Descrição de chapéu Belarus

Belarus condena marido de ex-candidata de oposição a 18 anos de prisão

Serguei Tikhanovski está preso desde maio de 2020, quando foi impedido de disputar as eleições no país

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Moscou | AFP e Reuters

Um tribunal da Belarus condenou Serguei Tikhanovski, um dos principais opositores do ditador Aleksandr Lukachenko, a 18 anos de prisão por acusações de organização de protestos em massa e incitação ao ódio social.

De acordo com a Belta, agência de notícias estatal, outros cinco apoiadores de Tikhanovski também foram condenados nesta terça-feira (14) a penas que variam de 14 a 16 anos.

Youtuber popular na Belarus, Tikhanovski, 43, foi preso em 6 de maio de 2020, dias depois de anunciar a intenção de concorrer contra Lukachenko na eleição presidencial. Ele chegou a ser liberado duas semanas depois, mas foi novamente detido no final daquele mês e está preso desde então.

Os resultados do pleito de agosto do ano passado, considerados amplamente fraudados, foram o gatilho de uma onda de manifestações que levaram milhares às ruas da Belarus em atos contra o regime.

Svetlana Tikhanovskaia, principal nome da oposição à ditadura da Belarus, segura foto do marido, Serguei Tikhanovski, durante audiência em Praga - Roman Vondrous - 9.jun.21/AFP

Impedido de concorrer no pleito, o blogueiro foi substituído por sua esposa, Svetlana Tikhanovskaia, que assumiu o protagonismo da campanha contra a ditadura de Lukachenko, dentro e fora da Belarus. Ela foi recebida por líderes como o presidente dos EUA, Joe Biden, e por chefes de Estado de países europeus.

Poucas horas antes do anúncio da sentença contra o marido, Tikhanovskaia descreveu todo o processo como ilegal e intolerável —o julgamento ocorreu a portas fechadas e os advogados foram proibidos de revelar detalhes do caso.

"Comentando o chamado 'veredicto', só me farei uma pergunta: o que eu faço com essa notícia? Continuarei a defender a pessoa que amo, que se tornou um líder para milhões de belarussos."

Sem dar detalhes, Tikhanovskaia disse ainda, em um pronunciamento gravado em vídeo, que vai "tentar fazer algo muito difícil, talvez impossível" para adiantar o momento em que poderá encontrar o marido na "nova Belarus".

Em uma publicação no Twitter, a opositora descreveu a decisão da Justiça como uma vingança do regime de Lukachenko, mas prometeu ação. "O ditador vinga-se publicamente de seus adversários mais fortes. O mundo inteiro está assistindo. Não vamos parar."

O Secretário de Estado americano, Antony Blinken, condenou as decisões anunciadas nesta terça e pediu a libertação imediata de Tikhanovski e de centenas de outros presos políticos. "Essas sentenças são mais uma prova do desrespeito do regime por essas obrigações internacionais, bem como pelos direitos humanos e liberdades fundamentais dos belarussos. O povo belarusso merece coisa melhor".

Nas redes sociais, o ministro das Relações Exteriores da Polônia, Zbigniew Rau, escreveu que o que se vê na Belarus são "pessoas inocentes que desejam uma vida digna para sua nação" sendo tratadas como criminosos perigosos. "Não há como deixar esta sentença vergonhosa sem consequências para as autoridades de Minsk."

A mãe de Tikhanovski, em entrevista a uma rádio americana, expressou medo de não ver mais o filho. "Dezoito anos para meu filho? Para quê? Deus, tenho 71 anos. Não viverei tanto tempo."

Em agosto do ano passado, pouco após o pleito em que Lukachenko se declarou reeleito, Tikhanovskaia deixou a Belarus e se exilou na Lituânia. Dias antes, em entrevista à Folha, disse que sua primeira medida se fosse eleita à Presidência do país seria libertar o marido e todos os presos políticos.

Questionada sobre onde encontrava forças para manter o engajamento na disputa política estando distante da família, a opositora respondeu que nem ela mesma sabia. "Nunca achei que pudesse ter tanta força. Sempre me considerei uma mulher fraca, capaz apenas de cuidar dos filhos e cozinhar. Mas no final meu destino colocou essas dificuldades na minha vida e graças a Deus eu descobri essa força."

Assim como Tikhanovski, outros nomes importantes da oposição à ditadura de Lukachenko receberam longas sentenças.

Viktor Babariko foi condenado, em julho, a 14 anos de prisão. Ao registrar sua candidatura à Presidência no ano passado, Babariko foi considerado o nome mais forte para derrotar Lukachenko, mas ele foi detido sob acusações de fraude e seu pedido para concorrer no pleito, rejeitado.

A musicista Maria Kalesnikava recebeu uma sentença de 11 anos de prisão. Ela chefiava a campanha de Babariko e foi a única integrante da frente opositora a ficar na Belarus. No ano passado, foi sequestrada quando caminhava em Minsk e interrogada por agentes da KGB, a polícia secreta belarussa. Presa, escapou pela janela de um carro e rasgou seu passaporte para evitar uma expulsão forçada, mas foi condenada em setembro deste ano.

De acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), ao menos 35 mil pessoas foram detidas arbitrariamente na Belarus no ano passado. Segundo o documento, o medo da repressão fez com que dezenas de milhares de belarussos deixassem o país em busca de refúgio em países do exterior.

Além das denúncias de maus-tratos contra os presos políticos e da crescente repressão à imprensa independente, praticamente extinta no país, a Belarus também está no centro de uma nova crise migratória que se arrasta há meses na Europa.

A União Europeia acusa o regime de Lukachenko de empurrar migrantes em direção às fronteiras com a Lituânia, a Letônia e a Polônia como forma de vingança após sanções serem aplicadas ao país, conhecido por reprimir opositores e manifestações pela democracia. O ditador belarusso já admitiu, em diferentes manifestações públicas, que suas tropas incentivam migrantes a entrarem de forma ilegal no bloco.

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