando também a Covid-19 como argumento.

Mulher de casaco longo cor de mostarda e calças escuras caminha em rua molhada pela chuva
A primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, que se reelegeu nesta quinta (6), em Glasgow - Jeff J Mitchell/Reuters

Em mensagem à líder escocesa, o premiê britânico disse que a crise de saúde mostrou a necessidade de manutenção e fortalecimento do Reino Unido e que a retomada econômica exige um projeto conjunto das quatro nações que o formam —Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda do Norte.

Antes da eleição, analistas afirmavam que a conquista de ao menos 65 assentos no Parlamento daria cacife a Nicola para pressionar Boris a ceder. Foi a inédita maioria obtida pelo SNP em 2011 que forçou o então primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron (também do Partido Conservador, como Boris), a aceitar em 2012 a realização do primeiro plebiscito, que ocorreu em 2014.

Apesar do avanço dos políticos pró-independência nesta eleição, não está claro para onde sopram os ventos da opinião pública escocesa. No primeiro plebiscito, a maioria votou pela permanência no Reino Unido. Mas uma fatia ainda maior deles queria continuar na União Europeia, e o clima mudou após a aprovação do brexit pelo conjunto dos britânicos, em 2016.

Escoceses pró-Europa se sentiram traídos, e acirrou-se o sentimento nacionalista de parte da população que vê a Inglaterra favorecida pelo governo central, em detrimento das outras três nações do Reino Unido.

PERFIL

Saiba mais sobre a vida e a carreira da primeira-ministra escocesa

Os escoceses pró-separação passaram a ser maioria em 2019, ajudada pelo bom desempenho de Nicola no combate à pandemia, e a situação perdurou até o mês passado. Nas últimas semanas, as pesquisas indicavam empate técnico: 51% contra; 49% a favor.

Parte desse resultado, dizem analistas, se deve ao sucesso de Boris Johnson na vacinação. Outras hipóteses são o medo de fuga de empresas ou da criação de uma fronteira dura com a Inglaterra.

Há também barreiras práticas importantes que dificultam a separação, como o alto déficit público escocês, a dificuldade de criar uma moeda independente e a oposição dos militares, já que a Escócia abriga importantes bases da Otan (Aliança Militar do Atlântico Norte).

Além disso, a reintrodução na União Europeia —um dos motivos de maior frustração dos escoceses anti-Conservadores— não é automática nem unilateral. Dependeria de condições negociadas com o bloco europeu e poderia levar vários anos.

São todos problemas de longo prazo, porém. Nos próximos dias, o SNP terá que decidir a melhor estratégia para conseguir arrancar do Reino Unido um novo plebiscito. Desde 2016 ele vinha administrando sozinho o país, em um governo de minoria apoiado pelos Verdes nas principais votações.

Uma opção agora pode ser formar uma coalizão pró-independência entre os dois partidos. Uma pesquisa do Instituto YouGov com apoiadores do SNP, feita uma semana antes da eleição, mostrou que uma coligação com os Verdes deixaria 72% "encantados/satisfeitos".

Em alta entre os eleitores mais jovens, os ambientalistas já afirmaram estar dispostos a conversar sobre uma coalizão formal, se o SNP adotar suas plataformas. Na última gestão, seu apoio influenciou políticas como merenda escolar gratuita e proibição de que pessoas fossem despejadas durante a pandemia.

Seja qual for a estratégia adotada por Nicola, não será rápido nem fácil convencer Boris a ceder. “Em Londres, os assessores do primeiro-ministro já estão ensaiando suas falas para a guerra de palavras que se seguirá às eleições”, afirmou Mujtaba Rahman, diretor-executivo para a Europa da consultoria de análise de risco Eurasia.

“Johnson vai ganhar tempo argumentando que a distração de um plebiscito durante a pandemia é imprudente”, escreveu em análise no site informativo Politico. Ele prevê também que o governo britânico tente conquistar os eleitores escoceses com investimentos bilionários em rodovias, ferrovias e outros projetos de infraestrutura.

Por outro lado, afirma Rahman, “negar repetidamente o plebiscito faz o jogo de Sturgeon, alimentando o nacionalismo e construindo ainda mais apoio para a independência”.

O partido Alba, recém-criado pelo ex-ministro Alex Salmond com uma plataforma de plebiscito a qualquer custo, não elegeu nenhum representante para o Parlamento da Escócia. Conservadores mantiveram seus 31 representantes, Trabalhistas passaram de 24 para 22 e Liberais Democratas, de 5 para 4.

