Príncipe Andrew renuncia a títulos militares após derrota judicial em caso de escândalo sexual

Palácio de Buckingham confirma que filho da rainha Elizabeth 2ª abre mão de afiliações e patrocínios reais

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Londres | Reuters

O príncipe Andrew, 61, filho da rainha Elizabeth 2ª, renunciou nesta quinta (13) a seus títulos militares no Reino Unido, um dia depois de ter o pedido de arquivamento de um processo civil que o acusa de abuso sexual negado por um juiz dos EUA.

Segundo um comunicado do Palácio de Buckingham, a decisão do duque de York de abrir mão de suas "afiliações militares e patrocínios reais" contou com a aprovação da rainha.

Ainda de acordo com a nota, o príncipe continuará sem assumir funções públicas —decisão que tomou em 2019, quando o escândalo sexual se agravou— e se defenderá na Justiça como um cidadão privado.

O príncipe Andrew, filho da rainha Elizabeth 2ª, durante cerimônia militar em 2019 - John Thys - 7.set.19/AFP

Uma fonte ligada à realeza disse em anonimato à agência de notícias Reuters que Andrew deixará de usar o título de "Sua Alteza Real" e que outros papéis de sua atribuição como príncipe devem ser distribuídos a diferentes membros da família.

​Andrew negou várias vezes as acusações feitas por Virginia Roberts Giuffre, 38, segundo as quais ele teria tido relações sexuais com a mulher quando ela tinha 17 anos. Giuffre teria sido oferecida ao príncipe por Jeffrey Epstein, que se suicidou em uma prisão nos EUA, em 2019, enquanto aguardava julgamento por acusações de tráfico sexual de menores e conspiração criminosa para traficar menores para explorá-los.

Em outubro de 2021, os advogados de Andrew pediram à Justiça americana que as acusações criminais contra ele fossem arquivadas por serem "juridicamente infundadas". O pedido da defesa foi negado nesta semana pelo juiz Lewis Kaplan, para quem é prematuro acatar os argumentos do príncipe.

O filho de Elizabeth pode, em breve, ser convocado a depor em um julgamento que terá início entre os meses de setembro e dezembro se nenhum acordo for costurado até lá. Se condenado, ele teria de pagar uma indenização, de valor não especificado, a Giuffre.

A decisão desta quinta-feira foi anunciada horas depois da publicação de uma carta aberta em que mais de 150 veteranos das Forças Armadas do Reino Unido se diziam "irritados e com raiva" e pediam à rainha que tirasse do príncipe suas funções militares —se necessário, sem honras.

"Entendemos que ele é seu filho, mas escrevemos à senhora na qualidade de chefe de Estado e comandante em chefe do Exército, da Marinha e da Aeronáutica", diz a carta. "Essas medidas poderiam ter sido tomadas a qualquer momento nos últimos 11 anos. Por favor, não permita que demore mais."

Os veteranos dizem ainda que Andrew ficou aquém dos padrões de "probidade, honestidade e conduta honrosa", descrevem-no como "tóxico" e afirmam que ele trouxe descrédito às Forças Armadas britânicas. "Fosse esse qualquer outro militar de alto escalão, seria inconcebível que ele fosse mantido no cargo."

O Palácio de Buckingham havia dito mais cedo que não comentaria a publicação da carta, mas a demanda dos veteranos foi atendida, ainda que indiretamente, com a retirada dos títulos militares de Andrew.

Foto feita na época em que Virginia Giuffre alega ter sido abusada mostra ela, o príncipe Andrew e, ao fundo, Ghislaine Maxwell, ex-namorada de Jeffrey Epstein
Foto feita na época em que Virginia Giuffre alega ter sido abusada mostra ela, o príncipe Andrew e, ao fundo, Ghislaine Maxwell, ex-namorada de Jeffrey Epstein - Tribunal Distrital do Distrito Sul de Nova York via AFP

Giuffre teria sofrido o abuso sexual na casa de Ghislaine Maxwell, 60, ex-namorada de Epstein, em Londres. No final de 2021, a britânica foi condenada pela Justiça americana em cinco acusações, por recrutar jovens e ajudar o megainvestidor a abusar delas. Ela responde, ainda, a outros dois processos por falso testemunho.​

A defesa de Andrew, entre outros argumentos, alega que um acordo judicial assinado por Giuffre e Epstein em 2009 tiraria o direito da mulher de processar o príncipe. O documento afirmava que qualquer pessoa ou entidade que poderia ter sido incluída como potencial réu em suas acusações estaria isenta de responsabilidade. David Boies, advogado dela, alega que o acordo é irrelevante para o caso contra Andrew.

As ligações do príncipe com Epstein resultaram em uma série de reportagens na mídia britânica e internacional. Andrew resolveu conceder uma entrevista à rede BBC, em 2019, na tentativa de minimizar as acusações, mas o resultado foi o oposto do esperado.

Questionado se lamentava o relacionamento com Epstein, que continuou mesmo depois de o empresário ter cumprido pena de prisão por ter aliciado uma menor de idade para prostituição, ele respondeu: "Se eu lamento o fato de que ele muito obviamente se comportou de maneira indecorosa? Sim".

"Indecorosa?", retrucou a entrevistadora da BBC, em tom incrédulo. "Ele era criminoso sexual." O príncipe voltou atrás rapidamente, dizendo: "Sim, sinto muito, estou sendo educado. Quero dizer, no sentido de que ele era criminoso sexual."

Andrew também não conseguiu explicar uma foto feita em Londres, que aparentemente o mostra com o braço em volta da cintura descoberta da adolescente, com Ghislaine Maxwell sorrindo em segundo plano.

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