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Rússia e Ucrânia sinalizam negociação sob sombra de exercício militar na Belarus

Kiev rejeita aceitar integralmente acordos propostos por Macron e defendidos por Putin

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São Paulo

Sob a sombra dos mais temidos exercícios militares russos até aqui na crise da Ucrânia, tanto Moscou quanto Kiev deram sinais de abertura para negociações de forma a evitar que a tensão crescente se torne um conflito aberto.

A Rússia quer estabelecer uma nova lógica de segurança na região que retire a ameaça de forças da Otan (aliança militar ocidental) perto de suas fronteiras, com uma eventual entrada dos ucranianos no clube de 30 países.

Ela o fez no escopo da crise que vem desde 2014, quando anexou a Crimeia justamente para evitar a absorção de Kiev no arcabouço ocidental ao ver um governo aliado de Vladimir Putin derrubado. Também ajudou rebeldes separatistas pró-Rússia no leste do país, cuja autonomia está no centro da disputa.

Tanque ucraniano durante exercício militar na região de Dnipropetrovsk
Tanque ucraniano durante exercício militar na região de Dnipropetrovsk - Forças Armadas da Ucrânia - 8.fev.22/AFP

"Houve sinais positivos de que a solução para a Ucrânia só pode ser baseada nos Acordos de Minsk. Kiev deveria ter feito isso há muito tempo, assim há sinais positivos e outros, nem tanto", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, na manhã desta quarta-feira (9).

Ele se referia à defesa dos acordos —que estabeleceram um cessar-fogo precário mas nunca foram totalmente aceitos pela Ucrânia por ceder controle local aos rebeldes—, feita pelo presidente da França, Emmanuel Macron, na véspera.

Ele havia estado na segunda (7) com Putin e no dia seguinte com o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski. Enquanto manteve a posição da Otan e dos EUA, contrária às demandas maiores da Rússia, Macron piscou ao aceitar a principal exigência pontual russa —o que, na prática, resolveria seu problema, porque a Otan não aceita membros com pendências territoriais tão sérias.

Nesta quarta, o chanceler ucraniano, Dmitro Kuleba, bateu no cravo ao dizer que "há a possibilidade real de avanços" e na ferradura, ao negar a ideia do arranjo de Minsk "sob a interpretação russa". Como isso é no mínimo ambíguo, observadores creem que pode haver um caminho a seguir.

Por outro lado, Kuleba evitou polêmicas e disse que "não houve traição" por parte de Macron ao citar o acerto proposto por Putin.

No lado diplomático, outros movimentos ocorreram. A União Europeia convidou a Rússia para participar de negociações sobre a segurança no continente no âmbito da OSCE (Organização para Segurança e Cooperação na Europa), ente do qual Moscou já faz parte.

Ainda houve conversas entre o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e seu homólogo turco Mevlut Cavusoglu para discutir a crise. E, buscando recuperar o espaço perdido para Macron, o premiê britânico, Boris Johnson, vai a Varsóvia falar com o presidente Andrzej Duda.

Enquanto isso, os tambores da guerra seguem seu ritmo. A Rússia, que posicionou cerca de 130 mil militares em torno da Ucrânia desde novembro para fazer valer seu ponto nas negociações, iniciou a fase ativa do megaexercício que promove com a Belarus.

Ditadura aliada de Moscou, que durante anos evitou ficar tão sob a influência de Putin, a Belarus fica ao norte da Ucrânia —sua fronteira, meros 200 km por rodovia até Kiev. Com a pressão contra o ditador Aleksandr Lukachenko nas ruas, após mais uma eleição para o manter no poder que detém desde 1994, Minsk capitulou politicamente.

Agora, há no país 30 mil soldados russos, dois batalhões com os avançados sistemas antiáereos S-400 e diversos aviões, incluindo os modernos caças Su-35S, os melhores disponíveis em alguma quantidade na Força Aérea de Putin.

Segundo a Otan, é o maior deslocamento russo no vizinho desde o tempo em que ambos os países faziam parte da União Soviética, o império comunista falecido em 1991. Já a Ucrânia se mantém em estado constante de exercícios pontuais desde o começo da crise, também para efeito de propaganda de prontidão junto aos aliados ocidentais, com fotos divulgadas de tanques e soldados.

O presidente russo, segundo o Kremlin, disse que todos vão embora após os dez dias de exercícios. Pode ser, mas o fato é que será um período de alta tensão na Europa, dado que não é preciso muito para transformar uma simulação em realidade.

A Rússia diz que não quer invadir a Ucrânia e, de fato, teria muito a arriscar se o fizesse. Operações mais limitadas estão no cardápio, contudo, e a presença de seis navios de assalto anfíbio neste fim de semana em exercícios no mar Negro levantam temores de alguma ação pontual para ligar por terra as áreas pró-russas do leste à Crimeia, por exemplo.

Ainda assim, com toda essa fumaça, parece improvável qualquer movimento por parte de Putin. O russo até aqui se mostrou disposto a exercitar suas forças e mostrar-se pronto para usá-las, o que é diferente de tomar a iniciativa. Mas essa avaliação é baseada em indícios.

Pelo sim, pelo não, as forças americanas na Polônia foram instruídas a preparar a retirada de seus cidadãos no país caso haja conflito. É parte do jogo psicológico que o governo de Joe Biden vem também exercendo, com ameaças de sanções e uma retórica dura contra Putin. Nesta quarta, o porta-voz do Pentágono voltou a criticar Moscou, alegando novos movimentos de tropas próximas à fronteira. "Todos os dias ele aumenta suas opções, todos os dias aumenta sua capacidade", disse John Kirby.

Por fim, segundo a rede de TV japonesa NHK, Tóquio aceitou um pedido dos EUA para enviar gás natural liquefeito por navios para a Europa em caso de um conflito estourar. É mais pressão sobre o presidente russo, que tem no fornecimento de 40% do gás consumido no continente uma de suas armas econômicas.

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