ENTENDA A QUESTÃO DA INDEPENDÊNCIA

O que a eleição tem a ver com a independência?

Partidos pró-independência, como o SNP e os Verdes, argumentam que receberam os votos da maioria dos eleitores, o que deixa claro a vontade da população escocesa de que seja feita uma nova consulta popular. Para isso, porém, será preciso convencer o premiê britânico, Boris Johnson, já que um plebiscito depende de autorização do governo do Reino Unido. Até agora, Boris tem dito que não permitirá a votação, porque consultas como essa só devem ocorrer “uma vez em cada geração".

O que implica não ser independente?

O país continua sujeito ao Parlamento Britânico nas áreas de negócios estrangeiros, comércio exterior, defesa, função pública nacional, política econômica e monetária, seguridade social, emprego, regulamentação de energia, a maioria dos aspectos de tributação e alguns aspectos de transporte. O chefe de governo da Escócia é o primeiro-ministro britânico (atualmente, Boris Johnson) e o chefe de Estado é o monarca britânico (atualmente, Elizabeth 2ª). A Escócia elege 59 membros do Parlamento na Câmara dos Comuns e nomeia membros para a Câmara dos Lordes.

Que poderes sobram então para o Parlamento escocês?

Os eleitos aprovam leis sobre aspectos da vida na Escócia, como saúde, educação e transporte, e têm alguns poderes sobre benefícios fiscais e sociais.

Os escoceses já não disseram não à independência?

Em 2014, 55,3% votaram contra a independência em relação ao Reino Unido e 44,7%, a favor. Uma fatia muito maior de escoceses, porém, opunha-se ao brexit: em 2016, 62% deles eram contrários a uma saída da União Europeia. Com a vitória do brexit no conjunto do Reino Unido, o debate sobre a independência recobrou força. Os defensores de uma nova consulta chegaram a 55% no ano passado. Pesquisas mais recentes mostram um empate técnico, com 47% contra e 45% a favor.

ENCONTROS E DESENCONTROS DE ESCÓCIA E INGLATERRA

século 5 d.C - povos celtas da Irlanda se fixam na costa oeste da Grã-Bretanha, e região passa a ser conhecida como Scotia (terra dos escoceses, em latim). Pesquisas indicam fusão de quatro povos (pictos, escoceses, bretões e anglos)

séculos 2 e 3 a.C - Império Romano constrói barreiras, como a Muralha de Adriano, isolando os escoceses de seus domínios ingleses

século 8 a 12 - invasões vikings

séculos 13 a 16 - começam conflitos anglo-escoceses e a Escócia passa a buscar autossuficiência e alianças com a Europa continental

1502 - O rei escocês James 4º faz "tratado de paz perpétua" com Henrique 7º, da Inglaterra

1572 - Rainha Elizabeth 1ª prende na Inglaterra a rainha católica Maria, da Escócia, garantindo estabilidade para o reformista James 6º

1603 - James 6º se torna James 1º da Inglaterra

1652 - Inglaterra impõe à Escócia união parlamentar plena, rompida poucos anos depois; cresce a assimilação política e cultural da Escócia pela Inglaterra

1707 - Escócia se funde com a Inglaterra para integrar o Reino Unido da Grã-Bretanha

1934 - É criado o Partido Nacional Escocês (SNP)

1949 - Pacto Escocês exigindo governo doméstico na Escócia recebe 2 milhões de assinaturas, mas nacionalismo é abafado

1979 - Fracassa tentativa de criar assembleia escocesa com poderes legislativos e executivos limitados

1999 - É eleito o novo Parlamento escocês —o primeiro desde 1707

2007 - SNP conquista maioria dos assentos (47) no Parlamento escocês

2012 - SNP consegue aprovação britânica para votação sobre independência da Escócia

2014 - Em plebiscito, independência escocesa é rejeitada

2016 - Brexit é aprovado pela maioria dos britânicos, com oposição de 62% dos escoceses

2019 - SNP conquista mais 13 assentos no Parlamento britânico, chegando a 48, 7 deles obtidos dos Conservadores; Sturgeon promete convocar novo plebiscito sobre independência se for reeleita no Parlamento da Escócia

Fonte: Encyclopedia Britannica

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