Quem são as crianças mortas durante o conflito entre Israel e Hamas

Bombardeios e ataques de foguete deixaram 66 crianças mortas em Gaza e 2 em Israel

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Mona El-Naggar Adam Rasgon Mona Boshnaq
The New York Times

Minutos após explodir a guerra entre Israel e o Hamas, um menino de cinco anos de idade chamado Baraa al-Gharabli foi morto em Jabaliya, em Gaza. Um garoto de 16 anos, Mustafa Obaid, morreu no mesmo ataque, na noite de 10 de maio. Mais ou menos na mesma hora, quatro primos morreram em Beit Hanoun, também em Gaza: Yazan al-Masri, 2, Marwan al-Masri, 6, Rahaf al-Masri, 10, e Ibrahim al-Masri, 11.

“Foi arrasador”, comentou outro primo deles, Mukhlis al-Masri. “A dor de nossa família é indescritível.”

Quando lhe pedem para descrever o que sentiram, muitos pais responderam apenas “foi a vontade de Deus”. Suas vozes muitas vezes estão reduzidas a um sussurro, suas palavras transmitem resignação. Disseram que seus filhos sonhavam em ser médicos, artistas ou líderes.

Crianças palestinas vistam um prédio destruído pelos bombardeios israelenses em Beit Lahia, na Faixa de Gaza
Crianças palestinas vistam um prédio destruído pelos bombardeios israelenses em Beit Lahia, na Faixa de Gaza - Mahmud Hams - 25.mai.21/AFP

“Ainda não consigo acreditar”, disse o motorista de táxi Saad Asaliyah, de Jabaliya, que perdeu sua filha de 10 anos. “Tento me acalmar pensando que Deus quis que ela se fosse.”

Em 11 dias de combates entre Israel e o Hamas neste mês, pelo menos 66 crianças e adolescentes menores de 18 anos morreram em Gaza e 2 em Israel, segundo informações iniciais.

Quase todas as crianças mortas eram palestinas. Gaza é densamente povoada, e sua população é sobretudo jovem; metade dos habitantes tem menos de 18 anos. Assim, quando aviões de guerra israelenses atacam casas e bairros residenciais, o número de crianças em risco é altíssimo. Às vezes famílias quase inteiras desaparecem em uma mesma explosão.

Israel culpa o Hamas pelo alto número de civis mortos em Gaza, porque a organização dispara foguetes e conduz operações a partir de zonas com população civil. Os críticos a Israel citam o número de mortos como prova de que os ataques foram indiscriminados e desproporcionais.

As crianças são as mais vulneráveis. Em Gaza, crescem em meio a desemprego e pobreza generalizados. Não podem se deslocar livremente dentro do território ou para fora dele, devido ao bloqueio imposto por Israel e Egito. E vivem sob a ameaça constante de guerra. Um adolescente de 15 anos em Gaza já passou por quatro ofensivas israelenses e quase todos no território conhecem alguém que morreu nos combates.

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“Quando penso nas crianças que morreram”, comentou a psicóloga infantil Ola Abu Hasaballah, em Gaza, “penso também naquelas que sobreviveram, que foram tiradas dos escombros e perderam uma perna ou um braço, penso naquelas que vão voltar à escola e ver que sua amiga desapareceu.”

Quando as sirenes tocaram às 3h de 12 de maio no povoado árabe de Dahmash, na zona central de Israel, Nadine Awad, 16, e seu pai correram para fora de casa para tentar se proteger. Quem conta é o tio de Nadine, Ismail Arafat. Mas um foguete disparado desde Gaza caiu ao lado da casa dela e matou os dois.

A orientadora escolar de Nadine, Sirin Slameh, conta que ela era uma das melhores alunas da classe. Falava inglês fluente, aprendera sozinha a tocar piano e participava de programas de coexistência entre judeus e árabes. Na semana anterior tinha recebido nota 97 numa prova de matemática, disciplina na qual tinha dificuldades. Nadine tinha uma relação muito próxima com seu pai e o seguia em toda parte, contou Arafat. “O triste é que ela o seguiu para fora quando as sirenes tocaram. Agora ela o seguiu até o túmulo.”

A maioria das crianças mortas era palestina e morreu em ataques aéreos de Israel. Mas há exceções.

Pelo menos duas das crianças mortas em Gaza —Baraa al-Gharabli e Mustafa Obaid— podem ter morrido quando militantes palestinos dispararam um foguete contra Israel que não alcançou seu alvo. É o que revelou uma investigação inicial da Defense for Children International-Palestine.

E uma das crianças mortas em Israel, Nadine Awad, era palestina. “Os foguetes não diferenciam entre árabes e judeus”, comentou o tio de Nadine, Ismail Arafat.

