Bebê desaparecido durante retirada do Afeganistão volta para a família após 5 meses

Sohail Ahmadi foi encontrado por taxista, que passou a criá-lo; Talibã interveio para que ele fosse entregue aos parentes

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Cabul | Reuters

O bebê Sohail Ahmadi, entregue por sua família a um soldado americano em agosto, durante a caótica retirada de cidadãos que tentavam fugir do Afeganistão após o Talibã retomar o poder, foi encontrado e devolvido a seus parentes na capital Cabul, neste sábado (8), segundo a agência de notícias Reuters.

Sohail estava em Cabul com a família do taxista afegão Hamid Safi, 29, que o encontrou no aeroporto sozinho e chorando, à época com dois meses de idade, e o levou para casa para criá-lo. Após mais de sete semanas de negociações e apelos, que tiveram de contar com a intervenção do grupo fundamentalista, Safi devolveu a criança para o avô dela e a outros parentes que ainda moram no país da Ásia Central.

O taxista Hamid Safi, que cuidou do bebê desde agosto, o entrega para o avô materno da criança, Mohammad Qasem Razawi, em Cabul - Ali Khara - 8.jan.2022/Reuters

A família disse que agora pretende enviá-lo para seus pais e irmãos, que conseguiram fugir do país e vivem nos EUA. Durante a tumultuada retirada, que levou à morte de cidadãos, o pai do menino, Mirza Ali Ahmadi, que trabalhava como segurança na embaixada americana em Cabul, e sua esposa, Suraya, temiam que o filho fosse esmagado na multidão ao se aproximarem dos portões do aeroporto.

Desesperados, entregaram o bebê, passando-o por cima do muro, a um soldado que acreditavam ser dos EUA, na expectativa de que iriam pegá-lo de volta após cruzarem os cinco metros restantes até a entrada do local. Membros do Talibã, porém, começaram a empurrar a multidão, fazendo com que os pais só conseguissem ir atrás de Sohail mais de meia hora depois. Eles não encontraram mais o bebê.

Ahmadi disse ter procurado desesperadamente pelo filho dentro do aeroporto e foi informado por autoridades que ele provavelmente havia sido levado para fora do país e que eles poderiam ser reagrupados depois. O restante da família conseguiu ser retirado para uma base militar no estado americano do Texas. Por meses, eles não tiveram qualquer informação sobre o paradeiro do filho.

Sem embaixada americana no Afeganistão, já que o corpo diplomático foi retirado pelo governo dos EUA, e com organizações de ajuda humanitária sobrecarregadas, os refugiados afegãos têm dificuldade para obter respostas sobre reunificações familiares. Os departamentos de Defesa, de Estado e de Segurança americanos não responderam a pedidos de comentários feitos pela Reuters.

No mesmo dia em que Ahmadi e sua família foram separados do bebê, o taxista Safi escapou pelos portões do aeroporto de Cabul depois de dar carona para a família de seu irmão, que também tentou migrar para os EUA. Safi disse ter encontrado Sohail sozinho e chorando no chão. Depois, tentou sem sucesso localizar os pais do bebê e decidiu levá-lo para casa, com sua esposa e três filhas.

O afegão disse que o maior sonho de sua família era ter um filho homem e que, naquele momento, decidiu ficar com Sohail e criá-lo. "Se sua família for encontrada, eu o entregarei a eles, mas, caso contrário, eu mesmo o crio", disse ele à Reuters em uma entrevista concedida no final de novembro. Ele chamou o bebê de Mohammad Abed e publicou fotos dele em seu perfil no Facebook.

Depois de a história da criança desaparecida ser divulgada, alguns dos vizinhos de Safi notaram a semelhança e publicaram comentários sobre o paradeiro do menino em uma versão traduzida do texto. O pai de Sohail, Ahmadi, entrou então em contato com os parentes que ainda estão no Afeganistão, pedindo que procurassem o menino e pedissem que ele fosse devolvido para a família.

Mohammad Qasem Razawi, 67, avô materno de Sohail, morador da província de Badakhshan, no nordeste do país, disse ter viajado dois dias até a capital levando presentes, entre os quais uma ovelha e vários quilos de nozes e roupas, para Safi e sua família, mas o taxista se recusou a entregar o bebê.

A família, então, procurou a Cruz Vermelha, que ajuda a reconectar pessoas separadas por conflitos internacionais, mas disse ter recebido poucas informações. Um porta-voz da organização afirmou à Reuters que não comenta casos individuais. Ao se ver sem opções, o avô entrou em contato com a polícia talibã para relatar o sequestro do neto. Safi nega a acusação de sequestro e diz que estava apenas cuidando do bebê. A queixa foi investigada e indeferida, mas um comandante local costurou um acordo.

O avô Razawi disse que a família do bebê concordou em compensar Safi com 100 mil afeganes (cerca de R$ 5.400) pelas despesas para cuidar dele durante cinco meses. Na presença da polícia, e em meio a muitas lágrimas, Sohail foi devolvido aos seus parentes. Razawi relatou que Safi e sua família ficaram arrasados ​por terem de deixar o bebê. "Ele e sua esposa estavam chorando, e eu chorei também, mas assegurei-lhes que eles são jovens, e Alá vai lhes dar um filho homem. Não um, mas vários."

Os pais do bebê, hoje no estado de Michigan, assistiram ao reencontro por videochamada e disseram à Reuters que ficaram muito felizes. Eles esperam que Sohail seja, em breve, enviado para os EUA. "Precisamos devolver o bebê à mãe e ao pai. Esta é minha única responsabilidade", disse o avô da criança.

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