Descrição de chapéu The New York Times Rússia

'Doador sem dinheiro' para a ultradireita expõe rede de espiões russos na Eslováquia

Para autoridades, caso é 'ponta de iceberg' de enviados de Moscou para atuar no país europeu

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Andrew Higgins
Kosice (Eslováquia) | The New York Times

Ele morava com a mãe doente e nunca teve um emprego regular. Não tinha uma fonte de renda definida e, conforme seu tio, até se inscreveu em benefícios sociais como cuidador, para receber ajuda do Estado.

Mas Bohus Garbar, com pouca sorte e pouco mais de 50 anos, ainda conseguiu doar milhares de euros para partidos políticos de ultradireita na Eslováquia, amigos do Kremlin. Ele também trabalhou de graça como colaborador de um site antiestablishment conhecido por reciclar propaganda russa.

Familiares e amigos estão confusos.

Pedestre embaixo de ponte na Bratislava, capital da Eslováquia, onde investigação expôs rede de operações clandestinas russas
Pedestre embaixo de ponte na Bratislava, capital da Eslováquia, onde investigação expôs rede de operações clandestinas russas - Brendan Hoffman/The New York Times

"Ele definitivamente não estava numa situação em que pudesse apoiar qualquer partido", diz o tio, Bohuslav Garbar, programador de computador aposentado em Kosice, a 80 quilômetros da fronteira da Eslováquia com a Ucrânia.

Um vídeo de vigilância do serviço de segurança eslovaco, divulgado no início de março, fornece ao menos o início de uma explicação: mostra o sobrinho recebendo instruções e duas notas de € 500 (cerca de R$ 2.500), uma pequena parte do que as autoridades dizem ter sido dezenas de milhares em pagamentos, de um oficial da inteligência militar russo disfarçado de diplomata, na embaixada de Moscou em Bratislava.

"Eu disse a Moscou que você é um menino muito bom", o espião russo, Serguei Solomasov, pode ser ouvido dizendo a seu recruta eslovaco antes de explicar que a Rússia gostaria que Bohus Garbar atuasse como um "caçador" de pessoas influentes dispostas a cooperar.

Durante anos, agências de inteligência europeias deram o alarme sobre atividades clandestinas dos espiões russos, enquanto olhavam com desconfiança aqueles que torcem pelo país e seu presidente, Vladimir Putin. Moscou habitualmente descartou isso como "russofobia" paranoica, sua resposta geral a quase todas as críticas estrangeiras.

A invasão da Ucrânia, acompanhada por uma enxurrada de mentiras, no entanto, justificou as mais sombrias suspeitas ocidentais e acelerou os esforços para erradicar redes ocultas de espiões e seus recrutas.

A Eslováquia, pequena nação eslava com governo fortemente pró-ocidental, mas também grandes reservas de simpatia genuína pela Rússia, mostra no microcosmo como o Kremlin procurou ganhar influência e semear discórdia na antiga margem oriental comunista da Europa, alavancando espiões, ajudantes pagos, nacionalistas de ultradireita e meios de comunicação que difundem desinformação.

"Sempre suspeitamos que isso estivesse acontecendo, mas agora temos uma arma fumegante", diz Daniel Milo, diretor de uma unidade do Ministério do Interior da Eslováquia responsável por monitorar e combater a desinformação. "Esse é um exemplo claro de como os russos operam." Garbar, acrescenta, "é só a ponta do iceberg. Ainda não sabemos quantos outros estão correndo por aí".

O vídeo do encontro foi gravado no ano passado pela agência de inteligência da Eslováquia como parte de uma longa investigação. Solomasov foi expulso no início do mês passado, entre os mais de 30 diplomatas russos recém-enviados de volta de Bratislava, bem como muitos de outras capitais europeias.

Preso e acusado de espionagem e suborno, Garbar foi liberado enquanto aguarda julgamento. O ex-vice-reitor da academia militar também foi acusado de trair seu país à Rússia por dinheiro. Autoridades dizem que ambos confessaram e agora estão cooperando. "Eles estão falando, falando e falando, e isso deve deixar a rede russa na Eslováquia muito nervosa", disse o ministro da Defesa Jaroslav Nad.

Moscou não comentou a ligação de Garbar com a inteligência russa, mas chamou a expulsão de Solomasov de infundada.

