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Crise na Ucrânia remete a 2014, mas lembra mais a guerra de 2008 na Geórgia

Se militarizar o Donbass de forma limitada, Putin pode conseguir seu objetivo estratégico

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Rostov-do-Don

Em meio ao teatro montado por Vladimir Putin para dramaticamente colocar o 21 de fevereiro de 2022 em destaque na história do pós-Guerra Fria, um detalhe chamou a atenção.

Ativistas pró-Rússia celebram o reconhecimento das repúblicas rebeldes pelo Kremlin em Donetsk
Ativistas pró-Rússia celebram o reconhecimento das repúblicas rebeldes pelo Kremlin em Donetsk - Alexander Ermotchenko/Reuters

Em sua fala com considerações sobre a crise, o ex-presidente Dmitri Medvedev fez um paralelo entre a situação atual e a que ele viveu no Kremlin em 2008, quando esquentava a cadeira até 2012 para a volta de Putin, então acomodado como premiê.

Ele não poderia estar mais certo, e isso sugere uma situação de altíssimo risco daqui para a frente.

A crise atual remete, claro, à situação inconclusa da guerra civil iniciada depois que Putin anexou a Crimeia em 2014, para impedir a entrada do país nas estruturas ocidentais após a derrubada do governo que lhe era servil em Kiev.

Mas o desenvolvimento atual parece dizer mais à curta guerra de cinco dias que o Kremlin empreendeu na pequena Geórgia em agosto de 2008. Naquele momento, a "manu militari" russa foi usada pela primeira vez para tentar coibir a expansão ocidental sobre antigos satélites comunistas do império soviético.

Em 2004, contra as promessas não escritas, a Otan abarcou três ex-repúblicas soviéticas e uma penca de antigos países-títeres de Moscou —ao todo, já são 14, cuja retirada de armamento ofensivo da aliança é um dos pontos centrais do inexequível ultimato emitido por Putin neste 2022.

Assim como a Ucrânia, a Geórgia tinha duas áreas de maioria étnica russa, a Abkházia e a Ossétia do Sul. Um misto de pressão russa e o voluntarismo do então presidente Mikheil Saakashvili jogaram seu país em rota de colisão com Moscou.

O resultado foi a intervenção dos russos, que haviam mobilizado dezenas de milhares de soldados para um exercício militar nas vizinhanças. Soa familiar? Não é casual que o Ocidente esteja em alarme desde que viu os primeiros de mais de 150 mil soldados se mexendo em torno das fronteiras ucranianas.

A guerra foi má, militarmente, para Putin, que viu sua aviação humilhada em desempenho, mas até por gravidade, ele foi vencedor. Logo na sequência do conflito, status quo resolvido, o Kremlin tratou de reconhecer as duas entidades como países independentes —assim o fizeram alguns aliados dos russos.

Em 2014, a história foi semelhante em objetivo (frear o Ocidente), mas diferente em método. A Crimeia era uma região russa ao longo dos séculos, tendo sido dada à Ucrânia por um capricho da liderança soviética em 1954. A ação russa para apoiar os separatistas que promoveram um referendo considerado ilegal pelas Nações Unidas foi mais sutil, na forma de forças infiltradas —os proverbiais "pequenos homens verdes", sem bandeira na braçadeira.

Deu certo. A segunda etapa, a guerra civil, em um momento inicial acendeu sonhos nacionalistas russos da construção da Nova Rússia, área que uniria a região de Rostov à Crimeia, passando pelo Donbass.

As dificuldades em campo e o próprio fato de que absorver aquela região menos homogênea seria uma tarefa hercúlea e impagável mantiveram Putin relativamente distante, apoiando de forma não decisiva os rebeldes.

O que lhe interessava era o congelamento do conflito e o status de Estado quase falido da Ucrânia, o que lhe impedia na prática de entrar tanto na Otan quanto na União Europeia. No começo de 2021, embalado pela retomada de áreas ocupadas pelos armênios nos anos 1990 pelo Azerbaijão, Kiev ensaiou ameaçar militarmente o Donbass.

Putin mostrou os dentes numa mobilização rápida, cortesia da reforma militar efetiva que o quase fiasco de 2008 garantiu para suas Forças Armadas. Mas o que não era claro era o caráter de "test-drive" daquele momento de abril passado.

A relação de Moscou com os separatistas sempre foi algo turbulenta, mas agora eles conseguiram o que queriam. Ao enviar tropas a pedido deles, como seria óbvio que aconteceria, Putin dá um passo além e arriscado.

Se ele se mantiver dentro das linhas atuais de fronteira e militarizar o terreno, contudo, sem reivindicar terra ucraniana das antigas províncias de Lugansk e Donetsk, terá a oportunidade de estabelecer uma vitória para seu projeto estratégico sem disparar um tiro.

Putin conta com os EUA em modo agressivo, mas se recusando a falar em guerra por motivos de conflito mundial entre potências nucleares. Seu redesenho à força da realidade de segurança no Leste Europeu está à mão, mas muita coisa ainda pode dar errado.

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