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Olaf Scholz conclui acordo para suceder Angela Merkel na Alemanha

Coalizão tripla propõe elevar salário mínimo, liberar venda de maconha para adultos e zerar uso de carvão até 2030; posse é prevista para dezembro

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Bruxelas

"O semáforo está aceso", disse nesta quarta (23) Olaf Scholz, 63, ao anunciar o acordo que deve torná-lo o sucessor da primeira-ministra Angela Merkel, que há 16 anos governa a Alemanha.

Semáforo é o apelido da coalizão entre seu partido, o SPD (social-democrata), os Verdes e o FDP (liberal), e faz referência às cores das três agremiações: vermelho, verde e amarelo, respectivamente.

O acordo será votado pelos três partidos, e espera-se que Scholz seja eleito premiê pelos deputados no começo de dezembro. Isso instalará o primeiro governo de coalizão triplo na Alemanha desde o pós-guerra.

Moça de azul, homem de camisa branca, sem gravata, e dois homens de terno e gravata
O provável futuro premiê da Alemanha, Olaf Scholz (de gravata vermelha), ao lado dos colíderes dos Verdes, Annalena Baerbock e Robert Habeck, e do líder do FDP Christian Lindner (à dir.), minutos antes de anunciar acordo para um governo de coalizão, que vai suceder o de Angela Merkel - Odd Andersen/AFP

O social-democrata se prepara para assumir a Alemanha num momento em que os novos casos de Covid-19 chegam a nível recorde desde o começo da pandemia. O combate à doença foi o primeiro ponto de seu discurso, antes mesmo de anunciar o acordo de coalizão. "O coronavírus ainda não foi derrotado, infelizmente", disse.

Scholz afirmou que as restrições aos não vacinados serão aplicadas com rigor e que o efeito das medidas será monitorado de perto, para "desenvolver outras etapas, se necessário".

"Juntos, temos em nossas mãos as chances de barrar essa terrível quarta onda. O novo governo federal fará o que for preciso para levar o país a uma boa travessia neste momento", afirmou.

carvão e maconha

Para comandar o país mais rico de uma Europa que enfrenta as consequências do brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia), e crises com a Rússia, a China e a Belarus, Scholz terá no gabinete dois de seus adversários durante a campanha eleitoral, agora parceiros de coligação.

Annalena Baerbock, colíder dos Verdes, será ministra das Relações Exteriores, e o líder do liberal FDP, Christian Lindner, chefiará o Ministério das Finanças —pasta que foi comandada pelo próprio Scholz.

O Ministério do Trabalho continuará com o social-democrata Hubertus Heil, e o futuro premiê anunciou a implantação de uma de suas principais plataformas de campanha: o aumento do salário mínimo.

Robert Habeck, também colíder dos Verdes, assumirá um novo ministério, que reúne economia e metas climáticas. A coligação concordou em eliminar o uso do carvão, combustível altamente poluente, até 2030, e proibir os motores de combustão e acabar com a geração de energia a gás até 2040.

A coligação também deve propor a venda controlada de cânabis para adultos, em "lojas autorizadas", sob o argumento de que isso permite "controlar a qualidade, evitar a venda de substâncias contaminadas e garantir a proteção da juventude".

O resultado da nova política será avaliado em quatro anos. A Alemanha permite o uso medicinal de maconha desde 2017.

Os Verdes e o SPD já eram vistos como parceiros naturais dentro da centro-esquerda e durante a campanha eleitoral concordaram em várias propostas. O principal desafio foi negociar pontos como tributos e endividamento público com o FDP, cujo programa liberal está mais próximo do dos conservadores da CDU, partido da atual primeira-ministra, Angela Merkel.

O pacto anunciado nesta quarta surpreendeu analistas que previam um processo longo: as reuniões formais duraram pouco mais de um mês, nas quais cerca de 300 negociadores discutiram limites e cargos em 22 grupos de trabalho.

o sucessor e a sucedida

​Confirmada, a eleição de Scholz pelos deputados encerrará os 16 anos do governo de centro-direita liderado por Merkel. Se a aprovação vier na primeira quinzena de dezembro, a líder alemã deixará o cargo a poucos dias de bater o recorde de permanência no governo de seu ex-mentor, Helmut Kohl.

Durante o governo Merkel, o social-democrata acumulou trunfos que o levaram de terceiro na corrida eleitoral a líder do partido mais votado.

Scholz foi o responsável por montar o programa de ajuda contra a crise do coronavírus, que ele apresentou como "a bazuca necessária" para segurar empregos e apoiar empresas: um pacote de 750 bilhões de euros (R$ 4,7 trilhões), calçado em uma dívida de quase 400 bilhões de euros.

Também viu ser aprovada em julho deste ano, na reunião do G20 em Veneza, a proposta de imposto mínimo global, da qual ele era um dos principais articuladores.

A primeira-ministra Angela Merkel recebe flores de Olaf Scholz, seu provável sucessor, em encontro nesta quarta (24) em Berlim - Markus Schreiber - 24.nov.21/AFP

Nessa função federal, também não escapou de acusações: é investigado sob suspeita de falhar na fiscalização da financeira Wirecard, que quebrou. Seus índices nas pesquisas eleitorais não se mexeram após o caso, o que levou os jornais a chamá-lo em seus títulos de "candidato Teflon".

Em vez disso, tiveram mais força o slogan "Scholz resolve" e suas investidas explícitas para se mostrar como herdeiro do estilo Merkel de governar. Numa delas, posou para uma capa de revista imitando o gesto de mãos em forma de losango que é marca registrada da então hoje, agora virtual antecessora.

De personalidade controlada, antes de ser candidato ele já havia sido apelidado por jornalistas de "Scholz-o-mat", expressão que o identifica com algo tão previsível quanto uma máquina de lavar roupas.

Muitas vezes descrito como "sem carisma" ou "alguém que saiu de um congresso de contadores", transmite mais tranquilidade que tédio, porém, e está longe de ser um tecnocrata obtuso, sem outros interesses.

É apaixonado por literatura e um admirador do romancista austríaco Robert Musil (1880-1942) e dos irmãos alemães Henrich (1851-1950) e Thomas Mann (1875-1955). Costuma acompanhar todas as edições da exposição de arte contemporânea Documenta —que acontece a cada cinco anos na Alemanha— e é aficionado por cinema.

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