Embora um facilitador improvável, Garbar provou ser um canal valioso que doou grandes somas para partidos nacionalistas atraídos por Moscou. Um dos beneficiários foi o ultranacionalista Marian Kotleba, que recebeu uma pena de seis meses de prisão (suspensa neste mês) e foi destituído de seu assento no Parlamento por usar símbolos de temática nazista.

Depois de vencer a eleição como governador regional em 2013, Kotleba colocou uma faixa do lado de fora de seu escritório: "Ianques, vão para casa! PAREM A OTAN!"

Registros mostram que Garbar doou € 10 mil (cerca de R$ 50 mil) ao partido xenófobo de Kotleba antes das eleições de 2016, tornando-se seu segundo maior doador. Os slogans de campanha incluíam "Pela fraternidade eslava, contra uma guerra com a Rússia!". Em 2018, Garbar doou mais € 4.500 (cerca de R$ 22,5 mil) para um dos parceiros pró-russos de Kotleba.

Os investigadores também examinaram o trabalho de Garbar como colaborador e tradutor não remunerado do Hlavne Spravy (notícias principais). As autoridades eslovacas fecharam o site, que se denomina um "diário conservador", no início de março por "atividades prejudiciais" não especificadas, logo após o início da Guerra da Ucrânia.

Ele ainda opera, de forma reduzida, no Facebook —que Victor Breiner, assessor do ministro da Defesa eslovaco, descreveu como "a principal arena atual para a propaganda do Kremlin".

Nas semanas que antecederam a guerra, o Hlavne Spravy muitas vezes repetiu os pontos de discussão do Kremlin, zombando das advertências dos EUA sobre um ataque iminente como "histeria sem fim" e culpando a Otan pelo aumento das tensões.

Robert Sopko, fundador e editor do site, que administra em seu apartamento em Kosice, desprezou o vídeo do serviço de segurança —publicado por um meio de comunicação rival e liberal, Dennik N— como uma "paródia de espionagem" e disse que não sabia do trabalho de seu ajudante não remunerado para a inteligência russa. "Ficamos todos muito surpresos com isso, todos que o conhecem."

Sopko argumenta que o Hlavne Spravy não era excessivamente pró-russo, embora tenha admitido que "talvez tenhamos torcido um pouco mais pela Rússia" para combater o que chama de "propaganda americana". Ele também reconhece que por quatro anos teve na equipe Ievguêni Palcev, que tem vínculos com a mídia estatal de Moscou e escreveu artigos ferozmente pró-Kremlin sob um pseudônimo.

Ele diz que conhecia Garbar há 30 anos e insiste que seu velho amigo só escrevia artigos ocasionais sobre a China. As autoridades afirmam o contrário. "Ele estava muito envolvido em escrever sobre muitas coisas além da China" e na divulgação de "narrativas clássicas de propaganda da Rússia", disse o ministro Nad.

Miroslava Sawiris, especialista em desinformação e membro do Conselho de Segurança do governo eslovaco, afirma que o Hlavne Spravy era "bastante sofisticado e não apenas vomitava bobagens". Ela diz que as matérias abertamente pró-Kremlin representavam cerca de 20% do conteúdo, mas conseguiram alcance e influência incomuns devido à popularidade do site.

Como muitos outros meios amigos da Rússia, o Hlavne Spravy foi desequilibrado pelo ataque de Putin à Ucrânia e se esforçou durante vários dias para explicá-lo. Sopko diz que ele e a equipe decidiram que a Rússia deveria ser criticada, assim como "criticávamos as guerras imperialistas dos EUA", mas que então o site foi fechado.

No vídeo de seu encontro com o espião russo, Garbar explica que encontrar pessoas úteis para trabalhar para Moscou pode ser difícil, porque aqueles que apoiam a Rússia tendem a ser tipos marginais, sem influência real ou acesso à informação. "Há muitas pessoas pró-Rússia irrelevantes", alertou Garbar a Solomasov. "Elas não lhe dariam nada."

O tio de Garbar diz que estava perplexo com o fato de o sobrinho, que sempre foi fascinado pela cultura americana, particularmente bandas como o Metallica, envolver-se com a Rússia. "Toda essa coisa é muito estranha."

Sawiris, a especialista do governo em desinformação, afirma que não sabe o que aconteceu com Garbar, mas teme que "não haja limite para o impacto que a propaganda pode ter na mente humana". Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, ela acrescenta, "a cortina caiu e muitas coisas se tornaram óbvias".

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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