Descrição de chapéu oriente médio

'Quando estamos sob bombas, sentimos que é o pior dia das nossas vidas', diz professor em Gaza

Refaat Alareer compara situação na Palestina com apartheid na África do Sul

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Daniel Avelar
São Paulo

​Para o palestino Refaat Alareer, professor universitário em Gaza, os 11 dias seguidos de bombardeios israelenses foram os piores da sua vida. “Quando estamos sob bombas, sentimos que é o pior dia das nossas vidas, mas daí vem o dia seguinte e é ainda pior”, diz à Folha.

A troca de mísseis entre Israel e Hamas, grupo islâmico que governa Gaza, foi interrompida na madrugada de sexta-feira (21), após um cessar-fogo. Ao menos 243 pessoas morreram no enclave palestino, e dezenas de milhares buscaram abrigo em escolas mantidas pela ONU.

Durante os bombardeios, Alareer, 42, permaneceu em casa com sua mulher e as filhas de 6 e 8 anos. Ele diz que as crianças acordavam à noite “gritando e tremendo de medo”.

Eu vivo na cidade de Gaza, capital da Faixa de Gaza e principal alvo dos bombardeios israelenses nas últimas semanas. A situação aqui é de devastação total, você vê as imagens e parece que fomos atingidos por um terremoto. Nossas escolas, ruas, delegacias e clínicas foram destruídas.

Nunca vimos bombardeios como estes. O barulho é muito mais alto do que qualquer tempestade que você já tenha ouvido. É ensurdecedor, amedrontador, aterrorizante. Se um míssil cai sobre uma casa, danifica todas as casas ao redor e faz tremer tudo a quilômetros de distância.

Crianças palestinas em casa que foi destruída por ataques, na cidade de Gaza - Mohammed Abed - 21.mai.21/AFP

Não dá para se sentir seguro em nenhum lugar em Gaza. Nem dormir conseguimos porque os bombardeios não param nunca, e durante a madrugada fica uma loucura absoluta. Minhas filhas acordam gritando e tremendo de medo. Quando estamos sob bombas, sentimos que é o pior dia das nossas vidas, mas daí vem o dia seguinte e é ainda pior.

Quando destruíram o prédio que sediava Redações de veículos de comunicação, as pessoas foram avisadas e tiveram 10, 15 minutos para sair dali. O governo israelense tenta se mostrar piedoso, bondoso, mas que tipo de civilidade é essa que destrói nossas vidas, nossas memórias, nosso sustento?

À noite naquele mesmo dia, Israel destruiu um quarteirão inteiro com um único bombardeio, sem avisar ninguém antes. As ambulâncias demoraram muito tempo até chegar ao local porque as ruas que levam ao hospital haviam sido destruídas.

Nesse massacre horrível morreram 42 pessoas, sendo que 17 delas eram da mesma família, a família Al-Kulak. Uma das sobreviventes é minha aluna de inglês na universidade, ela está em estado crítico no hospital e ainda não foi informada que seus dois irmãos, suas duas irmãs e sua mãe estão mortos. É de partir o coração.

Refaat Alareer, PhD em literatura inglesa e professor de poesia e escrita criativa na Universidade Islâmica de Gaza
Refaat Alareer, professor de poesia e escrita criativa na Universidade Islâmica de Gaza - Arquivo pessoal

Também morreram nesse ataque dois médicos que trabalhavam no maior hospital de Gaza, um dos quais coordenava a resposta à pandemia. Assim como o Brasil, Gaza está infestada com Covid, mas nossas clínicas de testagem e vacinação foram bombardeadas.

Outro dia Israel destruiu um prédio em que ficava a maior livraria de Gaza, a única que importava livros em inglês. Israel quer destruir nossa educação, nossas artes, nossa cultura.

Nenhum país deveria estar usando mísseis contra civis. Sabemos que Israel tem tecnologia, mas está atacando civis deliberadamente e escolhe maximizar a destruição.

A política israelense sempre foi bastante extrema, mas agora está indo muito para a direita. O premiê Binyamin Netanyahu é um criminoso de guerra que usa os palestinos como moeda de troca para receber mais votos.

Agora, se você começa a contar nossa história pelos bombardeios, você ignora o resto do que está acontecendo em Gaza. Três a cada quatro moradores de Gaza são de famílias de refugiados expulsos de suas casas em 1948. Estamos sob ocupação israelense desde 1967 e sob bloqueio desde 2007. Israel controla tudo o que entra na Faixa de Gaza, e isso tem efeitos devastadores sobre as nossas vidas.

Israel é um projeto colonial em estado constante de agressão contra os nativos palestinos, não importa se estamos armados ou desarmados.

Lá Fora

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O racismo tem crescido contra os palestinos cidadãos de Israel, a Cisjordânia está sendo tomada por colonos e lá não há armas ou foguetes. A forma mais extrema dessa violência acontece em Gaza porque nos recusamos a nos render. Não temos opção a não ser nos defender.

Nós não queremos pegar em armas, queremos que essa ocupação acabe pacificamente. Quero poder comprar coisas e viajar com facilidade, não quero ter que me preocupar com as minhas filhas correndo risco de serem mortas por mísseis israelenses.

Agora que o mundo finalmente começa a ver os crimes de Israel, vários líderes vêm dizer que a situação é complicada. Não há equivalência moral entre um regime que recebe apoio dos EUA, da Alemanha e da França e, do outro lado, um povo que é sitiado, brutalizado e oprimido.

Nós não confiamos na mídia convencional, pois muito do que falamos acaba sendo editado ou censurado. Por isso, peço às pessoas que busquem palestinos nas redes sociais e ouçam as nossas histórias.

Nós vemos que há uma solidariedade incrível ao redor do mundo. Mesmo no Brasil sabemos que há muito apoio, apesar de vocês terem um líder maluco semelhante ao Donald Trump.

O que nós pedimos é que as pessoas boicotem Israel e pressionem seus políticos. Após muita pressão e sanções, esperamos que isto termine, como aconteceu com o apartheid na África do Sul.

Como palestinos, acreditamos que nossa causa seja parte de uma luta global contra o racismo. Hoje, nós nos organizamos contra a ocupação israelense, amanhã contra o racismo e depois contra as políticas anti-indígenas. Essa é a beleza de lutarmos juntos contra a opressão.

Erramos: o texto foi alterado

site O bloqueio israelense contra a Faixa de Gaza teve início em 2007, e não em 2006. O texto foi corrigido.

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