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Vídeos e fotos de Peng Shuai emergem em meio a dúvidas sobre paradeiro da tenista

Editor de jornal alinhado ao governo chinês publicou registros de esportista que acusou ex-vice-premiê de assédio

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Pequim | Reuters e AFP

Hu Xijin, editor-chefe do Global Times, jornal alinhado ao Partido Comunista Chinês, publicou no Twitter neste sábado (20) três vídeos que provariam que a tenista Peng Shuai, 35, está viva. O paradeiro dela é desconhecido desde o início do mês, quando ela denunciou, em uma rede social chinesa, ter sido vítima de assédio sexual que teria sido cometido por Zhang Gaoli, ex-vice-premiê da China.

Um dos vídeos mostra a tenista no que seria a cerimônia de abertura da final de um torneio de tênis que aconteceu na manhã de domingo em Pequim, no horário local, para responder a dúvidas se os outros registros, divulgados horas antes, seriam atuais.

Em outro vídeo publicado por Hu, às 12h07 de sábado no horário de Brasília, Peng aparece jantando "com o técnico e amigos em um restaurante", como escreveu o editor. "Os dados do vídeo claramente mostram que os registros foram feitos neste sábado, no horário de Pequim."

Antes, Hu já havia republicado, também no Twitter, fotos em que a esportista aparece brincando com um gato em um quarto cheio de bichos de pelúcia.

Segundo o jornalista Shen Shiwei, que originalmente postou as imagens, os registros foram publicados no perfil da tenista no aplicativo WeChat com a mensagem "bom fim de semana". Tanto a conta de Hu quanto a de Shen são identificadas pelo Twitter como "mídia afiliada ao governo chinês", o que despertou dúvidas de usuários da rede social quanto à maneira como os vídeos e as fotos foram produzidos.

A agência Reuters não conseguiu verificar de maneira independente a autenticidade das imagens.

Após a divulgação das fotos e vídeos, o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido divulgou comunicado em que pede que a China dê "evidência verificável" da segurança e localização de Peng. "Estamos extremamente preocupados com o aparente desaparecimento de Peng Shuai, e acompanhamos o caso muito de perto", disse órgão.

Também em comunicado, o presidente da Associação de Tênis Feminino (WTA), Steve Simon, afirmou que fica "feliz em ver os vídeos publicados pela imprensa estatal chinesa", mas que "ainda não está claro se ela está livre e pode tomar decisões e agir por conta própria, sem coerção ou influência externa", porque "o vídeo, sozinho, é insuficiente."

"Como falo desde o começo, permaneço preocupado com a saúde e a segurança de Peng Shuai e com a chance de que a denúncia de assédio sexual esteja sendo censurada e varrida para debaixo do tapete", afirmou.

Ao publicar as imagens de Peng, Hu Xijin afirmou que ela ficou "livremente em sua casa nos últimos dias e não queria ser incomodada". "Ela vai aparecer em público e participar de atividades em breve."

Às 21h55 no horário de Brasília de sábado, 8h55 de domingo no horário de Pequim, o editor publicou o terceiro vídeo, com 37 segundos, que mostra Peng na abertura do torneio de tênis Fila Kids Junior, ao lado de outros convidados, vestida com uma jaqueta azul-escuro e calças brancas.

O Global Times, liderado por Hu, é publicado pelo People's Daily, jornal oficial do Partido Comunista Chinês. Desde que o caso de assédio foi denunciado, nem Zhang ou qualquer outro membro do governo chinês fizeram comentários sobre as alegações da tenista. O post dela foi rapidamente excluído da rede social, assim como os tópicos de discussão na ultracontrolada e censurada internet chinesa.

A tenista chinesa Peng Shuai durante partida do Aberto da China, em Pequim
A tenista chinesa Peng Shuai durante partida do Aberto da China, em Pequim - Greg Baker - 2.out.17/AFP

Segundo uma captura de tela da conta verificada de Peng no Weibo, espécie de Twitter chinês, a tenista afirmou que Zhang, que fez parte do Comitê Permanente do Politburo, órgão que representa a cúpula do Partido Comunista, a coagiu a fazer sexo e, depois, eles tiveram uma relação consensual intermitente.

