Descrição de chapéu União Europeia Rússia

Guerra na Ucrânia vira outro elemento efervescente na eleição parlamentar na Hungria

Orbán, aliado de Putin, equilibra suas posições em meio ao conflito para manter cargo que ocupa desde 2010

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Milão

Sinais de alerta contra possíveis fraudes, canais de mídia estatal e privada alinhados a um único partido, ambiente interno polarizado. A eleição marcada para o dia 3 de abril na Hungria já era um caldeirão borbulhante antes da invasão da Rússia na Ucrânia.

Com a guerra, um novo ingrediente efervescente foi adicionado à reta final da campanha. Mas, segundo especialistas, o cenário arquitetado nos últimos anos pelo primeiro-ministro Viktor Orbán é robusto o suficiente para garantir suas vantagens, ao menos no curto prazo.

Líder de um país que faz parte da União Europeia e da Otan, a aliança militar no centro do debate sobre o conflito no Leste Europeu, Orbán posicionou nos últimos anos a Hungria como um país bastante amigo –o maior dentro da UE– do presidente russo, Vladimir Putin, deixando para trás sua posição antissoviética.

O premiê húngaro, Viktor Orbán, discursa durante comício em Budapeste
O premiê húngaro, Viktor Orbán, discursa durante comício em Budapeste - Marton Monus - 15.mar.22/Reuters

No começo de fevereiro, quando a escalada militar se desenhava, o premiê viajou a Moscou, em "missão de paz", como definiu. "O presidente disse que as demandas da Rússia por garantias de segurança são normais e deveriam estar na base das negociações. Concordo, temos que negociar", disse ele na ocasião.

Acrescentou que a Rússia não tinha intenções de avançar em território ucraniano, ainda que mais de 100 mil homens estivessem nas fronteiras havia meses, e afirmou que as sanções em discussão pelos seus próprios aliados estavam "destinadas ao fracasso". Três semanas depois, lá estava Orbán condenando a invasão russa e dizendo sim às sanções impostas pelo bloco europeu. "A Hungria vai apoiar as sanções. O que os líderes da União Europeia concordarem nós aceitaremos e apoiaremos", afirmou.

Nem todas, porém. No dia 11, como participante do encontro de líderes europeus em Versalhes, na França, afirmou que o bloco não vai impor restrições que atinjam o gás e o petróleo fornecidos pela Rússia, dos quais a Hungria é dependente. "A questão mais importante para nós foi resolvida de maneira favorável."

A exemplo de outros políticos europeus da direita nacionalista próximos a Putin, como a francesa Marine Le Pen e o italiano Matteo Salvini, também Orbán se viu obrigado a manobrar suas posições depois da invasão. De um lugar mais delicado, no entanto, não só devido ao cargo proeminente, mas pelas relações econômicas nutridas entre os dois países. O premiê húngaro e o presidente russo, por exemplo, negociam um projeto de energia nuclear de cerca de 12 bilhões de euros e, no ano passado, assinaram um acordo de 15 anos para o fornecimento de gás, o que ajuda a manter os preços baixos para a população de seu país.

Se publicamente Orbán procura se alinhar à UE e à Otan, dentro da Hungria a impressão é outra. Desde que foi escancarado o conflito, opositores relatam haver uma campanha de desinformação pró-Rússia sendo veiculada em canais de comunicação ligados ao partido do primeiro-ministro, o Fidesz. No início de março, manifestantes protestaram em frente à sede da TV estatal, em Budapeste.

Entre as teorias falsas que circulam, segundo o site Politico, estão a de que a CIA americana ajudou a colocar Volodimir Zelenski na Presidência da Ucrânia, de que os Estados Unidos incitaram a Rússia a invadir o vizinho e de que as armas ucranianas seriam vendidas para terroristas na França.

