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Legado da URSS dificulta combate à ômicron na Rússia e vizinhos

Variante chega à região, que tem trauma dos anos 90, quando houve colapso de serviços de saúde

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Belo Horizonte

Quase 16 meses após se tornar o primeiro país a registrar um imunizante contra o coronavírus, a Rússia enfrenta baixa taxa de vacinação, com apenas 46% da população tendo recebido ao menos uma dose.

A rejeição tem contribuído para uma explosão de casos e mortes por Covid desde setembro, e o cenário pode se agravar nos próximos dias. Nesta segunda (6), o governo russo confirmou dois casos da ômicron.

Ao todo, dez pessoas que chegaram ao país vindas da África do Sul receberam o diagnóstico de Covid-19, mas ainda não está claro se os casos da nova variante do coronavírus fazem parte do grupo.

O cenário antivacina se repete na maioria das demais ex-repúblicas soviéticas, com apenas os Estados bálticos (Lituânia, Estônia e Letônia) apresentando taxas maiores do que a média mundial, de 55% da população imunizada com ao menos uma dose, segundo a plataforma britânica Our World in Data. Em comparação, 77% dos brasileiros já tomaram ao menos uma dose e 64% estão completamente vacinados.

Profissional de saúde administra dose da vacina russa Sputnik V em centro de vacinação em Moscou
Profissional de saúde administra dose da vacina russa Sputnik V em centro de vacinação em Moscou - Dimitar Dilkoff - 21.out.21/AFP

Na Rússia, apenas imunizantes desenvolvidos no próprio país são utilizados. O nacionalismo forçado pelo governo, porém, não tem contribuído para o aumento no interesse dos russos em se vacinarem.

Segundo pesquisa feita em julho e mencionada em reportagem do jornal britânico The Guardian, 15% dos russos que se recusam a ser vacinados aceitariam um imunizante desenvolvido por países ocidentais.

Por outro lado, a professora-assistente do Departamento de Sociologia da Universidade Europeia de São Petersburgo Ekaterina Borozdina aponta que, embora alguns russos tenham receio de receber imunizantes produzidos no país, as taxas de vacinação não seriam muito diferentes caso o governo abrisse o sistema para fármacos estrangeiros.

Para ela, a razão para tal desconfiança tem raízes históricas, ainda atreladas ao período da União Soviética, quando o regime não aceitava hesitação quanto aos imunizantes oferecidos.

"Naquela época, as pessoas sabiam que as campanhas de vacinação não eram voltadas para a importância de se vacinar, mas principalmente para mostrarem influência política. A população tinha conhecimento de que os objetivos do governo eram externos", afirma.

Já nos anos 1990, quando a União Soviética chegou ao fim, o então líder do país, Mikhail Gorbachev, lançou uma série de reformas que tentavam diminuir o caráter totalitário do regime. Entre elas, o fim da obrigatoriedade da vacinação.

Na mesma época, porém, o país se via em um caos motivado pela repentina mudança do socialismo para o capitalismo, com altas taxas de violência e queda na qualidade dos serviços prestados pelo governo. O contexto, ressalta Borozdina, agravou a desconfiança da população com o que era oferecido pelo regime.

"Hoje, pessoas que têm medo de possíveis consequências e complicações da vacina pensam: ‘Se acontecer algo comigo, o Estado vai me abandonar, provavelmente como fez nos anos 1990’. Elas acham que não receberão o apoio adequado", diz.

O impacto das mudanças ocorridas no final do século 20 entre os russos é tão grande que pesquisa recente feita pela Public Opinion Foundation (FOM, na sigla em russo) aponta que 76% das pessoas acima de 60 anos atribuem um papel negativo a Gorbachev na história.

O mesmo instituto divulgou, em 2019, um estudo segundo o qual 40% da população não sabe que a aplicação de algumas vacinas recebidas na infância, como as contra sarampo, tétano e hepatite B, deve ser repetida na idade adulta.