Yahya Khalifa, 13, gostava de andar de bicicleta, tinha decorado vários capítulos do Alcorão e sonhava em um dia visitar a mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém. “Ele era um garoto doce e inocente”, disse seu pai, Mazen Khalifa. Yahya saiu por pouco tempo, prometendo comprar iogurte e sorvete para a família, contou seu pai, e foi morto num ataque aéreo de Israel.

As identidades das crianças mortas, suas fotos e as circunstâncias em que morreram foram informadas por seus pais e outros familiares, professores e escolas em Gaza e Israel a organizações internacionais de direitos humanos, autoridades palestinas, redes sociais e organizações noticiosas em Gaza e Israel. A maioria dos detalhes foi corroborada por diversas fontes.

Montagem mostra algumas das crianças e adolescentes mortos no confronto entre Israel e Hamas
Montagem mostra algumas das crianças e adolescentes mortos no confronto entre Israel e Hamas - The New York Times

As Forças Armadas de Israel dizem tomar medidas rigorosas para prevenir mortes de civis. Dizem que seus bombardeios visaram principalmente a rede de túneis do Hamas, uma instalação militar que passa por baixo de bairros civis. Mas muitas pessoas de Gaza dizem que o grande número de civis mortos deixa claro que quaisquer precauções que Israel possa adotar são tragicamente insuficientes.

“As pessoas pensam que deve haver alguma lógica”, disse Raji Sourani, diretor do Centro Palestino de Direitos Humanos em Gaza, “mas em última análise eles querem provocar dor e sofrimento.” O número pequeno de baixas do lado israelense também refletiu um desequilíbrio nas capacidades defensivas.

O Hamas e outros grupos militantes dispararam mais de 4.000 foguetes contra cidades israelenses, também indiscriminadamente. Mas a maioria dos foguetes, 90%, foi interceptada pelo sistema de defesa antiaérea Domo de Ferro. E muitos israelenses têm abrigos de segurança em suas casas.

A maioria dos habitantes de Gaza não tem acesso a abrigos. Muitas pessoas tentam se refugiar nas escolas das Nações Unidas, mas esses locais também já foram bombardeados, intensificando a sensação de que qualquer pessoa pode ser morta em qualquer lugar.

Mesmo em Israel, cidadãos árabes nem sempre têm acesso igual a abrigos antibombas. Nadine Awad, morta por um foguete disparado de Gaza, vivia num povoado árabe que não tem abrigo.

Fawziya Abu Faris, 17, acordava cedo todas as manhãs em Umm al-Nasr, comunidade beduína no norte de Gaza, para ordenhar as ovelhas da família e fazer queijo e iogurte frescos, segundo seu pai, Nasser Abu Faris. Era pouco depois da meia-noite em Beit Lahia, em Gaza, e três crianças apavoradas estavam se protegendo no colo de sua mãe. Muhammad-Zain al-Attar, 9 meses, estava sentado no meio, com sua irmã Amira al-Attar, 6, e seu irmão Islam al-Attar, 8, de cada lado.

O pai das crianças, Muhammad al-Attar, contou que a primeira bomba caiu na entrada do apartamento térreo deles, encurralando a família e deixando-a sem possibilidade de sair. A segunda, instantes depois, derrubou o prédio de três andares. Al-Attar conseguiu sair dos escombros e sobreviveu. Sua mulher e seus filhos morreram esmagados sob uma coluna de concreto. Seus corpos foram encontrados ainda juntos.

Especialistas em saúde mental e organizações independentes que trabalham com jovens em Gaza dizem que as crianças geralmente apresentam transtorno de estresse pós-traumático, medo e ansiedade crônicos. Esses sentimentos podem provocar pesadelos debilitantes e comportamentos autodestrutivos ou agressivos. “Viver em Gaza já é uma experiência muito violenta e assustadora para crianças, porque elas vivem sob um governo militar constante”, explicou Karl Schembri, porta-voz do Conselho Norueguês para Refugiados, que promove um programa de psicoterapia e educação para crianças em Gaza. Onze das crianças atendidas pelo grupo foram mortas neste mês, todas dentro de casa.

“Elas estavam recebendo assistência e atendimento para tentarem superar seus pesadelos e traumas”, disse Schembri. “Agora estão enterradas com seus sonhos e seus pesadelos.”

Em 19 de maio, um dia antes de Israel e o Hamas concordarem com um cessar-fogo, Dima Asaliyah, 10, voltava a pé da casa de sua irmã mais velha com um forno elétrico de pizza. Conforme seu pai, Saad Asaliyah, era um forno pequeno, do tamanho de uma bola de futebol, que a família usava para assar pão.

Um drone espião israelense estava sobrevoando o local. Saad Asaliyah se pergunta agora se os soldados israelenses confundiram o forno elétrico com uma arma. “Talvez os alarmes deles tenham disparado por causa do forno”, diz ele. “Mas será que não viram que ela era criança?” Houve uma explosão, e sua filha mais jovem desapareceu. “Você está vendo a foto dela?”, disse. “Ela é digna de nossa dor.”

Tradução de Clara Allain

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