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Fantasma de Saigon assombra planos de Biden no Afeganistão

Provável evacuação dos americanos em Cabul mostra que roteiro do presidente não era perfeito

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São Paulo

O relato de que os Estados Unidos já preparam a evacuação de seus 1.400 funcionários da embaixada e outros americanos em Cabul, devido ao avanço do Taleban no Afeganistão, traz à tona um fantasma de 46 anos atrás.

Em 30 de abril de 1975, a queda de Saigon marcava a derrota final dos EUA na Guerra do Vietnã para as forças comunistas, simbolizada por uma fotografia do dia anterior, com um agente da CIA ajudando americanos da embaixada desesperados a embarcar num helicóptero.

Clássica foto do holandês Hugh van Es com a evacuação de pessoal da Embaixada dos EUA em Saigon, no dia 29 de abril de 1975
Clássica foto do holandês Hugh van Es com a evacuação de pessoal da Embaixada dos EUA em Saigon, no dia 29 de abril de 1975 - Hugh van Es - 29.abr.1975/AFP/ANP/Spaarnestad

O impacto na psique americana da humilhação final cobrou seu preço por anos, tanto nas guerras culturais vigentes até hoje em sua política quanto nas artes —basta ver a quantidade de filmes lidando com a questão do Vietnã.

As guerras do 11 de setembro de 2001 são de outra natureza, com traumas nacionais mais limitados apesar de os EUA terem sido derrotados novamente, e isso pesou na decisão do presidente Joe Biden de abandonar o atoleiro afegão após 20 anos.

No seu cálculo, o fastio dos americanos com as guerras será o suficiente para manter o apoio à decisão. É uma boa aposta, mas o relato sobre o previsível plano de evacuação de Cabul trazido pelo jornal New York Times nesta quinta (12) é um lembrete de que o plano tem riscos.

Na concepção inicial de Biden, os americanos sairiam no aniversário exato de 20 anos do ataque aos EUA. Talvez alertado por algum "spin doctor" mais esperto, resolveu adiantar a coisa para 31 de agosto e, hoje, praticamente não tem mais tropas no Afeganistão.

Como se sabe, o Taleban, expulso do poder por abrigar a Al Qaeda que atacou os americanos, aproveitou a deixa e organizou uma ofensiva maciça que poderá colocar Cabul de joelhos em um mês, nas contas apresentadas pelo NYT.

Até aí, com o público americano querendo ver o Afeganistão pelas costas, tudo bem para Biden.

O risco eventual de o país voltar a ser um califado medieval com mulheres escravizadas ou o Taleban dar guarida à uma ressurreição do Estado Islâmico poderiam ficar para depois.

De preferência, após as eleições congressuais de 2022, exceto que americanos acabem degolados ou alguma bomba exploda no Ocidente, resultados da retirada do Iraque.

Mas aí entra o fantasma vietnamita. Se a evacuação já é ruim o suficiente, muita coisa errada pode ocorrer no processo —embora seja bem possível que o Taleban o garanta, para evitar acusações de banditismo e tentar se mostrar como um ator responsável.

Isso é insondável, e a eventual queda de Cabul será analisada também pela métrica das pesquisas de popularidade diárias da Casa Branca.

Para o dia seguinte, a esperança americana parece residir numa proatividade da China, Paquistão, Índia, Turquia, Irã e Rússia, que já se mexem para garantir espaços do butim geopolítico. Como os atores indicam, os interesses são contraditórios entre si e quase sempre com os dos EUA, contudo.

A mais longa guerra americana pode estar perto do fim, mas seus efeitos ainda vão demorar para passar.

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