Descrição de chapéu oriente médio

Irã elege chefe ultraconservador do Judiciário à Presidência do país

Participação no pleito que elegeu Ebrahim Raisi foi de 48,8%, a menor mobilização registrada desde a instauração da Repúlica Islâmica, em 1979

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Teerã | AFP e Reuters

O juiz ultraconservador Ebrahim Raisi, 60, chefe do Judiciário do Irã, venceu a eleição presidencial com 61,95% dos votos, segundo os resultados divulgados neste sábado (19) pelo ministro do Interior, Abdolfazl Rahmani Fazli. Ele se torna, assim, o sucessor de Hassan Rowhani sem a necessidade de disputar o segundo turno, como reconheceram seus adversários no pleito.

Também de acordo com o ministro Fazli, a participação nesse pleito foi de 48,8%, a menor mobilização já registrada para uma eleição presidencial desde a instauração da República Islâmica, em 1979, e uma cifra muito abaixo dos 73% registrados em 2017. No total, há mais de 59,3 milhões de iranianos aptos a votar.

O atual presidente do Irã, Hassan Rowhani, à esq., e o presidente eleito, Ebrahim Raisi, falam à imprensa após encontro em Teerã
O atual presidente do Irã, Hassan Rowhani, à esq., e o presidente eleito, Ebrahim Raisi, falam à imprensa após encontro em Teerã - Presidência do Irã via Reuters

Na divulgação dos dados parciais, o general Mohsen Rezai, ex-comandante da Guarda Revolucionária e também ultraconservador, estava na segunda posição, com 11,5% dos votos, à frente do ex-presidente do Banco Central Abdolnaser Hemmati (8,3%) e do parlamentar Amir Hossein Hashemi (3,4%).

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O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, celebrou a vitória de Raisi, de quem é próximo, como um triunfo do país contra a "propaganda do inimigo". "A grande vencedora das eleições é a nação, porque se levantou outra vez frente à propaganda da mídia mercenária do inimigo", disse, em referência aos EUA.

Pouco antes do anúncio dos primeiros resultados, segundo os quais cerca de 14% dos votos foram brancos ou nulos, Rowhani, o atual presidente, afirmou que havia um candidato ganhador em primeiro turno, mas não o nomeou. "Parabenizo o povo pela sua escolha [...] Sabemos quem obteve os votos suficientes nesse pleito e quem foi eleito hoje [sábado] pelo povo", disse ele, em discurso exibido na TV.

Em mensagens em redes sociais ou retransmitidas nos meios de comunicação iranianos, porém, os três adversários de Raisi logo reconheceram a vitória do juiz ultraconservador.

A votação foi estendida de maneira considerável, até as 2h de sábado, no horário local, para permitir maior participação, tendo em conta a pandemia de coronavírus, que já deixou oficialmente 82.746 mortos, segundo dados da Universidade Johns Hopkins, em uma população de quase 83 milhões de habitantes.

Raisi tem um passado marcado por repressão em sua carreira no Judiciário. Nos anos 1980, durante a fase de perseguição e assassinatos que se seguiu à Revolução Islâmica de 1979, o então juiz teria autorizado muitas das mortes e torturas, segundo denúncias de dissidentes.

No cenário externo, a perspectiva da volta da linha dura ao poder automaticamente liga o alerta para uma relação ainda mais conflituosa com o Ocidente, em um momento de potencial abertura com os EUA, devido à eleição de Joe Biden, segundo a leitura de analistas ocidentais. Por outro lado, há quem veja que o Irã, mesmo sob Raisi, vai adotar uma política externa pragmática, de negociação, ainda que por necessidade, já que o país busca o fim das sanções para contornar as dificuldades econômicas.

Assim, essa postura conservaria a negociação em torno do restabelecimento do acordo nuclear.

O agora presidente eleito teve pista livre devido à falta de concorrência real após a desclassificação de seus principais adversários, vetados pelo Conselho de Guardiões, que sofre forte influência do aiatolá Khamenei. Raisi, aliás, como chefe do Judiciário, é quem indica metade dos nomes do conselho.

O órgão não precisa justificar os motivos da desqualificação dos candidatos, escolhidos entre 40 nomes aprovados após alcançarem critérios básicos —cerca de 600 pessoas se inscreveram para o pleito.

Assim, foram barrados nomes importantes, como o popular ex-presidente do Legislativo Ali Larijani, um dos atuais vice-presidentes, Eshaq Jahangiri, e o polêmico ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad, que, em uma mensagem de vídeo na sexta-feira, definiu a eleição como organizada "contra os interesses do país".

Rowhani, por sua vez, um moderado que deixará a Presidência em agosto, termina seu segundo mandato com alto índice de impopularidade. Em 2017, quando foi reeleito com 38% dos votos, em uma vitória justamente contra Raisi, o Irã vivia os benefícios do acordo nuclear firmado com os Estados Unidos e outras potências, que abriu o país para investimentos estrangeiros, e a sociedade, para novos costumes.

Os shoppings de Teerã estavam repletos de marcas ocidentais, canteiros de obras espalhavam-se pela capital e ativistas combatiam com maior afinco normas que reprimiam a liberdade das mulheres, como a proibição de assistir a jogos de futebol nos estádios. O país, no entanto, passou a enfrentar uma dura crise econômica após a imposição de sanções pelos EUA, que, sob o comando de Donald Trump, deixaram o acordo nuclear. Rowhani e os patrocinadores do pacto então passaram a ser questionados.

Em janeiro de 2020, os americanos também assassinaram no Iraque o popular general iraniano Suleimani, comandante da força de elite da Guarda Revolucionária, exacerbando o sentimento conservador e anti-ocidental na parcela mais religiosa da população. Os mais moderados e reformistas ainda foram silenciados quando os protestos de 2019 e 2020 foram duramente reprimidos pelas forças de segurança.

Para a oposição no exílio e ONGs, Raisi é a personificação da repressão, e seu nome está associado às execuções em massa de detidos em 1988, embora ele negue qualquer envolvimento. O presidente eleito está na lista negra de autoridades iranianas sancionadas por Washington devido a "cumplicidade em graves violações dos direitos humanos". Neste sábado, logo após o anúncio da vitória de Raisi, a Anistia Internacional reforçou os pedidos para que ele seja investigado pelos episódios na década de 1980.

"As circunstâncias que cercam o destino das vítimas e o paradeiro de seus corpos são, até hoje, sistematicamente ocultadas pelas autoridades iranianas, representando crimes em andamento contra a humanidade", disse a secretária-geral da ONG, Agnès Callamard, em um comunicado.

Por outro lado, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, parabenizou Raisi pela vitória, de acordo com a agência de notícias RIA citando um assessor de imprensa da embaixada em Teerã. O líder russo também expressou esperanças de "um maior desenvolvimento de uma cooperação bilateral construtiva". Da mesma forma, o líder da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, também celebrou a eleição do ultraconservador.

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