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Estrela chinesa do tênis acusa ex-vice-premiê de forçá-la a ter relações sexuais

Post em rede social foi excluído logo após ser publicado, e debates em torno da questão, bloqueados

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Pequim | Reuters

A tenista Peng Shuai, 35, ex-número 1 do ranking mundial de duplas e uma das maiores estrelas do esporte na China, acusou um ex-vice-premiê do país de forçá-la a ter relações sexuais anos atrás. A revelação da atleta foi feita em uma rede social, numa mensagem deletada posteriormente.

Segundo uma captura de tela da conta verificada de Peng no Weibo, espécie de Twitter chinês, a tenista afirmou que Zhang Gaoli, que fez parte do Comitê Permanente do Politburo, órgão que representa a cúpula do Partido Comunista, a coagiu a fazer sexo e, depois, eles tiveram uma relação consensual intermitente.

A tenista Peng Shuai durante partida do Aberto da Austrália
A tenista Peng Shuai durante partida do Aberto da Austrália - Edgar Su - 15.jan.19/Reuters

O post foi excluído cerca de meia hora depois de ser publicado, o que não evitou um aumento na procura pelo nome de Peng na hipercontrolada e censurada internet chinesa. Reproduções de tela também foram compartilhadas em grupos fechados nos aplicativos WeChat e iMessage.

A esportista, que disse na mensagem não ter evidências que sustentem suas alegações, não respondeu a um pedido de comentário enviado para a conta dela no Weibo. A agência de marketing esportivo APG, que afirma representar a atleta, tampouco respondeu a uma solicitação da agência de notícias Reuters.

Da mesma maneira, o escritório do Conselho de Informação estatal da China não retornou aos pedidos de comentários. Quando questionado sobre o post no Weibo, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do país Wang Wenbin, na entrevista coletiva diária que concede, disse não ter conhecimento da questão e que o assunto "não é um tema relacionado a política externa".

A Weibo e a Tencent, responsável pela operação do WeChat, também não responderam.

Zhang, hoje com 75 anos, foi vice-premiê da China entre 2013 e 2018. Ele também foi secretário do partido na província de Shandong e integrou o Comitê Permanente do Politburo entre 2012 e 2017. Peng, por sua vez, foi a número 1 no ranking mundial de duplas em 2014, tornando-se a primeira tenista chinesa a alcançar o topo da lista, após conquistar os torneios de Wimbledon em 2013 e Roland Garros em 2014 (ambos ao lado da taiwanesa Hsieh Su-wei).

Uma ferramenta do Weibo mostra que a hashtag com o nome de Peng, que tinha poucas ou nenhuma menção até esta terça-feira (2), atingiu mais de 20 milhões de visualizações desde que ela publicou a mensagem na plataforma. Discussões sobre a marcação apareceram logo depois da postagem, mas depois despencaram conforme as publicações sobre o tópico eram excluídas.

Na manhã desta quarta (3), buscas pelo nome de Peng na rede social não traziam resultados, e debates referentes ao tema foram bloqueados. Usuários do WeChat e do QQ, outro aplicativo de conversa, tiveram a função de envio de reprodução de tela desabilitada. Ainda que a conta de Peng no Weibo permaneça ativa, com posts anteriores visíveis, as opções de comentar e repostar não estão funcionando.

Por anos, casos de assédio e abuso sexuais raramente foram abordados publicamente no país. O cenário mudou em 2018, quando o movimento #MeToo chegou à China, após uma estudante universitária em Pequim acusar um professor de assédio. O episódio chamou a atenção de ONGs, imprensa e outros setores.

Neste ano, as denúncias voltaram a ganhar força, com casos como o do ator, modelo e rapper Kris Wu. Ex-integrante de uma banda K-pop, ele foi exposto pela influenciadora Du Meizhu, em caso que veio a público depois de a jovem ter concedido entrevista a um site.

Segundo o comunicado da polícia na época, o agente de Kris pediu a Du que fosse à casa do cantor com o pretexto de selecioná-la para aparecer em um videoclipe. Ao chegar ao local, ela, menor de idade na ocasião, teria sido forçada a consumir álcool e fazer sexo com ele. A jovem também acusou o cantor de aliciar mais de 30 menores de idade e de forçar relações com elas. Kris negou as acusações, mas perdeu contratos milionários com patrocinadores.

O ex-vice-premiê chinês Zhang Gaoli
O ex-vice-premiê chinês Zhang Gaoli - Wang Ye - 28.ago.17/Xinhua

Outra acusação contra um famoso que reverberou neste ano foi a do apresentador da Hunan Satellite TV Qian Feng. À frente de vários programas de variedades, ele era conhecido por fazer piadas de cunho sexual e comentários machistas na televisão.

Qian se tornou centro de uma enorme polêmica depois de uma mulher, identificada na internet como Xiao Yi, divulgar no Weibo que foi abusada sexualmente por ele em 2019. Ela contou que, ao aceitar jantar com o apresentador em Xangai, foi insistentemente encorajada a consumir uma quantidade excessiva de álcool até perder a consciência.

No dia seguinte, acordou nua no apartamento de Qian, sem se lembrar do que aconteceu após o jantar. Segundo ela, o apresentador assumiu o abuso e disse ter usado preservativo com ela.

Qian teria oferecido dinheiro para que a vítima ficasse calada. Ela não aceitou e procurou a polícia, que se recusou a dar prosseguimento à queixa porque o apresentador "pediu perdão". Xiao disse que desenvolveu depressão profunda e tentou cometer suicídio várias vezes depois do ocorrido.

Após a denúncia, o apresentador foi afastado e investigações sobre o caso foram reabertas —as autoridades negaram o encerramento da apuração anterior devido ao pedido de desculpas.

Assim como no caso de Xiao e Peng, as redes sociais costumam ser o principal canal de exposição das denúncias, pois a imprensa local em geral não cobre o tema. Ainda assim, as discussões nos espaços online não fogem dos olhos do governo, que vigia a internet no país —evitando, por exemplo, publicações que falem mal do regime.

Para isso, criou-se uma série de leis e ferramentas digitais de bloqueio, como parte de uma política que vem sendo aprimorada desde os anos 1990. As empresas do mercado digital do país são obrigadas a fiscalizar e restringir a atividade dos usuários, sob pena de perderem o direito de operar. Cidadãos que violam as regras podem ser multados e presos.

O controle da internet é parte da política de censura do Partido Comunista Chinês, que veta também a circulação de notícias e informações que desagradem ao governo ou que, na visão do regime, possam gerar problemas para a sociedade.

O bloqueio atinge diferentes formas pelas quais circulam as informações: no tráfego de dados, com programas que escaneiam as redes em busca de palavras-chave ou temas proibidos; em ferramentas de busca, se o usuário procurar por algo vetado; e em postagens de redes sociais e mensagens privadas, que podem ser barradas.

Lojas de aplicativos e sites e serviços estrangeiros também são alvo das sanções online. Outra medida do governo é vetar o anonimato. O usuário deve fornecer sua identidade real ao acessar páginas e serviços e ao fazer postagens. É possível usar apelidos publicamente, mas o provedor deve guardar o registro da identidade real.

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