Alemanha suspende gasoduto russo e agrava crise entre Europa e Putin

Berlim dá quatro meses para regularização de documentos; Polônia ataca refugiados na fronteira com a Belarus

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São Paulo

A crise entre Rússia e Europa ganhou um novo capítulo nesta terça (16), com a Alemanha suspendendo a certificação para operação do novo gasoduto que Moscou completou ligando seu território ao alemão.

O Nord Stream 2 é o segundo ramal de um megaprojeto iniciado nos anos 2000. Duplica a capacidade de transporte de gás natural pelo mar Báltico, possibilitando à Rússia desviar o fornecimento que hoje é majoritariamente feito por meio da rival Ucrânia e da turbulenta aliada Belarus.

Imigrante ilegal foge de canhão d'água polonês na fronteira do país com a Belarus
Imigrante ilegal foge de canhão d'água polonês na fronteira do país com a Belarus - Leonid Schchlegov/AFP

A decisão da Agência Federal de Redes alemã é amparada num tecnicismo. De acordo com o órgão, a operação do gasoduto precisa ser feita por uma empresa totalmente submetida à lei alemã.

Só que a Gazprom, gigante russa do gás, montou um consórcio com empresas europeias com sede na Suíça e uma subsidiária alemã para operar os trechos do projeto no país europeu. Segundo a agência, essa nova empresa terá quatro meses para regularizar sua situação.

Assim, o gás talvez só seja bombeado pelo novo ramal no ano que vem. O Nord Stream 2 foi completado, após seis anos de obras, em setembro. Uma das mais controversas heranças de Angela Merkel, de saída depois de 16 anos, a iniciativa aumenta o poder de barganha de Putin no mercado energético europeu.

Os russos já fornecem 40% do produto consumido pela UE e foram acusados de reter gás durante a crise de abastecimento no continente, neste ano, visando lucro e pressão política. O Kremlin nega.

É improvável que o gasoduto não entre em operação, apesar do lobby americano e mesmo de setores alemães. Mas a decisão agora ocorre em um momento de extrema tensão nas relações com Moscou.

A Rússia é acusada pela UE e pelos EUA de fomentar, na fronteira da Belarus com a Polônia, uma crise de refugiados que mobilizou forças militares dos dois países e também de Moscou e de Londres.

O Ocidente acusa Putin de incentivar a ditadura de Aleksandr Lukachenko a atrair imigrantes de países afetados por guerras e empurrá-los fronteiras europeias a dentro. Os aliados a leste negam.

Também nesta terça, as forças de segurança da Polônia usaram canhões de água e bombas de gás lacrimogêneo para tentar barrar refugiados na fronteira. Na semana passada, houve espancamentos e prisões de imigrantes, e ao menos uma pessoa morreu, presumivelmente de frio à noite.

A violência da repressão tem causado críticas internas a Varsóvia, que já é um país complexo no contexto europeu, por advogar instâncias agressivas ante a Rússia dentro da Otan, a aliança militar ocidental, e ter um governo de direita considerado violador de princípios da União Europeia.

Há talvez 15 mil refugiados na Belarus, 4.000 concentrados em áreas fronteiriças. As condições de abrigo são precárias, como na região do conflito desta terça, perto da cidade polonesa de Kuznica.

Os poloneses se defendem, dizendo que estavam evitando um ataque com pedras a seus soldados. Tanto a Polônia quanto a vizinha Lituânia, que também enfrenta problemas, declararam estado de emergência para assegurar a expulsão de imigrantes —e coibiram o trabalho da imprensa nas áreas afetadas.

Na segunda, a UE divulgou novas sanções econômicas contra a ditadura em Minsk, gerando protestos do governo de Lukachenko. O uso dos refugiados, diz o bloco, visa retaliar contra punições já existentes, feitas na esteira da repressão do ditador contra protestos após vencer uma eleição de fachada em 2020.

Ao mesmo tempo que essa crise se desenrola, Putin gerou alarmes no Ocidente por movimentar tropas perto da fronteira da Ucrânia, país com quem tem difícil relação desde 2014, quando anexou a Crimeia e fomentou a guerra civil que deixou o leste ucraniano autônomo.

O russo nega ter intenção de invadir o vizinho, em apoio aos separatistas pró-Kremlin. Sua intenção principal, de fato, é manter o status quo de conflito congelado na região, conhecida como Donbass, pois isso previne a Ucrânia de aderir formalmente à Otan e dificulta o acesso à União Europeia.

Ambos os blocos exigem membros sem problemas territoriais, e o Kremlin vê a Ucrânia, assim como a aliada Belarus, como tampões entre suas Forças Armadas e as de países da Otan. Curiosamente, a própria Guarda de Fronteira da Ucrânia tentou relativizar a importância da movimentação, ressaltando que ela ocorre a centenas de quilômetros, o que não sugere ameaça iminente. Mas os EUA foram duros ao dizer que a Rússia não deveria "repetir o erro de 2014", nas palavras do secretário de Estado, Antony Blinken.

Na segunda (15), foi a vez do presidente francês, Emmanuel Macron, de dizer a Putin por telefone que se compromete a garantir a integridade territorial ucraniana. Seja como for, a questão do Nord Stream 2 adiciona temperatura a um caldo que já borbulha de forma sem paralelo desde a anexação da Crimeia.

Por ora, a Gazprom apenas disse que irá examinar as demandas alemãs.

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