Descrição de chapéu Guerra na Ucrânia Rússia

Ucrânia avança para retomar regiões ao redor de Kiev e tentar forçar recuo da Rússia

Relatório britânico fala em forte mudança no ímpeto da guerra, enquanto Moscou diz que diz que 'cumpriu primeira fase'

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Lviv (Ucrânia) | Reuters

As tropas da Ucrânia estão recapturando cidades a leste de Kiev, e as da Rússia, que tentavam tomar a capital, recuando. As informações constam em um relatório dos serviços de inteligência do Reino Unido divulgado nesta sexta-feira (25) e são uma das indicações mais fortes de uma mudança no ímpeto da guerra em curso.

Durante 30 dias de conflito até aqui, as tropas russas não conseguiram capturar as grandes cidades do país. A ofensiva que o Ocidente dizia acreditar ter como objetivo derrubar o presidente Volodimir Zelenski foi interrompida em Kiev, e a Rússia está bombardeando e sitiando alvos estratégicos como Mariupol, que ficou quase toda destruída depois de três semanas de ataques.

Moradores de Mariupol sentam em praça próxima a prédios destruídos por bombardeios - Alexander Ermochenko - 25.mar.22/Reuters

A leitura do cenário militar feita pelo Kremlin, porém, é diferente. O Ministério da Defesa russo disse que "cumpriu quase toda a primeira fase da guerra" e que, agora, concentrará esforços na "libertação" do Donbass. De acordo com a pasta, os separatistas apoiados por Moscou no leste da Ucrânia já teriam tomado o controle de 93% do território de Lugansk e de 54% do de Donetsk —as duas autoproclamadas repúblicas foram reconhecidas por Putin dias antes da guerra.

Segundo o Ministério da Defesa da Ucrânia, um corredor ligando Mariupol até a Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, e os territórios separatistas no leste, foi parcialmente criado por tropas russas nesta sexta. Os detalhes ainda não estão claros, mas, caso confirmado, o movimento representaria uma importante conquista para Moscou.

Enquanto autoridades seguem tentando esvaziar a cidade portuária, a prefeitura de Mariupol afirmou que o número de mortos em um teatro bombardeado no último dia 16 pode chegar a 300. A informação foi dada com base em comentários de testemunhas do incidente. De acordo com as Nações Unidas, há relatos de que covas coletivas já começam a ser escavadas pela cidade —uma delas com pelo menos 200 corpos.

Ainda segundo o Reino Unido, os contra-ataques ucranianos e o aparente recuo dos russos têm permitido que a Ucrânia recupere cidades e posições a leste da capital. ​Volodimir Borisenko, prefeito de Borispol, onde fica o principal aeroporto de Kiev, disse que mais de 20 mil civis deixaram a área em resposta a um pedido de retirada para que as tropas ucranianas pudessem forçar ainda mais o recuo dos russos.

Na quinta (24), de acordo com Borisenko, as forças da Ucrânia retomaram o controle de uma região entre Borispol e Brovari e avançaram, mas pararam para evitar o perigo que a operação representaria aos civis.

Em outra frente, a noroeste de Kiev, os embates ocorrem em meio a ruínas deixadas pelos combates das últimas semanas. Em Irpin, Butcha ​e Hostomel, tropas ucranianas tentam cercar as russas.

A nordeste da capital, a missão é frear o avanço russo a partir de Tchernihiv, que está cercada pelas forças inimigas. "A cidade foi condicionalmente e operacionalmente sitiada", disse Viacheslav Tchaus, governador local, acrescentando que a área estava sob ataques de artilharia e de aviões de guerra.

Horas depois, a vice-primeira-ministra da Ucrânia, Irina Vereschuk, disse que espera chegar a um acordo com Moscou para criar um corredor humanitário em Tchernihiv já neste sábado (26). A negociação esbarra, porém, em condições que ela descreveu como desafiadoras, referindo-se à proposta russa de retirar os civis para territórios sob domínio de Moscou.

Ataques foram registrados também em Vinnitsia, no centro-oeste, onde o Ministério da Defesa informou que tropas russas haviam disparado seis mísseis de cruzeiro contra o comando da Força Aérea ucraniana. Ainda segundo o órgão, alguns dos mísseis foram interceptados, mas os demais "atingiram vários prédios, causando danos significativos à infraestrutura" —não há relatos de vítimas.

Em Kharkiv, segunda maior cidade da Ucrânia, alvo de bombardeios desde os primeiros dias da guerra, as autoridades disseram que ao menos quatro pessoas morreram após um ataque a um centro de distribuição de ajuda humanitária. A Otan (aliança militar ocidental) até agora descarta uma intervenção direta por terra e o pedido reiterado por Zelenski para a criação de uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia.

A aliança, porém, apoiou Kiev por meio do envio de centenas de armas antitanque e antiaéreas que deram algum fôlego à resistência ucraniana e impediram a Rússia de assumir o controle do espaço aéreo.

Enquanto isso, o saldo de vítimas civis da guerra chegou a 1.081, de acordo com o escritório de direitos humanos das Nações Unidas, que, de antemão, reconhece a subnotificação da cifra. Como se tornou difícil acessar cidades sob intenso bombardeio, caso de Mariupol e Sumi, acredita-se que os números sejam consideravelmente maiores. Ao menos 1.707 civis também ficaram feridos desde o início do conflito.

Cresce, ainda, o número de refugiados da guerra. Mais de 3,7 milhões de pessoas cruzaram as fronteiras da Ucrânia para países vizinhos tentando escapar do conflito. A Polônia segue como o principal destino —já recebeu 2,2 milhões de pessoas—, e foi para lá que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, viajou nesta sexta.

O americano, que está na Europa para uma série de reuniões que criaram expectativas altas sobre o rumo da guerra, se encontrou com membros da 82ª Divisão Aerotransportada do Exército dos EUA, baseada na área do aeroporto de Rzeszow como parte da proteção da Otan no flanco leste da aliança, nas portas da Ucrânia.

Ali, Biden mandou recados para a Rússia. "As democracias e os nossos valores vão prevalecer ou serão as autocracias?", questionou aos militares, em referência ao regime de Putin. Biden esteve ainda com o presidente polonês, Andrzej Duda.

​Antes de embarcar para a Polônia, em Bruxelas o americano se reuniu com outros líderes do Ocidente. "Vamos demorar algum tempo para ajustar as redes de suprimento de gás e a infraestrutura que nós construímos na última década", afirmou antes da viagem, em referência à dependência de muitos países europeus do gás e do petróleo russos.

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