Na mesma mensagem, a esportista disse não ter evidências que sustentem suas alegações. Mesmo assim, a denúncia gerou forte reação. Na quinta (18), o presidente da WTA disse que estuda abrir mão de eventos esportivos na China se as acusações não forem investigadas.

"Estamos definitivamente dispostos a interromper nossos negócios e lidar com todas as complicações que vêm com isso", disse Steve Simon em entrevista à CNN americana. "Porque isso é certamente maior do que os negócios. As mulheres precisam ser respeitadas, não censuradas."

A China tem sido um dos principais pontos de expansão dos torneios internacionais de tênis. Em 2019, o país sediou nove competições da WTA com prêmios milionários e, após o cancelamento dos campeonatos marcados para 2020 devido à Covid, a associação planejava retomar os eventos chineses em 2022.

A Organização das Nações Unidas (ONU) também comentou o caso, ressaltando a importância da obtenção de provas do paradeiro e da segurança de Peng. "Solicitamos veementemente que uma investigação seja realizada com total transparência sobre suas acusações de agressão sexual", disse uma porta-voz do Alto Comissariado para Direitos Humanos em entrevista coletiva na Suíça.

Antes, grandes estrelas do esporte, como Serena Williams, Naomi Osaka e Novak Djokovic já haviam se manifestado sobre o caso. Nas redes sociais, a hashtag #whereispengshuai (onde está Peng Shuai) agrupa o conteúdo sobre o caso e segue com dezenas de milhões de menções.

Neste fim de semana, Roger Federer e Rafael Nadal se somaram aos atletas que pedem explicações.

"Toda a família do tênis está com ela. estou em contato com todos os jogadores, espero que boas notícias surjam em breve", disse Federer. Nadal, por sua vez, afirmou que está acompanhando as notícias sobre o caso de perto. "O mais importante é saber se ela está bem. Todos nós da família do tênis esperamos tê-la de volta conosco em breve", disse o espanhol.

Na sexta, um membro sênior do COI (Comitê Olímpico Internacional) disse à agência Reuters que a entidade deve ser pressionada a tomar medidas duras contra Pequim. "Se não for resolvido de maneira sensível muito em breve, pode sair do controle", disse Dick Pound, ex-vice-presidente do órgão.

Ele afirmou não acreditar que o episódio vá ameaçar a realização dos Jogos Olímpicos de Inverno, previstos para acontecer em fevereiro em Pequim, mas ponderou que "nunca se sabe".

Zhang, 75, o acusado por Peng, foi vice-premiê da China entre 2013 e 2018. Ele também foi secretário do partido na província de Shandong e integrou o Comitê Permanente do Politburo entre 2012 e 2017. A tenista, por sua vez, foi a número 1 no ranking mundial de duplas em 2014, tornando-se a primeira chinesa a alcançar o topo da lista, após conquistar os torneios de Wimbledon em 2013 e Roland Garros em 2014.

Por anos, casos de assédio e abuso sexuais raramente foram abordados publicamente na China. O cenário mudou em 2018, quando o movimento #MeToo chegou ao país, após uma estudante universitária acusar um professor de assédio. O episódio chamou a atenção de ONGs, imprensa e outros setores.

Assim como no caso de Peng, as redes sociais costumam ser o principal canal de exposição das denúncias, pois a imprensa local em geral não cobre o tema. Ainda assim, discussões nos espaços online não fogem dos olhos do governo, que vigia a internet no país. Para isso, criou-se uma série de leis e ferramentas digitais de bloqueio, como parte de uma política que vem sendo aprimorada desde os anos 1990. As empresas do mercado digital do país são obrigadas a fiscalizar e restringir a atividade dos usuários, sob pena de perderem o direito de operar. Quem violar as regras pode ser multado e preso.

O controle da internet é parte da política de censura do Partido Comunista Chinês, que veta também a circulação de notícias e informações que desagradem ao governo ou que, na visão do regime, possam gerar problemas para a sociedade.

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