Em artigo publicado no site do Conselho Europeu de Relações Exteriores, o sociólogo húngaro Tibor Dessewffy afirma que a guerra na Ucrânia forçou Orbán à sua mudança retórica mais dramática até agora. Mas isso seria algo contornável. "Orbán parece um DJ que mantém seu set em movimento misturando diferentes samples e linhas de baixo, sempre operando por instinto. Claro, ele tem enorme vantagem diante de um império de mídia controlado pelo Estado, o que lhe permite filtrar sons dissonantes", afirmou.

Desde que chegou ao poder, em 2010, pelo Fidesz, de ultradireita, Orbán promoveu uma série de mudanças nas instituições húngaras que o fizeram acumular poderes e desequilibrar o jogo a seu favor.

Fez trocas no Judiciário, na Constituição, na lei eleitoral e obteve o controle da imprensa. Com discurso nacionalista, anti-imigração e anti-LGBTQIA+, conta com apoio majoritariamente da população mais velha, mais pobre e moradora das áreas rurais. Na votação de 3 de abril, o primeiro-ministro terá como concorrente, pela primeira vez, uma frente única de partidos. Chamada de Unidos pela Hungria, reúne sete siglas e movimentos, de socialistas até o principal adversário de Orbán em 2018, o partido Jobbik, de direita. O nome que encabeça a coalizão é o de Péter Márki-Zay, prefeito de uma cidade no sudeste do país.

Segundo a pesquisa mais recente, do instituto Medián, no fim de fevereiro, Orbán tinha 39% das intenções de voto, à frente da chapa única, com 32%. No entanto, 20% se diziam ainda indecisos.

"Com as reformas que ele implementou, ficou muito difícil para a oposição", diz à Folha Simona Guerra, professora de questões contemporâneas na política da Universidade de Surrey, no Reino Unido, na qual pesquisa democracia e euroceticismo. "Ele fez tudo o que era possível para tornar impossível a oposição voltar ao poder. O que é muito parecido com o que Putin tem feito na Rússia."

No sistema eleitoral, alterações no número e no perímetro de distritos resultaram em uma distorção que permite o controle do Parlamento, com 199 cadeiras, mesmo a uma coalizão que obtenha percentual menor do total de votos. Mais recentemente, o governo mudou outra lei para permitir que um eleitor se registre em qualquer endereço com acesso a correio, o que poderia abrir brechas a votações duplicadas.

E, para a próxima votação, também pode desequilibrar a disputa a realização do referendo sobre questões LGBT no mesmo dia da eleição parlamentar. Uma das perguntas é "você apoia a exposição irrestrita de menores de idade a conteúdo de mídia sexualmente explícito que pode afetar seu desenvolvimento?".

Por isso, a OSCE (Organização para Segurança e Cooperação na Europa), por meio do seu departamento de instituições democráticas e direitos humanos, pediu que a eleição fosse monitorada por ao menos 200 observadores independentes. Em relatório divulgado em fevereiro, listou os riscos da eleição, como "possível intimidação e compra de votos e o impacto da realização do referendo simultâneo".

Se o ambiente já era desfavorável para oposição, a guerra na Ucrânia, afirma a professora, também pode ajudar Orbán. O lugar de líder da UE o habilita a fazer o discurso de que está preparado para atuar em tempos de crise. "Ele está repetindo que defende os interesses dos húngaros e a economia dos cidadãos."

Para o instituto Political Capital, em Budapeste, o conflito pode interferir na campanha eleitoral, mas não a ponto de desequilibrar a disputa entre governo e oposição. "Por enquanto, o partido no poder continua a ser o mais provável a ganhar as eleições. A guerra, até agora, não piorou as chances eleitorais do governo e pode até ter um efeito benéfico para o Fidesz", afirmou em relatório compartilhado no dia 10.

Os analistas avaliam que a "bolha de opinião" criada pelo partido do governo é tão eficiente que as mensagens da oposição não conseguem penetrar. A situação, no entanto, pode mudar a longo prazo.

"As ações extraordinariamente fortes dos Estados democráticos ocidentais podem pôr fim aos sonhos de construção de um império de Putin e também às ideias de Orbán sobre uma nova ordem mundial."

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