Descrição de chapéu Rússia mudança climática

Relógio do Juízo Final não acelera, mas continua a 100 segundos da meia-noite

Cientistas exortam via diplomática para que crise EUA-Rússia não aumente risco nuclear

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Belo Horizonte

Desinformação, ameaças à segurança global, lacunas em políticas públicas eficientes contra a mudança climática, tecnologia disruptiva e resposta mundial insuficiente à Covid-19. Apesar de todos esses motores estarem em plena marcha, o apocalipse não está necessariamente mais próximo —ao menos na interpretação do prestigioso Boletim dos Cientistas Atômicos.

O grupo de acadêmicos americanos divulgou nesta quinta-feira (20) a atualização de seu Relógio do Juízo Final, criado em 1947, mantendo os ponteiros a cem segundos para a meia-noite. O índice é o mesmo adotado nos últimos dois anos, mas o fato de o tempo ter, por assim dizer, parado não indica alívio, tampouco nenhum avanço.

"A decisão não sugere, de forma alguma, que a situação da segurança internacional tenha se estabilizado", disseram os cientistas em comunicado. Pelo contrário: "O relógio permanece o mais próximo que já esteve do fim da civilização, porque o mundo continua preso em um momento extremamente perigoso".

Tanque de guerra russo dispara durante exercícios de combate na cordilheira Kadamovski, na região sul de Rostov, na Rússia, próximo à fronteira com a Ucrânia
Tanque de guerra russo dispara durante exercícios de combate na cordilheira Kadamovski, na região sul de Rostov, na Rússia, próximo à fronteira com a Ucrânia - Sergey Pivovarov - 12.jan.22/Reuters

Para reverter o quadro, o relatório exorta os presidentes dos Estados Unidos, Joe Biden, e da Rússia, Vladimir Putin, a firmarem, até o final de 2022, acordos mais ambiciosos e abrangentes para reduzir o acesso a armas nucleares. "Ambos devem concordar em reduzir a dependência de armas nucleares, limitando seus papéis, missões e plataformas, além de diminuir os orçamentos [voltados para a área]."

Um dos exemplos concretos que a organização cita é a defesa para que Biden decrete o fim do dispositivo que prevê que o presidente americano seja o único responsável por autorizar o lançamento de armas nucleares de seu país. A eleição do democrata, um ano atrás, não custa lembrar, foi um dos fatores levados em conta pela instituição para não avançar os ponteiros do Relógio do Juízo Final em 2021.

A atualização deste ano se dá em meio ao aumento das tensões entre Rússia e países-membros da Otan, depois de Moscou ter posicionado mais de 100 mil soldados na fronteira com a Ucrânia. O Kremlin teme que seus adversários geopolíticos cheguem ainda mais perto de suas fronteiras e, segundo o Ocidente, ameaça invadir o país vizinho caso ele se junte a essas potências.

Ainda no tema, o Boletim dos Cientistas Atômicos pede que Moscou volte a integrar de forma ativa o Conselho Otan-Rússia, em colaboração com medidas de redução de risco e prevenção de escalada de tensões. Em 2021, ambos os lados romperam relações diplomáticas, mas recentemente, devido às crescentes tensões, voltaram a se reunir —ainda que sem grandes avanços.

A Coreia do Norte também é citada no relatório: os cientistas pedem para que o país comandado pelo ditador Kim Jong-un pare de fazer testes nucleares e de mísseis de longo alcance. Nas últimas duas semanas, Pyongyang colocou em prática quatro testes com mísseis, sendo um deles alegadamente hipersônico. Além disso, os cientistas pedem para que EUA e Irã retomem as negociações do acordo nuclear, abandonado por Donald Trump em 2018.

O grupo ainda cita os americanos ao pedir que todos os países acelerem e coloquem em prática projetos de descarbonização. Em dezembro, Biden assinou uma série de ordens executivas para tornar o governo neutro nas emissões de carbono. A meta do Executivo é garantir os cortes gradualmente até 2050.

Já Pequim, em sua Iniciativa do Cinturão e da Rota (projeto chinês de estímulo a investimentos para além de sua fronteira), "deve dar exemplo ao buscar caminhos de desenvolvimento sustentável", evitando projetos com o uso intensivo de combustível fóssil, aponta o Boletim. De acordo com o líder chinês, Xi Jinping, seu país começará a reduzir o consumo de carvão no período de 2026 a 2030 –o uso desse combustível fóssil na China, de longe o mais alto no mundo, atingirá um pico em 2025 e começará a cair depois disso.

Relógio do Juízo Final é revelado em Washington, nos EUA
Relógio do Juízo Final é revelado em Washington, nos EUA - The Hastings Group - 20.jan.22 / AFP

O Brasil, incluído entre os motores do apocalipse pela primeira vez na atualização de 2020, por causa da política ambiental do governo Jair Bolsonaro (PL), não foi mencionado no relatório deste ano. O grupo, porém, cita a necessidade de países em desenvolvimento serem apoiados financeiramente por grandes potências para também adotarem iniciativas contra a mudança climática.

Em relação à pandemia de Covid-19, o Boletim sugere aos líderes mundiais que trabalhem junto à OMS (Organização Mundial da Saúde) e outras instituições internacionais "para reduzir os riscos biológicos de todos os tipos". Ainda sobre o tema, é citada a necessidade de melhorias na vigilância e notificação em doenças propícias ao contágio internacional, além da expansão mundial da capacidade hospitalar e o aumento da produção e distribuição de suprimentos médicos.

O Boletim foi fundado em 1945 por Albert Einstein e pesquisadores da Universidade de Chicago que participaram do Projeto Manhattan, a criação da bomba atômica americana. Dois anos depois, alarmados com as possibilidades de o novo armamento ser utilizado em um conflito entre EUA e União Soviética, eles criaram o Relógio como forma de alertar a comunidade internacional sobre riscos.

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