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Ucrânia fala em desmantelar grupos pró-Rússia, e EUA orientam cidadãos a deixar país

Reino Unido ameaça sanções a Moscou após acusar Putin de tramar para instalar governo fantoche no vizinho

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Kiev, Londres e Washington | Reuters e AFP

A Ucrânia declarou, neste domingo (23), que quer desmantelar todos os grupos pró-Rússia em seu território, depois que o Reino Unido acusou Moscou de tramar para instalar em Kiev um governo fantoche alinhado a Vladimir Putin.

"Nosso Estado continuará sua política de desmantelar qualquer estrutura oligárquica e política que possa trabalhar para desestabilizar a Ucrânia ou ser cúmplice dos ocupantes russos", disse Mikhailo Podoliak, assessor da Presidência de Volodimir Zelenski às agências de notícias, sem detalhar como esse processo se dará concretamente.

Segundo ele, há dúvidas no país sobre a possibilidade de Moscou escalar o ex-deputado Ievguêni Muraiev para essa posição —posto que ele seria "uma figura ridícula demais"—, o que não significa que as informações da inteligência britânica não devam ser levadas a sério "o máximo possível".

Soldado ucraniano em trincheira na região do conflito com separatistas de Donetsk - Anatolii Stepanov - 23.jan.22/AFP

Na noite deste sábado (22), um comunicado assinado por Liz Truss, secretária de Relações Exteriores do Reino Unido, fez a acusação a Putin, apontando Muraiev como provável líder desse governo alinhado a Moscou. Também foram citados quatro políticos ucranianos que teriam laços com os serviços de inteligência russos, incluindo agentes envolvidos em planos de ataque.

O comunicado não detalha, porém, como a Rússia viabilizaria a queda de Zelenski nem explica se o plano dependeria de uma invasão por tropas russas —possibilidade que o Ocidente vem aventando ser cada vez mais real, após o deslocamento de 100 mil soldados para a região da fronteira entre os países.

Autoridades britânicas ligadas à inteligência e envolvidas na elaboração do dossiê disseram sob condição de anonimato que a intenção da divulgação do comunicado, pouco usual em se tratando de diplomacia, era impedir a concretização de tais planos ao expor a suposta trama de Putin. O próprio presidente ucraniano, em novembro, citou um plano de golpe contra ele envolvendo russos.

Na manhã deste domingo, o vice-premiê do Reino Unido, Dominic Raab, ameaçou a Rússia com "sanções econômicas severas" caso se viabilize o plano. "Haverá consequências muito sérias se a Rússia tomar essa medida e tentar invadir a Ucrânia", disse ele à rede Sky News. Nesta semana, o país anunciou ter iniciado o fornecimento de armamentos antitanque aos ucranianos.

Em Kiev, Podoliak exortou o Ocidente a agir "unido e com rigor" em relação à Rússia neste momento, e o discurso de outras autoridades em relação a sanções a Moscou seguiu um tom mais ponderado.

O secretário de Estado americano, Antony Blinken, rejeitou a possibilidade de fazê-lo imediatamente. "O objetivo das sanções é deter uma agressão russa. Se elas forem aplicadas agora, você perde seu efeito de dissuasão", disse à CNN. Em outra entrevista, porém, reforçou que o país nunca ajudou tanto a Ucrânia com segurança como neste ano —armamento foi entregue neste domingo, inclusive— e que, numa eventual nova invasão, Moscou sofrerá "consequências maciças".

À noite, a diplomacia americana emitiu um alerta recomendando que cidadãos não viajem para a Ucrânia, citando evidências de que a Rússia planeja "uma ação militar significativa" na região. Cidadãos que estejam em Kiev e familiares dos funcionários da embaixada foram orientados a deixar o país.

"As condições de segurança, particularmente nas fronteiras, na Crimeia ocupada pela Rússia e no leste controlado pela Rússia, são imprevisíveis e podem se deteriorar a curto prazo", diz o comunicado. Na sequência, outra nota apontou que viagens à Rússia tampouco são recomendadas.

Na sexta, Blinken esteve com o chanceler russo, Serguei Lavrov, e concordou com o pedido de enviar respostas formais, por escrito, às demandas do Kremlin, de resto negadas em outras oportunidades —a saber, a garantia de que antigas repúblicas soviéticas como Ucrânia, Geórgia ou Moldova não integrarão a Otan e a retirada de tropas do grupo de países ex-comunistas na cercania de Moscou.

O jornal The New York Times informou que o presidente Joe Biden discutiu neste fim de semana com autoridades do Pentágono cenários que incluem o envio de aeronaves e até 5.000 tropas americanas para países que integram a aliança militar ocidental, como os Estados bálticos, no leste europeu. O martelo pode ser batido no início desta semana.

Na Alemanha, o premiê Olaf Scholz pediu prudência ao Ocidente no tema, mas repetiu o discurso de unidade: "Nesse círculo de aliados, concordamos com as medidas possíveis. Temos que ser capazes de agir em caso de emergência". O país esteve no foco da crise neste sábado, quando se viu obrigado a afastar o chefe da Marinha depois de o militar desencadear um mal-estar com Kiev ao defender Putin.

A disputa na região pode afetar diretamente os alemães por causa do gasoduto Nord Stream 2, que ainda não entrou em operação. Ao longo da semana, a ministra das Relações Exteriores, Annalena Baerbock, e Scholz disseram que Berlim sabe que o custo de defender a Ucrânia no caso de uma invasão russa será grande —e todos estão dispostos a pagá-lo.

Enquanto isso, na Rússia, a acusação da inteligência britânica foi classificada pela chancelaria local como uma campanha de desinformação que visa a "aumentar as tensões" na crise envolvendo a Ucrânia. A agência estatal TASS noticiou neste domingo que o país ainda analisa a possibilidade de uma visita diplomática da secretária Liz Truss ao chanceler Serguei Lavrov em fevereiro.

Muraiev também criticou o documento do Reino Unido, chamando-o de teoria da conspiração, e disse que estuda responder judicialmente. "É algo absolutamente sem provas, absolutamente infundado." Ele acrescentou que sofreu sanções de Moscou em 2018 e negou manter contato com agentes russos.

O político Ievguêni Muraiev em cerimônia de memória pela Segunda Guerra na Ucrânia - Viatcheslav Madiievski - 9.mai.20/Reuters

Em postagem no Facebook, defendeu "novos líderes" para a Ucrânia, guiados pelos interesses nacionais e que não sejam "pró-Ocidente ou pró-Rússia". Posições recentes do ex-deputado, porém, indicam uma aproximação maior com Moscou do que qualquer outra coisa. "É a paz, não a Otan que está nos nossos interesses", disse à Reuters. "Se tivermos uma guerra e centenas de milhares morrerem porque o Ocidente quer que sejamos uma plataforma de lançamento, acho que isso é ir contra nossos interesses."

Com o domingo coroando uma semana em que encontros diplomáticos não serviram para baixar a temperatura da crise, no Vaticano o papa Francisco pediu que um dia internacional de "oração pela paz" seja realizado em 26 de janeiro para impedir que o caldo na região da Ucrânia entorne de vez. Segundo o pontífice, as tensões ameaçam a segurança da Europa e podem acarretar consequências ainda mais graves.

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