Nem mesmo o presidente Vladimir Putin consegue convencer a população a se vacinar. Em diversas ocasiões, o líder russo elogiou a Sputnik V e afirmou ter recebido o imunizante, ainda que se posicione contra a obrigatoriedade –no final de novembro, ele afirmou ter tomado a dose de reforço.

Por outro lado, em meio à hesitação, o governo anunciou em novembro o envio ao Parlamento de dois projetos que introduzem o passaporte sanitário para acessar restaurantes e utilizar o transporte público. Segundo o texto, a partir de fevereiro os russos terão provar que foram vacinados ou já tiveram a doença.

A medida, no entanto, encontra resistência de parte da população, que, em algumas regiões onde já há restrições, compra certificados falsos de vacinação. "As pessoas não se importam se estão imunizadas ou não, elas só pensam que precisam fornecer os documentos solicitados", atesta Borozdina.

O mesmo processo acontece na Ucrânia, país que enfrenta uma séria disputa ideológica e militar contra os russos e tenta, cada vez mais, aproximar-se da Europa. No país do leste europeu, 31% da população recebeu ao menos uma dose, e pouco mais de um quarto está completamente vacinada. Além disso, de acordo com um estudo feito pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) com base em dados de outubro, menos da metade dos não vacinados pretendem receber o imunizante.

Soma-se à indisposição o negacionismo de grande parte dos ucranianos. A pesquisa do Unicef ainda aponta que 62% daqueles que não querem se vacinar dizem acreditar que a pandemia não é uma ameaça.

A desconfiança dos ucranianos também é impulsionada pelo forte movimento antivacina turbinado no país há alguns anos, depois que um adolescente de 17 anos morreu ao ser imunizado contra sarampo em 2008. Segundo um relatório apresentado por parlamentares, o garoto já havia sido vacinado duas vezes antes de tomar a terceira dose. O governo ucraniano, a OMS e a Unicef também disseram que não havia nada de errado com o imunizante.

O caso, porém, foi suficiente para baixar a taxa de vacinação na Ucrânia para uma das menores do mundo e causar uma epidemia de sarampo no país. Entre 2017 e novembro de 2019, a doença infectou 115 mil ucranianos e matou 41, 25 dos quais crianças, de acordo com o Unicef.

"Essa campanha antivacina estava em todo lugar, inclusive na mídia. Até os médicos desconfiavam dos imunizantes e começaram a dizer aos pacientes para não se vacinarem", relembra Pavlo Kovtoniuk, vice-ministro da Saúde da Ucrânia entre 2016 e 2019 e cofundador de um think tank ligado ao setor em Kiev.

Devido à tentativa de enfraquecer os laços com a Rússia, a Ucrânia não inclui em seu programa de vacinação imunizantes do país vizinho, assim como outras ex-repúblicas soviéticas, entre as quais a Geórgia e os Estados bálticos. Atualmente, o país utiliza a Coronavac e os imunizantes da AstraZeneca, da Pfizer, da Moderna e da Janssen.

O conflito também pode ser sentido em recentes acusações do governo ucraniano contra os russos. Segundo apontou em outubro o Conselho de Segurança e Defesa Nacional do país, canais russos no Telegram têm desistimulado a vacinação em conteúdos direcionados aos ucranianos.

As mesmas fontes, no entanto, estariam publicando conteúdos pró-vacinação em canais voltados para regiões do leste da Ucrânia, de forte influência russa, como Donetsk e Lugansk, além da Crimeia, anexada pelo Kremlin em 2014.

Como forma de tentar diminuir a hesitação dos ucranianos, o presidente Volodimir Zelenski anunciou que o governo pagará aos cidadãos que tomarem as duas doses da vacina contra a Covid-19 –o valor prometido é de mil hryvnias (R$ 208). "Na verdade, ninguém está entusiasmado com isso", diz Kovtoniuk.

Enquanto isso, o ex-vice-ministro da Saúde ucraniano se preocupa com o próximo ano. "Eu não vejo nenhuma mudança. Ao menos, 50% da população não será vacinada em breve, e ainda temos as doses de reforço. Vai ser uma bagunça. O próximo ano será endêmico, e nós teremos novas restrições."

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