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Boric defende que responsabilidade fiscal também seja uma política de esquerda

Presidente do Chile busca se distanciar de pressupostos associados a seu posicionamento

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São Paulo

O presidente do Chile, Gabriel Boric, defendeu, às vésperas de sua visita à Argentina, que políticas de responsabilidade fiscal sejam dissociadas do espectro político de direita.

Três semanas após assumir a Presidência, Boric concedeu uma entrevista ao jornal argentino Clarín, publicada neste domingo (3), em que foi questionado a respeito de declarações dadas previamente à rede britânica BBC. Na ocasião, o chileno disse que "não pode haver atalhos irresponsáveis na economia" e defendeu uma política de equilíbrios fiscais —visão, em geral, mais associada à direita.

Os repórteres do Clarín afirmam na entrevista que uma visão oposta a essa causou um desastre na economia argentina e perguntam como Boric pretende lidar com a influência de seus aliados do Partido Comunista nesse sentido. "Na esquerda, temos que parar de pensar que responsabilidade fiscal é uma questão de direita", respondeu o presidente. "Deve ser uma política de Estado porque é também o que garante que se possa realizar os processos de reforma."

O presidente do Chile, Gabriel Boric, em conversa com o argentino Alberto Fernández em visita a Buenos Aires - Tomas Cuesta - 4.abr.22/AFP

Para sustentar sua posição, Boric citou Mario Marcel, nomeado para a pasta de Finanças. "Não o designei para impedir as reformas, mas para torná-las possíveis e sustentáveis ao longo do tempo."

A escolha de Marcel, segundo analistas, foi uma medida para acalmar investidores estrangeiros inseguros com as promessas de aumentar o cobertor social e a participação do Estado na economia chilena.

Na entrevista, Boric atribuiu a crise econômica de seu país à pandemia e à guerra na Ucrânia. Quando questionado sobre os índices de inflação, o presidente reafirmou sua posição de responsabilidade fiscal explicando que isso não significa aderir à lógica da austeridade e do corte de direitos sociais.

"Ter uma relação entre o que produzimos e uma dívida que seja sustentável não é uma política de direita, é uma política de Estado", argumentou. "E eu, como pessoa de esquerda, a reivindico e vou defendê-la."

Em outro trecho da entrevista, os jornalistas observaram que o presidente chileno se diferenciou de outras figuras de seu espectro político ao condenar as ditaduras de Cuba, Venezuela e Nicarágua; Boric respondeu buscando se dissociar mais uma vez de pressupostos associados à sua posição.

"Os direitos humanos devem ser respeitados e devem ser afirmados e promovidos independentemente da cor do governo que os viola", disse, citando, além dos regimes mencionados pelos repórteres, Brasil, Rússia, Ucrânia, Iêmen e Israel. "Acredito que devemos abandonar a política partidária de só condenar aqueles com quem temos uma adversidade ideológica."

Boric chegou à Argentina nesta segunda-feira (4) para a visita de dois dias que é sua primeira viagem internacional como presidente do Chile.

Em entrevista coletiva ao lado de Alberto Fernández, seu homólogo em Buenos Aires, foi questionado sobre temas que envolvem os dois países —como o conflito na região sul do Chile, conhecida como Araucanía pelos indígenas mapuches, que reivindicam a soberania do território—, mas também novamente sobre sua posição em relação aos regimes autoritários da América Latina.

"Existe entre os meios de comunicação certa obsessão em citar apenas esses três países [Cuba, Venezuela e Nicarágua] como ditaduras condenáveis. E é certo que são e as condeno. Mas creio que os direitos humanos devem ser vistos de maneira mais ampla, e a mídia tem papel nisso", afirmou.

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