Descrição de chapéu China tênis Ásia

ONU pede à China prova de vida de tenista que acusou ex-vice-premiê e está sumida

Associação de tênis ameaça deixar país em meio a pedidos de investigação sobre acusação de assédio sexual feita por Peng Shuai

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Pequim | Reuters

Em um novo desdobramento do caso de Peng Shuai, estrela chinesa do tênis que acusou o ex-vice-premiê Zhang Gaoli de forçá-la a ter relações sexuais, o presidente da Associação de Tênis Feminino (WTA) disse que estuda abrir mão de eventos esportivos na China se as acusações não forem investigadas.

"Estamos definitivamente dispostos a interromper nossos negócios e lidar com todas as complicações que vêm com isso", disse Steve Simon em entrevista à CNN americana nesta quinta-feira (18). "Porque isso é certamente maior do que os negócios. As mulheres precisam ser respeitadas, não censuradas."

A China tem sido um dos principais pontos de expansão dos torneios internacionais de tênis. Em 2019, o país sediou nove competições da WTA com prêmios milionários e, após o cancelamento dos campeonatos marcados para 2020 devido à Covid, a associação planejava retomar os eventos chineses em 2022.

A tenista chinesa Peng Shuai durante partida no Aberto da Austrália
A tenista chinesa Peng Shuai durante partida no Aberto da Austrália - Edgar Su - 15.jan.19/Reuters

A Organização das Nações Unidas (ONU) também comentou o caso nesta sexta, ressaltando a importância da obtenção de provas do paradeiro e da segurança de Peng. "Solicitamos veementemente que uma investigação seja realizada com total transparência sobre suas acusações de agressão sexual", disse uma porta-voz do Alto Comissariado para Direitos Humanos em entrevista coletiva na Suíça.

O post em que Peng relatou a violência que teria sofrido foi excluído meia hora depois de ser publicado, o que não evitou um aumento na procura pelo nome da tenista na censurada internet chinesa.

O fato de Peng não ser vista publicamente desde então também gera preocupação em relação a sua segurança e está movimentando outras grandes estrelas do esporte, como Serena Williams, Naomi Osaka e Novak Djokovic. Nas redes sociais, a hashtag #whereispengshuai (onde está Peng Shuai) agrupa o conteúdo sobre o caso e segue com dezenas de milhões de menções.

"Nós entramos em contato com ela em todos os números de telefone, endereços de email e outras formas de contato", disse Simon, da WTA, à CNN. "Existem tantas abordagens digitais para entrar em contato com as pessoas hoje em dia, e até agora não conseguimos obter uma resposta."

Na quarta (17), a emissora estatal chinesa CGTN divulgou o que disse ser um email enviado por Peng ao presidente da WTA. No material, a tenista teria dito que as acusações que publicou não eram verdadeiras. "Não estou desaparecida nem em perigo. Só estou descansando em casa e está tudo bem."

Em comunicado, Simon disse que tem "dificuldade em acreditar que Peng Shuai realmente escreveu o email ou o que está sendo atribuído a ela". À imprensa americana ele descreveu a suposta mensagem como uma encenação e reafirmou que só ficará confortável quando conversar diretamente com a tenista.

Além de censurar o tema nas redes sociais chinesas —o tópico Peng Shuai não produz resultados de pesquisa no Weibo, equivalente ao Twitter na China—, Pequim segue evitando comentar o caso.

Nesta sexta, um membro sênior do COI (Comitê Olímpico Internacional) disse à agência Reuters que a entidade também deve ser pressionada a tomar medidas duras contra Pequim. "Se não for resolvido de maneira sensível muito em breve, pode sair do controle", disse Dick Pound, ex-vice-presidente do COI.

Ele afirmou que não acredita que o caso vá ameaçar a realização dos Jogos Olímpicos de Inverno, previstos para acontecer em fevereiro em Pequim, mas ponderou que "nunca se sabe".

Hu Xijin, editor do Global Times, jornal alinhado ao Partido Comunista, e usuário ativo do Twitter, embora a plataforma seja bloqueada na China, comentou o caso nesta sexta. "Como pessoa familiarizada com o sistema chinês, não acredito que Peng tenha recebido a retaliação especulada na mídia estrangeira."

Ele ainda criticou os comentários de Simon à CNN, dizendo que o tom usado foi coercitivo.

Questionado sobre o paradeiro de Peng e sobre um possível dano à imagem da China antes das Olimpíadas de Inverno, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Zhao Lijian, deu uma resposta que ele classificou de "muito simples". "Este não é um assunto de relações exteriores e não estou ciente da situação que você mencionou", afirmou o diplomata.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, confirmou, em entrevista coletiva nesta quinta-feira, que considera um boicote diplomático às Olimpíadas de Pequim. Por meio de um porta-voz, o Comitê Olímpico Internacional disse que não comentaria o assunto. "A experiência mostra que a diplomacia silenciosa oferece a melhor oportunidade para encontrar uma solução para questões dessa natureza."

Nesta sexta, Jen Psaki, secretária de imprensa do presidente americano, disse que a Casa Branca acompanha o desenrolar do caso da tenista com preocupação e pediu provas independentes e verificáveis de seu paradeiro.

Entenda a denúncia de Peng Shuai

Segundo uma captura de tela da conta verificada de Peng no Weibo, espécie de Twitter chinês, a tenista afirmou que Zhang Gaoli, que fez parte do Comitê Permanente do Politburo, órgão que representa a cúpula do PC Chinês, a coagiu a fazer sexo e que, depois, eles tiveram uma relação consensual intermitente.

Na mensagem, a esportista dizia não ter evidências que sustentassem suas alegações. A publicação foi excluída, mas reproduções da denúncia foram compartilhadas em outras redes sociais.

Zhang, hoje com 75 anos, foi vice-premiê da China entre 2013 e 2018. Ele também foi secretário do partido na província de Shandong e integrou o Comitê Permanente do Politburo entre 2012 e 2017.

Peng, por sua vez, foi a número 1 no ranking mundial de duplas em 2014, tornando-se a primeira tenista chinesa a alcançar o topo da lista, após conquistar os torneios de Wimbledon em 2013 e Roland Garros em 2014 (ambos ao lado da taiwanesa Hsieh Su-wei). Ela também representou a China nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, de Londres, em 2012, e do Rio, em 2016.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Leia tudo sobre o tema e siga:

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.