Descrição de chapéu Mundo leu China

Frustrante, livro reúne acadêmicos brasileiros para tentar explicar a China

Obra traz seis artigos, que vão da economia à literatura do país asiático

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Carlos Graieb
São Paulo

"China Contemporânea - Seis Interpretações" não poderia ter um propósito melhor: reunir brasileiros de várias disciplinas, da economia à literatura, para escrever sobre um país que, confessadamente, tem planos para reinventar o mundo. Há pouca produção intelectual brasileira sobre a China, muito menos do que seria necessário. Por isso, fui ao livro organizado pelo sociólogo Ricardo Musse com bastante interesse, mesmo sabendo que a pegada era acadêmica. Mas saí frustrado.

Começo pelo que funciona. O melhor dos seis artigos é "Civilização Ecológica ou Colapso Ambiental?", do cientista social Luiz Henrique Vieira de Souza. Ele testa a consistência do discurso sobre "civilização ecológica" adotado pelo Partido Comunista Chinês. A conclusão é que ainda se trata de um "glamoroso instrumento retórico", mais do que um conjunto eficaz de medidas para deter a destruição de recursos naturais e o aquecimento global. Dentro da China, diz Souza, metas de preservação são estabelecidas de maneira autoritária pelo governo central e implantadas seletivamente pelos governos regionais, a depender das recompensas envolvidas. Além disso, os chineses incentivariam a degradação do meio ambiente em outros países, ao investir na produção de energia e alimentos fechando os olhos para como ela se dá.

Outro bom artigo é o do economista Bruno Hendler, sobre a rivalidade entre China e Estados Unidos. Hendler mergulha em números para verificar se a ascensão chinesa neste começo de século pode ser comparada à dos americanos depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Sua resposta é negativa: por diversas razões, em particular a marginalidade do iuane em relação ao dólar, ele não vê condições para que a China ocupe um papel hegemônico. O país pode almejar, no máximo, ombrear com os EUA. Seria interessante ouvir o que Hendler tem a dizer sobre a tese da existência de uma nova Guerra Fria.

O ensaio do economista Alexandre de Freitas Barbosa, que abre o livro, é uma leitura árdua. Numa perspectiva de séculos, e não décadas, ele confronta em poucas páginas as teorias de muitos historiadores da economia, em busca da "explicação perfeita" para a ascensão da China. O intuito é descrever a evolução chinesa em termos próprios, e não como um desvio da norma ocidental. Mas o esforço de abstração é tão grande que, no fim, países deixam de ser países para se tornar "posições estruturais no âmbito do capitalismo". Nesse esquema, a escolha de modelos políticos mais abertos ou repressivos de repente se torna irrelevante. O leitor se pergunta se alcançar esse ponto de vista "neutro" não era a meta desde o início.

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Essa ambiguidade não existe no texto a quatro mãos de Elias Jabbour e Alexis Dantas e no texto de Wladimir Pomar. Desde as primeiras linhas fica claro que eles têm um compromisso ideológico. Jabbour e Dantas afirmam que a China presenteia o mundo com uma "moderna geopolítica popular, anticolonialista e de libertação nacional". Os habitantes de Hong Kong com certeza não veem dessa forma. Pomar é apresentado como um ativista político marxista e faz jus ao título.

Dos seis ensaios, o mais desconcertante é o do crítico cultural Francisco Foot Hardman. Ele parece ter algo a dizer sobre a maneira como artistas chineses —o romancista Mo Yan e o cineasta Jia Zhangke— falam das devastações causadas pelo progresso. Parece ainda enxergar pontos de contato entre a cultura brasileira e a chinesa. Mas é impossível ter certeza. Hardman diz que seu texto é uma "síntese provisória". Aguardemos a definitiva.

China Contemporânea - Seis Interpretações

  • Preço R$ 49,80 (brochura) e R$ 34,90 (e-book)
  • Autor Ricardo Musse (org.)
  • Editora Autêntica
  • Págs. 198
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