Descrição de chapéu The New York Times

Fotos sugerem cumplicidade de ex-namorada de Jeffrey Epstein em crimes sexuais

Nas imagens apresentadas à Justiça, Ghislaine Maxwell aparece em cenas de intimidade com o bilionário, que se suicidou na prisão em 2019

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Nova York | The New York Times

As imagens poderiam ter saído do álbum de qualquer casal relativamente rico: um homem grisalho e uma mulher um pouco mais jovem em momentos casuais, não posados —de pé sobre uma passarela de madeira, sentados numa motocicleta, à mesa com um drinque.

O que distingue as fotos são as pessoas que elas mostram: Jeffrey Epstein, financista desmoralizado que se matou numa cela federal em 2019 onde estava detido, acusado de tráfico sexual, e Ghislaine Maxwell, sua antiga namorada, julgada no Tribunal Distrital de Manhattan por tráfico sexual e outras acusações.

Foto sem data apresentada à Justiça mostra Ghislaine Maxwell e Jeffrey Epstein juntos
Foto sem data apresentada à Justiça mostra Ghislaine Maxwell e Jeffrey Epstein juntos - Arquivo pessoal via The New York Times

Mais de 12 das fotos foram mostradas na semana passada durante o julgamento de Maxwell, revelando a superfície despreocupada de um relacionamento que, segundo depoimentos de testemunhas, ocultava aspectos muito mais sombrios. As fotos foram apresentadas no julgamento pelo poder público, derrotando as objeções da defesa. Os promotores procuraram documentar por meio das imagens o relacionamento que Maxwell e Epstein tiveram ao longo de anos.

Agora, enquanto a defesa se prepara para apresentar seus argumentos no julgamento retomado na quinta (16), os advogados de Maxwell tentarão convencer os jurados que a mulher nas fotos não foi muito mais que um bode expiatório para um dos criminosos sexuais mais notórios da história recente dos EUA.

Os advogados da ré não revelaram publicamente quem vão chamar para depor, mas disseram que vão apresentar argumentos que não devem estender-se por mais de quatro dias. Nos processos judiciais, sugeriram que querem apresentar pelo menos uma testemunha perita para combater o depoimento de um especialista convocado pelo governo. Este descreveu um processo conhecido como aliciamento, usado por predadores sexuais para atrair vítimas e acostumá-las a aceitar abusos.

Mas a própria Maxwell não vai depor, e os jurados não ouvirão em primeira mão sobre seu relacionamento com Epstein, que, sob muitos aspectos, está na base do processo.

Desenho mostra Ghislaine Maxwell no tribunal durante julgamento por acusação de tráfico sexual - Jane Rosenberg - 17.dez.2021/Reuters

Quatro mulheres testemunharam que, quando eram adolescentes, Maxwell ajudou a prepará-las para serem abusadas por Epstein. Duas delas relataram que Maxwell se fingia de amiga ou mentora que as estaria apresentando à vida de dinheiro e glamour. O governo alegou que Maxwell foi "a melhor amiga e o braço direito" de Epstein, mesmo depois de o "relacionamento pessoal íntimo" entre os dois ter acabado.

Nos argumentos iniciais, ela foi descrita como cúmplice voluntária de Epstein. Maxwell, disse um dos promotores, "acompanhava as meninas até um quarto onde sabia que aquele homem as molestaria".

As fotos mostradas no tribunal fazem parte de materiais encontrados em 2019 quando agentes do FBI revistaram a casa de Epstein no Upper East Side de Manhattan, onde alguns daqueles incidentes de abuso teriam ocorrido. Promotores disseram na época que as autoridades haviam apreendido centenas de fotos de meninas e mulheres jovens nuas ou seminuas. Algumas das fotos estavam guardadas num cofre.

Na semana passada, os advogados de defesa tentaram impedir que as fotos de Epstein e Maxwell fossem mostradas no tribunal, dizendo que não há testemunhos de que as imagens não foram alteradas e sugerindo que não era necessário que o governo incluísse múltiplas fotos entre as provas do processo.

"Não são necessárias 20 fotos para dizer o que duas poderiam dizer tão bem quanto", argumentou uma das advogadas de Maxwell, Laura Menninger. Mas uma das promotoras, Alison Moe, disse à juíza que preside o julgamento que o relacionamento entre Maxwell e Epstein é "fundamental neste processo".

Segundo ela, pelo fato de a defesa ter "várias vezes tentado distanciar Maxwell de Epstein e de suas implicações, argumentando que as coisas eram compartimentalizadas", é preciso um grande número de fotos para mostrar que Maxwell foi muito mais que apenas uma funcionária para Epstein.

"Estas fotos evidenciam o relacionamento estreito entre eles ao longo do tempo", disse Moe. "Vendo como seus penteados foram mudando, fica claro que as pessoas na foto foram envelhecendo."

A juíza Alison Nathan concordou, e no dia seguinte as fotos foram mostradas num telão no tribunal, visíveis aos jurados e ao público e oferecendo um vislumbre de parte da vida particular de Maxwell e Epstein juntos. Apresentadas por uma analista do FBI, Kimberly Meder, muitas das fotos mostram cenas normais do cotidiano. Algumas captam momentos de afeto ou intimidade. Maxwell é vista abraçando Epstein perto de um píer, beijando-o numa calçada e massageando seu pé a bordo de um avião.

Algumas das imagens revelam uma vida privilegiada, com indícios dos ambientes endinheirados em que circulavam. Em uma delas, por exemplo, Maxwell descansa numa varanda com Epstein. Segundo a BBC, a foto parece ter sido feita numa das propriedades da família real britânica na Escócia.

Outra foto mostra Maxwell usando uma capa de lã de xadrez de um clã escocês, e Epstein de black tie, tendo ao fundo uma parede revestida de madeira. Numa terceira imagem, os dois estão sentados com um cachorro em um campo gramado, usando o que parecem ser roupas de tiro. Maxwell está sorrindo. Segurando fones de ouvido na mão e usando botas verdes de cano alto, Epstein parece mais sério.

As fotos não oferecem grandes insights sobre a vida íntima de Maxwell e Epstein. E é difícil prever qual pode ser seu impacto sobre os jurados. Uma foto exibida ao júri foi incluída entre as provas do caso como evidência selada, de modo que os membros do público não poderão vê-la. Meder não deu detalhes sobre o que a imagem mostra. Mas uma moção registrada pela promotoria identificou o documento em questão como uma foto de Epstein e Maxwell "nadando juntos, nus".

Os promotores escreveram que a foto é relevante pelo que evidencia do relacionamento entre os dois, acrescentando: "Enquanto a defesa no julgamento argumenta que a ré foi apenas uma funcionária de Epstein, esta foto constitui prova em contrário".

Tradução de Clara Allain

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