Rússia volta a atacar cidade perto da Polônia após reunião de Biden com ucranianos

Presidente americano promete mais apoio a Kiev; combates se intensificam em Mariupol

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Varsóvia e Lviv | Reuters e AFP

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, se reuniu neste sábado (26) em Varsóvia com os ministros ucranianos das Relações Exteriores, Dmitro Kuleba, e da Defesa, Oleksi Reznikov, em seu primeiro encontro presencial com autoridades de primeiro escalão do país desde o início da guerra no Leste Europeu.

Biden, acompanhado dos secretários de Estado, Antony Blinken, e da Defesa, Lloyd Austin, expressou seu "compromisso inabalável com a soberania e a integridade territorial da Ucrânia", afirmou o porta-voz da diplomacia americana, Ned Price, após o encontro.

O presidente dos EUA, Joe Biden, no encontro com ministros ucranianos em Varsóvia - Evelyn Hockstein/Reuters

Kuleba relatou a repórteres que os EUA prometeram mais ajuda e cooperação para a defesa e a segurança da Ucrânia. "O presidente Biden disse que o que está acontecendo vai mudar a história do século 21. Vamos trabalhar juntos para garantir que essa mudança seja a nosso favor, a favor da Ucrânia, a favor do mundo democrático", disse ele.

Mais tarde, após se encontrar com o presidente da Polônia, o americano disse duvidar que a Rússia tenha mudado sua estratégia no conflito. Nesta sexta, o Ministério da Defesa de Moscou disse que "cumpriu quase toda a primeira fase da guerra" e que, agora, concentrará esforços no que chamou de "libertação" da região do Donbass.

Kuleba afirmou também que a reunião discutiu em detalhes o caso de Mariupol. Neste sábado, novos combates foram registrados, na região, inclusive no centro da cidade portuária há semanas sob cerco e bombardeios russos. O prefeito Vadim Boichenko afirmou que a situação continua crítica, e o presidente Volodimir Zelenski a comparou com a vivida pela cidade síria de Aleppo, destruída na guerra civil do país.

Em pronunciamento transmitido na TV estatal, a vice-primeira-ministra do país, Irina Vereschuk, alegou que 100 mil civis ainda precisam ser retirados de Mariupol.

Ela também afirmou que houve um acordo para o estabelecimento de dez corredores humanitários para a saída de civis de vilas e cidades mais atingidas por combates, mas que, no caso de Mariupol, a única forma de sair seria em carros particulares, já que as forças russas não estariam permitindo a passagem de ônibus por seus postos de controle.

Boichenko falou em negociações envolvendo a diplomacia francesa para um corredor humanitário, sem detalhar se avanços teriam sido feitos. Ucrânia e Rússia têm se acusado mutuamente pelas falhas em estabelecer corredores humanitários nas últimas semanas.

Também neste sábado, as forças russas assumiram o controle da cidade de Slavutitch, próxima à fronteira com a Belarus, onde vivem os trabalhadores da usina nuclear de Tchernóbil, disse o governador da região de Kiev, Oleksandr Pavliuk.

Em um comunicado nas redes sociais, o político afirmou que soldados de Moscou teriam ocupado o hospital da cidade e sequestrado o prefeito, além de dispersado um protesto de moradores com tiros para o alto e bombas de efeito moral. As informações não puderam ser verificadas de forma independente. Na sexta-feira, autoridades ucranianas disseram que suas tropas repeliram um primeiro ataque de tropas russas que se aproximavam de Slavutitch.

O governador regional de Lviv relatou neste sábado dois ataques com mísseis à cidade, que fica no oeste da Ucrânia, próximo à fronteira com a Polônia, e tem sido usada como rota de fuga de refugiados. Segundo Maksim Kozitski, ao menos cinco pessoas ficaram feridas.

Na capital, Kiev, ainda que não tenham sido registrados ataques de Moscou, o prefeito Vitali Klitschko anunciou a imposição de um toque de recolher entre a noite de sábado e a manhã de segunda, mas depois voltou atrás, sem detalhar os motivos da decisão.

Ainda no front militar, o sábado teve exercícios militares russos, com mísseis S-400 e um caça Su-27 em seu exclave ocidental de Kaliningrado, entre Polônia e Lituânia, segundo relatou a agência estatal Interfax. No outro extremo do território, testes com 3.000 militares também foram feitos nas ilhas Curilas, alvo de disputas de Moscou com Tóquio.

Encontro com presidente polonês

Do lado diplomático, o presidente Volodimir ​Zelenski fez um discurso por videoconferência neste sábado em um fórum de políticos e empresários em Doha, no Qatar. Ele acusou a Rússia de encorajar uma perigosa corrida armamentista e de "se gabar que pode destruir, com suas armas nucleares, não só determinado país, mas o planeta inteiro".

Isso pode ter sido uma resposta a novas falas do ex-presidente Dmitri Medvedev, que em entrevista neste sábado voltou a trazer à baila o assunto.

Zelenski ainda abordou a dependência energética de muitos países em relação a Moscou e pediu ao Qatar que aumente sua produção de gás natural para evitar uma "chantagem dos russos".

Neste sábado, Biden também se reuniu com o presidente polonês, Andrzej Duda, e reafirmou o "compromisso sagrado" dos EUA com o artigo 5 do tratado da Otan, que estipula que um ataque contra um membro do grupo é feito contra toda a aliança militar.

No último dia de sua visita à Polônia, o presidente americano fez um discurso afirmando que o "mundo livre" se opõe à invasão da Ucrânia pela Rússia e que há unidade entre as principais economias sobre a necessidade de deter Vladimir Putin. ​

Biden, segundo comunicado da Casa Branca, "fez comentários sobre os esforços unidos para apoiar o povo da Ucrânia, responsabilizar a Rússia pela guerra brutal e defender um futuro enraizado em princípios democráticos".

O presidente americano chegou a chamar Putin de "carniceiro" em uma visita feita a refugiados ucranianos na Polônia —o país é a principal porta de entrada dos que escapam da guerra e já recebeu mais de 2 milhões de pessoas nessa situação, a maioria mulheres e crianças.

Minutos depois de ser divulgado, o comentário recebeu críticas do porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov. "Um chefe de Estado deve manter a calma. Insultos pessoais como esse reduzem a janela de oportunidade para retomar as relações bilaterais com essa administração", disse, segundo a agência Tass.

Em sua passagem pela Europa, Biden realizou três dias de reuniões de emergência com aliados do G7, da União Europeia e da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Na Polônia desde a sexta-feira (25), ele encontrou soldados americanos que integram os batalhões da Otan.

A invasão da Ucrânia por Putin em 24 de fevereiro, que a Rússia chama de "operação especial", testou a promessa de Biden, ao assumir o cargo no ano passado, de confrontar autocratas.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Leia tudo sobre o tema e siga:

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.