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Otan vê risco de conflito na Ucrânia após nova reunião fracassada com a Rússia

Encontro em Bruxelas foi avanço em si por existir, mas ambos os lados mantiveram sua posição

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São Paulo

A crise de segurança na Europa ganhou mais tintas sombrias nesta quarta-feira (12), após o fracasso nas conversas entre uma delegação da Rússia e a Otan, a aliança militar liderada pelos EUA.

Coube ao secretário-geral do clube, o norueguês Jens Stoltenberg, fazer o anúncio previsível. "Há diferenças significativas entre a Otan e a Rússia, que não serão fáceis de acomodar. Mas é um sinal positivo que todos se sentaram à mesa e conversaram sobre os tópicos".

Por outro lado, disse a repórteres, "há um risco real de conflito armado na Europa". A negociadora americana, Wendy Sherman, afirmou que, "se os russos deixarem a mesa de negociação, ficará claro que eles nunca foram sérios em suas intenções".

O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, fala com o negociador russo, Alexander Gruchko
O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, fala com o negociador russo, Alexander Gruchko - Olivier Hoslet/Pool/Reuters

De fato, desde 2019 não havia um encontro do chamado Conselho Otan-Rússia, e ambos os lados romperam relações diplomáticas no ano passado. Para o problema mais urgente, a crise na Ucrânia, ainda há mais névoa do que claridade.

A reunião ocorre depois de conversa no mesmo tom, mas com alguma abertura, ocorrida em Genebra entre russos e americanos na segunda (10). E antecede um encontro final, nesta quinta (13), no fórum da Organização de Segurança e Cooperação na Europa, em Viena —enfim com a presença dos ucranianos.

O fato de o encontro em Bruxelas —que durou quatro horas, enquanto o de Genebra estendeu-se por sete— ter ocorrido com os russos fazendo exercícios militares com munição real na fronteira com a Ucrânia deu o tom geral.

A atual crise remonta a 2014, quando Vladimir Putin interveio no vizinho após o governo pró-Moscou ser derrubado e a nova gestão prometer integração militar com o Ocidente —algo inaceitável para o Kremlin, que já viu a Otan ganhar 16 membros ex-comunistas desde o fim da Guerra Fria, aproximando-se de suas fronteiras.

O Ocidente acusa o risco de invasão por parte de Putin, que posicionou mais de 100 mil homens em áreas próximas da Ucrânia, onde o leste tem dois territórios dominados há quase oito anos por separatistas pró-Rússia. Em 2014, a Crimeia foi anexada integralmente pela Rússia, gerando sanções que duram até hoje.

O Kremlin nega a ideia de invadir, até porque o custo humano e econômico talvez seja impagável, mas a movimentação militar é sinal inequívoco de pressão —que já havia ocorrido da mesma forma em abril.

Stoltenberg reafirmou o caminho de negociação que a negociadora americana Sherman havia estabelecido na segunda: abrir canais diplomáticos e discutir o controle de armamentos, mísseis de alcance intermediário à frente, além de mecanismos de escrutínio de exercícios militares.

O chefe da delegação russa, o chanceler-adjunto Alexander Gruchko, concedeu longa entrevista na qual reiterou que a Rússia irá tomar "medidas militares" para garantir sua segurança, e afirmou estar pronto para falar sobre armas de primeiro ataque como os tais mísseis, diferentemente do que havia relatado o secretário-geral.

"Se há uma busca por vulnerabilidades no sistema de defesa russo, também haverá o mesmo com a Otan. Não é nossa escolha, mas não haverá outro caminho se nós falharmos em reverter o curso muito perigoso de eventos atual", disse o diplomata.

​No mais, russos colocaram novamente as linhas vermelhas estabelecidas por Putin em um ultimato: querem garantia para que a Ucrânia e outros países, como a Geórgia, nunca sejam admitidas na Otan, e a retirada de tropas dos membros ex-comunistas a seu redor.

Isso não vai acontecer. A Otan, assim como o próprio presidente dos EUA, Joe Biden, disse anteriormente, foi peremptória em negar a hipótese —o que era previsível.

Agora é uma questão de saber se os russos se contentarão com a reabertura de negociações pontuais para cantar vitória ou se será acatada a deixa dada pelo presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, de querer fazer uma cúpula com Putin e os líderes de França e Alemanha para tentar resolver o assunto.

Zelenski, um político impopular, tem se reforçado com o discurso de defesa da pátria, mas a situação precária no Donbass (o leste ucraniano) e a flexão de musculatura militar russa o pressionam a talvez aceitar termos que eram inconcebíveis antes —como manter a autonomia das áreas rebeldes.

Se esse for o destino, o Ocidente terá entregue uma vitória geopolítica a Putin, dado que países fraturados territorialmente não podem ser aceitos nos clubes a oeste —Otan e União Europeia, para começar.

Na prática, a Ucrânia seguiria como um tampão estratégico contra o Ocidente. Putin já o tem na Belarus, onde apoiou decisivamente a ditadura local contra protestos da oposição e firmou-se como líder político.

Não só lá. O apoio dado ao autocrata do Cazaquistão para derrotar a revolta contra si semana passada colocou a Rússia em outro patamar de influência na Ásia Central. Isso, assim como na Ucrânia, com apoio explícito da China de Xi Jinping, interessada em enfraquecer o Ocidente.

Mesmo que isso ocorra —e não o cenário mais pavoroso, de um conflito que possa escalar a um embate entre russos e a Otan—, ainda há instrumentos ocidentais para pressionar Putin.

Já existe um novo pacote de sanções sendo cozido no Congresso dos EUA contra a Rússia, e o status inconcluso do gasoduto Nord Stream 2 é uma dor de cabeça para o Kremlin. O duto, que liga a Rússia à Alemanha e tira fluxo de gás natural via Ucrânia, privando o país de bilhões de dólares em impostos, está pronto, mas enfrenta questionamentos burocráticos vistos como políticos.

O russo tem ainda outros ganhos no momento. Pouco se fala nesse momento da repressão aumentada à oposição e a entidades de sociedade civil na Rússia, que ganhou uma escala inaudita em 2021.

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