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Rússia fala em deixar negociações sobre Ucrânia e enviar tropas para Venezuela e Cuba

Medida é especulada como retaliação devido ao impasse na crise em torno do país vizinho

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São Paulo

Em mais um dia de impasse diplomático em torno da crise na Ucrânia, a Rússia subiu ainda mais o tom em seu embate com a Otan (aliança militar ocidental) acerca do país vizinho: ameaçou deixar os diálogos e, sacando uma arma da época da Guerra Fria, sugeriu que pode enviar tropas para Venezuela e Cuba.

Os dois países latino-americanos são os principais aliados de Vladimir Putin no quintal estratégico dos Estados Unidos, que por sua vez costuram um pacote de sanções destinado a atingir diretamente o presidente russo em caso de ação militar na Ucrânia.

Tanques T-72B3 russos participam de treinamento em Rostov, área próxima da Ucrânia
Tanques T-72B3 russos participam de treinamento em Rostov, área próxima da Ucrânia - Serguei Pivovarov - 12.jan.2022/Reuters

As ameaças, um tanto exageradas mas coerentes com a tensão corrente, foram feitas em uma entrevista nesta quinta-feira (13) ao canal russo RTVI do chefe da delegação que negociou na segunda (10) em Genebra com um grupo americano, o vice-chanceler Serguei Riabkov. "Não há razão para sentar à mesa [com os ocidentais] nos próximos dias", afirmou ele, enquanto outra delegação russa participava de uma reunião de emergência da OSCE (Organização para Segurança e Cooperação na Europa), em Viena.

O diplomata disse que não seria possível excluir o posicionamento de forças nos países latino-americanos. O eco disso é óbvio: em 1962, a União Soviética quis responder às instalações de mísseis nucleares americanos na Turquia colocando um regimento de foguetes em Cuba.

O incidente causou a mais famosa crise da Guerra Fria, com um bloqueio naval americano impedindo a chegada de navios soviéticos com mais armas, quase levando a um conflito nuclear entre as potências.

Nada disso parece colocado agora, mas a simples menção mostra a temperatura da crise. Obviamente Riabkov não disse isso, mas não é um exercício irreal pensar que ele tenha pensado em mísseis com capacidade nuclear a poucos quilômetros da costa americana, para responder à suposta intenção da Otan de fazer o mesmo em relação à Rússia no Leste Europeu.

Além disso, o vice-chanceler afirmou que Putin está recebendo "opções militares" acerca da situação na Ucrânia, perto de onde o russo posicionou mais de 100 mil homens desde novembro, gerando a acusação, por parte dos EUA e da Otan, de que estaria preparando uma invasão.

A reunião em Viena começou com notas sombrias. "Parece que o risco de guerra na área da OSCE é agora maior do que nunca nos últimos 30 anos", disse o chanceler Zbigniew Rau, da Polônia, país que assumiu a presidência rotativa da entidade que reúne 57 países europeus —incluindo Rússia e Ucrânia.​

O representante russo na entidade, Alexander Lukachevitch, afirmou que ainda espera uma saída diplomática para a crise, o mesmo que havia dito Riabkov e o chefe de ambos, o chanceler Serguei Lavrov, embora todos falem em um "beco sem saída" à frente dos envolvidos. "Não há motivo para otimismo."

Esta foi a terceira reunião nesta semana sobre a crise. Depois das conversas em Genebra, na quarta (12) houve uma dura rodada do Conselho Otan-Rússia, que não se reunia havia dois anos, em Bruxelas.

Em todos os encontros, houve um caminho aberto para concessões na forma de eventuais tratados sobre armas de alcance intermediário, uma obsessão estratégica do Kremlin, e monitoramento de exercícios militares. Ao mesmo tempo, a Rússia fez uma nada sutil sinalização ao mobilizar 3.000 homens, tanques e blindados para manobras com munição real em quatro regiões, três das quais junto à Ucrânia.

E os democratas no Senado americano anunciaram a preparação de um novo pacote de sanções visando atingir Putin —se houver ação militar contra o vizinho.

O porta-voz do Kremlin considerou "inaceitável" a especulação, além de reiterar a posição oficial de que não há intenção de agir. O embaixador Lukachevitch resumiu o espírito vigente, contudo: "A Rússia é um país que ama a paz. Mas não precisamos de paz a qualquer custo. A necessidade de obter garantias formais de segurança para nós é incondicional".

As tais garantias foram expressas por Putin em conversas com o americano Joe Biden e em um documento formal e foram rejeitadas pela Otan. O russo quer que a aliança militar reflua às suas fronteiras pré-adesão de países ex-comunistas e rejeite se expandir —ou seja, negando a promessa feita em 2008 à Ucrânia e à Geórgia nesse sentido.

O Kremlin quer ver restaurado um entorno estratégico que, se não é aliado como na Belarus e agora com a presença na crise do Cazaquistão, seja ao menos neutro, refletindo séculos de preocupações com invasões e presença de adversários nas fronteiras.

Em 2008 e 2014, justamente com Kiev e Tbilisi, Moscou foi às vias de fato para desestabilizar governos pró-Ocidente e evitar a adesão deles à Otan —com a excisão de Abkházia e Ossétia do Sul na Geórgia e da Crimeia na Ucrânia, ambos os países não podem entrar no clube militar por terem conflitos territoriais.

O caso ucraniano é ainda mais complexo, já que Putin também fomentou uma guerra civil no leste do país, hoje um protetorado de rebeldes pró-Kremlin. Com insinuações de Kiev de resolver a coisa militarmente, Putin resolveu agir e aproveitar para tentar estabelecer uma solução para a crise sob seus termos.

Se o ultimato do russo parecia ter sido desenhado para ser rejeitado, na prática obriga o Ocidente a reconhecê-lo como ator relevante e pode eventualmente levar a uma acomodação na Ucrânia, ainda que o tom estridente de lado a lado tenha conduzido a crise a um impasse perigoso.

A entrada em cena das ditaduras de Miguel Díaz-Canel e Nicolás Maduro pode ser só teatral, mas adiciona um tempero inaudito até aqui. Não é escolha casual. Cuba foi uma base soviética ao longo da Guerra Fria e mantém relação estreita com Putin, e a Venezuela foi armada pelos russos com caças, blindados e sistemas antiaéreos. Coincidentemente, um integrante do time negociador do Kremlin é Alexander Fomin, vice-ministro da Defesa que por anos foi o contato para o fornecimento bélico a Caracas.

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