Descrição de chapéu Guerra da Ucrânia

Neutralidade da África do Sul na guerra na Ucrânia passa por memória de apoio soviético

Comunistas foram os únicos a sustentar partido de Mandela quando ainda era considerado uma guerrilha

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Belo Horizonte

Na semana passada, quando a Assembleia-Geral da ONU aprovou uma resolução que condenava a invasão russa na Ucrânia, a África do Sul se absteve na votação, assim como já havia feito no início de março.

Uma das maiores democracias do continente africano e com o passado atrelado à luta pelos direitos humanos, o país ainda tentou aprovar, sem êxito, um texto que não tratava a Rússia como agressora.

A posição sul-africana pode ser interpretada, primeiramente, a partir da participação da África do Sul no Brics, grupo de economias emergentes, que ainda conta com Brasil, Índia, China e a própria Rússia. Com exceção do Brasil, os membros do grupo têm buscado adotar um discurso de neutralidade no confronto —China e Índia também se abstiveram nas votações na ONU.

Na prática, porém, segundo analistas ouvidos pela Folha, a explicação é histórica: predomina na elite política sul-africana a memória da segunda metade do século 20, quando a União Soviética foi o único país a fornecer armas e a treinar o Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês), partido no poder desde 1994, mas que à época era considerado uma guerrilha.

Visita do então presidente da África do Sul, Nelson Mandela, ao então presidente russo, Boris Yeltsin, em Moscou
Visita do então presidente da África do Sul, Nelson Mandela, ao então presidente russo, Boris Ieltsin, em Moscou - Itar-Tass - 29.abr.99/Reuters

"Os soviéticos forneciam AK-47, granadas, bombas e outros equipamentos militares. De 1960 a 1990 [período em que o ANC era banido], também havia rumores de que a CIA [agência de inteligência dos EUA] deu, em 1962, informações ao governo sul-africano para prender o Nelson Mandela. Essas memórias persistem no governo atual", afirma Keith Gottschalk, cientista político pela Universidade do Cabo Ocidental e membro do ANC.

O mesmo sentimento, segundo Gottschalk, predomina na política de Angola, Namíbia e Moçambique, países que são liderados por partidos que no século 20 também eram apoiados pelos soviéticos. Todos se abstiveram nas duas votações da Assembleia-Geral.

Ao menos na África do Sul, a nostalgia da relação entre o ANC e a URSS, contudo, nem sempre reinou pragmaticamente no país. A Rússia, principal herdeira do poder soviético, tem pouca representatividade nas importações e exportações do país africano. De acordo com o governo sul-africano, seus maiores parceiros econômicos são a China, os Estados Unidos e a União Europeia.

A Rússia, por sua vez, conforme destacou o analista econômico Mandla Lionel Isaacs, membro da Harvard Kennedy School of Government, em um artigo publicado no início de março, não aparece nem entre os 30 principais destinos das exportações sul-africanas.

"Essa relação [entre África do Sul e Rússia] tem sido dúbia. Após o fim do apartheid e o início da democracia, em 1994, o governo desenvolveu uma boa atmosfera com membros da Otan e rejeitou uma oferta da Rússia de equipamentos militares pela metade do preço. Essa foi uma decisão interessante", afirma Gottschalk, ao relembrar a postura do então presidente sul-africano, Nelson Mandela.

O nome do ativista histórico contra o apartheid também é essencial para entender disputas de narrativas dentro do próprio ANC. Segundo Philippe-Joseph Salazar, filósofo francês e professor de direito da Universidade da Cidade do Cabo, há três grupos hoje na legenda, em relação à guerra na Ucrânia: 1) os que defendem que a África do Sul deve adotar uma postura moral e de condenação às violações aos direitos humanos; 2) os que defendem a Rússia, apegados à relação histórica entre as partes; 3) os que defendem que o país não tem nada a ver com o conflito.

É justamente no terceiro grupo que, teoricamente, o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, se encaixa, ainda que tenha se apresentado como possível moderador entre as partes. Declarações recentes dele, porém, têm seguido uma direção distinta. No último dia 17, em discurso no Parlamento, ele culpou a Otan pela guerra na Ucrânia.

"A guerra poderia ter sido evitada se a Otan tivesse atendido as advertências de seus próprios líderes e funcionários ao longo dos anos de que sua expansão para o leste levaria a uma maior, não menor, instabilidade na região", afirmou Ramaphosa, ponderando, por outro lado, que a África do Sul "não pode tolerar o uso da força e a violação do direito internacional".

Dias antes, Ramaphosa havia publicado uma série de tuítes em que agradecia ao presidente russo, Vladimir Putin, por conversar com ele por telefone sobre o conflito.

Na mesma linha de repúdio à aliança militar do Ocidente, a fundação criada pelo ex-presidente sul-africano Jacob Zuma —que foi preso por corrupção— publicou um comunicado, no início de março, dizendo que a Rússia deveria ser aplaudida por resistir às pressões das potências ocidentais e considerando "justificáveis" as ações militares do Kremlin.

No texto, a fundação cita o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), dando a entender que foram eventos conduzidos sob os interesses do Ocidente.

De acordo com Salazar, o mercado financeiro do país tem embarcado na neutralidade e "sido cuidadoso nas relações com Moscou". Um dos motivos seriam as sanções econômicas aplicadas ao país de Putin, que podem afetar, consequentemente, a economia da África do Sul, em particular as importações de fertilizantes —11,3% do produto vem da Rússia.

Em meio à postura do país diante do conflito, um ponto de incoerência é claro para Keith Gottschalk: a África do Sul não tem forças armadas muito modernas, se comparadas com as de potências militares. "Nesse sentido, em caso de ser invadida por um grande país, a única proteção da África do Sul seria a carta da ONU que diz que invadir outro país é errado", ressalta.

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do afirmado em versão anterior do texto, o cientista político Keith Gottschalk é professor da Universidade do Cabo Ocidental, não da Universidade da Cidade do Cabo.
 

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