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Russos criticam EUA e Otan durante encontro com autoridades brasileiras

Chanceler Lavrov falou sobre a crise com o colega Carlos França; Brasil assina acordo de cibersegurança com Moscou

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Moscou

Em encontro bilateral dos chefes da diplomacia e da defesa dos dois países, Brasil e Rússia discutiram o que o chanceler Serguei Lavrov chamou de "intenção dos Estados Unidos de dividir o mundo". Os russos apresentaram sua versão da crise ucraniana no encontro.

Explicando que se tratava da abordagem russa sobre a questão, e dando como exemplo a situação em torno das fronteiras da Ucrânia, o decano da diplomacia mundial afirmou que "discutimos o fato de que os EUA querem trocar o direito internacional por outra ordem".

Lavrov conduz Carlos França (esq.) para a entrevista coletiva de ambos após reunião em Moscou
Lavrov conduz Carlos França (esq.) para a entrevista coletiva de ambos após reunião em Moscou - Chamil Jumatov/Pool/AFP

"Falamos [os russos] da intenção dos EUA de dividir o mundo em duas partes, países democráticos e não democráticos", afirmou, em sua fala após o encontro de cerca de uma hora que teve com seu colega Serguei Choigu (Defesa) e os homólogos brasileiros Carlos França (Itamaraty) e Walter Braga Netto (Defesa).

Em sua fala, França cuidadosamente não citou os temas de geopolítica. A viagem do presidente Jair Bolsonaro à Rússia, que tem nesta quarta (16) seu dia de eventos oficiais, foi objeto de contestação inclusive dos EUA, que pressionaram para que ela não ocorresse e desse a ideia de apoio internacional a Vladimir Putin.

Isso tornou a viagem a Moscou para encontrar o presidente russo um campo minado para Bolsonaro, ainda que estivesse afinada com a linha usual de não alinhamento do Itamaraty —que de resto havia sido implodida pelo brasileiro nos dois anos de gestão de Ernesto Araújo, um chanceler que acreditava em conspiração globalista e defendia uma aliança com os EUA.

Em favor do brasileiro, a crise deu uma arrefecida desde a segunda (14), com sinalizações do Kremlin em favor de negociações e com algumas retiradas anunciadas de tropas em torno da Ucrânia. Putin e Bolsonaro também se reuniram.

Naturalmente, apoiadores de Bolsonaro quiseram falsamente atribuir isso à visita do presidente, e seu filho Eduardo (deputado federal pelo PSL-SP, de mudança para o PL) chegou a postar as hashtags "BolsonaroEvitouaGuerra" e "BolsonaroNobeldaPaz".

O presidente russo está no meio de um duelo com o Ocidente. Posicionou, e agora parece ter começado a retirar, tropas em torno da Ucrânia e apresentou um ultimato para discutir sua visão de segurança para o Leste Europeu —uma que não inclua países ex-comunistas como novos membros da Otan, a aliança militar ocidental.

Lavrov falou disso. "Trocamos avaliações geopolíticas", disse. "No caso da Europa, falamos da política de portas abertas [do Ocidente em relação à Otan]", do alargamento não controlado da Otan ao leste. "Falamos dos nossos esforços para contrapor e combater essa linha política."

Não se sabe, pelas manifestações públicas, se o Brasil deu alguma nova opinião sobre a crise ou se, como é sua tradição, ouviu e disse defender que os conflitos se resolvam de forma pacífica. Isso foi reiterado antes do encontro pelo ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, que se juntou à comitiva de Bolsonaro.

Como agrado, Lavrov reiterou o apoio que já havia sido dado por Putin em 2014, quando a presidente era Dilma Rousseff (PT), à pretensão brasileira de ser integrante permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Hoje, o país ocupa uma cadeira rotativa no clube de 15 países com direito a voto. Mas veto, só o têm os cinco membros com assento permanente: EUA, Rússia, China, Reino Unido e França —os vencedores da Segunda Guerra Mundial ditam as fundações do sistema diplomático mundial atual.

"A Rússia confirmou de novo nossa intenção e confiança em que o Brasil seja um membro permanente, e também apoia a iniciativa de alargar a composição do conselho", afirmou Lavrov.

Mais econômico, França anunciou que Brasil e Rússia conversaram sobre cooperação técnico-militar, dando assim continuidade a um diálogo que remonta aos anos 1990 e foi estabelecido em 2002, quando ambos os países assinaram um acordo sobre o tema.

Disse também que o GSI (Gabinete de Segurança Institucional) firmou um acordo de proteção mútua de dados com seu equivalente russo, liderado por Nikolai Patruchev. O tema da cibersegurança é cercado de mistérios, e o chanceler apenas afirmou que o arranjo permite troca de informações com mais segurança e sob a égide da lei brasileira de proteção de dados.

A Rússia é acusada pelo Ocidente de ser um dos centros mundiais de ataque cibernéticos e atividades hacker de todo o tipo. Na terça (15), Joe Biden, disse estar pronto para retaliar caso fossem lançados ataques contra a infraestrutura da Ucrânia nesse domínio.

França ressaltou que o Brasil considera a Rússia um líder mundial em tecnologia de defesa e que o encontro visa abrir conversas nesse campo. Os russos nos últimos anos tentaram vender sistemas de defesa antiaérea ao Brasil, produtos nos quais comandam excelência, mas foram rechaçados.

Fracassaram também em ofertar aviões de caça, negócio abocanhado pelos suecos —ocidentais, mas não são os EUA, do ponto de vista de alinhamento. O tema foi tratado como prioridade: como o comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, está com Covid-19 e não pôde viajar, a comitiva incluiu quatro oficiais-generais da Forças em seu lugar.

Lavrov também disse que o Brasil e a Rússia concordam com tratados de limitação de armas químicas e proibição de testes nucleares, temas importantes embora pareçam algo esotéricos ao público.

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