EUA e Reino Unido vão armar Austrália com submarino nuclear contra a China

Países estreitam laço, em mais um passo de Biden para pressionar Pequim no Indo-Pacífico

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São Paulo

Buscando reforçar seus aliados na disputa contra a China no Indo-Pacífico, os Estados Unidos e o Reino Unido fecharam um pacto militar cujo principal objetivo é armar a Austrália com submarinos de propulsão nuclear.

O acordo foi anunciado nesta quarta (15) pelo presidente Joe Biden e pelos premiês Boris Johnson (Reino Unido) e Scott Morrisson (Austrália), em videoconferência.

Com Scott Morrisson na tela (esq.), Biden ouve a fala de Boris Johnson na Casa Branca
Com Scott Morrisson na tela (esq.), Biden ouve a fala de Boris Johnson na Casa Branca - Brendan Smialowski/AFP

Sem muitos detalhes, os líderes disseram que um programa para fabricar as embarcações na ilha-continente será desenvolvido em um ano e meio. Os três reforçaram que se trata de um submarino movido a energia nuclear, e não armado com armas atômicas —que a Austrália nem possui.

Além disso, haverá cooperação nos campos de cibersegurança, inteligência artificial e informações. Mas o foco principal é militar.

Segundo Biden, os aliados "estarão juntos para enfrentar as ameaças do século 21", naturalmente sem citar a China, para garantir o "Indo-Pacífico livre".

A embaixada chinesa em Washington, por sua vez, pediu que os rivais “sacudissem a mentalidade de Guerra Fria”.

A aproximação é mais um sinal inequívoco de que Biden resolveu acelerar a estruturação de um arcabouço visando conter estrategicamente a China em seu quintal geopolítico: os mares por onde passam exportações e importações de Pequim.

A retirada americana do Afeganistão, por caótica que tenha sido e com efeitos ainda insondáveis, também liberou energia para Washington empregar na região asiática.

Na semana que vem, o americano presidirá pela primeira vez um encontro presencial de chefes de Estado dos países do Quad, o grupo que une EUA, Japão, Índia e Austrália. Formado em 2007 e revitalizado dez anos depois, o clube visa cercar estrategicamente a China e suas saídas para o mar.

Biden já havia feito o primeiro encontro de alto nível do Quad virtualmente, em maio. Até aqui, as promessas de cooperação mais estreita e o uso de distribuição de vacinas para Covid-19 a aliados chineses não avançaram.

De todo modo, tudo isso coloca em novo nível a Guerra Fria 2.0 declarada por Donald Trump em 2017. A Austrália vem se estranhando progressivamente com a China, com disputas que vão de direitos de gestão de portos na ilha à presença de estudantes chineses no país.

Subjacente a esse contexto, o temor geopolítico da expansão crescente da ditadura de Pequim. Sob o governo de Xi Jinping, a partir de 2012, o país tornou-se muito mais assertivo, dando peso político à sua posição de segunda maior economia do mundo.

Central para as pretensões chinesas está a manutenção de suas rotas marítimas, a começar pelo mar do Sul da China. A partir de 2014, Xi militarizou atóis e ilhotas, clamando para si 85% das águas da vasta região, no que foi desafiado em fóruns internacionais até agora com sucesso por países como as Filipinas.

Na prática, contudo, a China fincou sua bandeira. Passam por lá o grosso de suas exportações e, tão importante quanto, o influxo energético de petróleo do Golfo Pérsico.

É aí que entra o papel militar previsto para a Austrália. Com Nova Déli crescentemente afastada de Pequim, como o conflito entre os países no Himalaia no ano passado demonstrou, a Índia garante uma frente firme no Índico.

O Japão, por sua vez, está muito próximo e vulnerável em caso de conflito com a antiga rival China. Já a Austrália proporciona uma profundidade estratégica ao arranjo, como uma grande base ao sul —isso sob a ótica americana, claro, dado que os EUA já atuam ativamente nos mares da região.

O apoio de Washington tem impactos de outra ordem. Segundo a imprensa australiana, ainda sem ter detalhes dos termos do pacto, o fornecimento irá enterrar uma compra bilionária feita por Camberra da França.

Trata-se de um projeto de 2016, que prevê a fabricação na Austrália de 12 modelos de propulsão diesel-elétrica franceses, derivados do desenho nuclear Barracuda. A conta do projeto já foi dobrada, chegando a astronômicos R$ 345 bilhões.

Como está em marcha lenta, a construção pode ser jogada fora se a Austrália pagar uma multa de cerca de R$ 2 bilhões ao Naval Group francês —o mesmo que fabrica no Brasil quatro modelos convencionais e, no futuro, um nuclear em acordo com a Marinha.

Biden até assoprou, elogiando a "presença da França" no mar do Sul da China e a cooperação entre os países da Otan (aliança militar ocidental). Hoje a Austrália tem seis modelos convencionais de desenho sueco.

Uma embarcação de propulsão nuclear, que pode permanecer submersa por muito tempo e agir em longas distâncias, mudaria o padrão de jogo da Austrália, permitindo patrulhas, por exemplo, no mar do Sul da China.

Hoje apenas os cinco membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas, EUA, Rússia, China, Reino Unido e França, além da Índia, operam modelos nucleares —e todos têm também barcos com capacidade de lançar mísseis balísticos armados com ogivas atômicas, diferentemente do proposto agora.

O anúncio causou um ruído com a aliada Nova Zelândia, cuja premiê, Jacinda Ardern, afirmou que, se a Austrália tiver um submarino nuclear, isso não mudará a proibição que seu país impõe de trânsito desse tipo de embarcação em suas águas.

Por fim, a presença de Londres no acordo, além de fazer sentido, já que a Austrália faz parte da Comunidade Britânica, confirma a tentativa do governo de Boris de se manter relevante no palco global.

O envio do novo porta-aviões britânico, o HMS Queen Elizabeth, para áreas de interesse chinês foi um sinal inicial desse comprometimento com os EUA.

Aos chineses, por ora sobra o apoio robusto da Rússia de Vladimir Putin, que também tem exercitado suas forças no Pacífico, além de se estranhar com navios americanos por lá.

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