Descrição de chapéu Guerra na Ucrânia Rússia

Rússia volta a atacar entorno de Kiev duas semanas após retirar tropas da região

Kremlin diz ter atingido fábrica de mísseis após naufrágio, ameaça novos bombardeios e faz alerta aos EUA sobre envio de armas

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Kiev | Reuters e AFP

O governo russo voltou a atacar a área da capital ucraniana, ao atingir nesta sexta-feira (15) uma fábrica de mísseis nos arredores de Kiev. Trata-se da primeira ação militar desde a retirada de tropas russas da região, no fim de março, quando Moscou afirmou que concentraria forças no sul e no leste do país.

Alarmes antiaéreos soaram diversas vezes ao longo da madrugada, segundo o governador da região de Kiev, Olexandr Pavliuk. O ataque teve como alvo um centro de fabricação e reparo de mísseis antinavios, de acordo com o Kremlin, no que foi entendido como uma retaliação ao naufrágio do navio de guerra Moskva, a mais importante embarcação militar russa no mar Negro, na quinta-feira (14).

Complexo militar-industrial de Vizar, nos arredores de Kiev, atacado nesta sexta-feira (15) - Fadel Senna/AFP

"O número e a escala de ataques com mísseis a alvos em Kiev aumentarão em resposta a quaisquer ataques terroristas ou atos de sabotagem em território russo cometidos pelo regime nacionalista de Kiev", afirmou o Ministério da Defesa de Moscou em um comunicado.

O Kremlin diz que dois helicópteros ucranianos equipados com armas pesadas entraram em seu território e dispararam pelo menos seis tiros em áreas residenciais na cidade de Klimovo, na província de Briansk. Sete pessoas teriam ficado feridas, incluindo um bebê. Para Kiev, no entanto, o serviço secreto russo promove ataques terroristas na região para alimentar o conflito.

O ataque à fábrica de mísseis Neptune, nesta sexta, contradiz o discurso de Moscou, uma vez que o governo de Vladimir Putin não reconhece que o navio Moskva foi afundado após ser atingido por mísseis ucranianos, como afirma Kiev. Para Moscou, o naufrágio ocorreu após uma explosão de munição armazenada na nau.

A inteligência dos Estados Unidos corroborou nesta sexta a alegação ucraniana. Falando à imprensa sob condição de anonimato, autoridades militares americanas disseram acreditar que dois mísseis Neptune foram os responsáveis por destruir a embarcação e que o incidente causou baixas militares —cifras não foram mencionadas.

O Moskva (Moscou) era o maior navio russo no mar Negro, equipado com mísseis guiados para atacar a costa e derrubar aviões, além de radar para fornecer cobertura de defesa aérea e capacidade para mais de 500 militares. A embarcação ganhou notoriedade no início da guerra pelo ataque à ilha da Cobra, em que 19 marinheiros ucranianos foram capturados e depois trocados por detentos russos.

Além do baque moral, sem seu carro-chefe a capacidade de os russos ameaçarem a Ucrânia pelo mar fica prejudicada. Nenhum navio de guerra desse tamanho havia sido afundado em conflitos desde o cruzador argentino General Belgrano, torpedeado pelos britânicos na guerra das Malvinas, em 1982.

Havia duas semanas a capital não ouvia explosões tão fortes quanto nesta sexta-feira. Kirill Kirilo, 38, trabalhador de uma oficina de automóveis, disse ter visto três explosões atingirem um prédio industrial do outro lado da rua, causando um incêndio que depois foi contido pelos bombeiros.

"O prédio estava pegando fogo, tive que me esconder atrás do meu carro", disse, mostrando pedaços de vidro e metal que voaram do edifício. O Ministério da Defesa russo também disse ter capturado a companhia siderúrgica Iliich, em Mariupol, uma das últimas áreas industriais que se mantêm na cidade sitiada no leste do país, que viveu os combates mais pesados ​​da guerra e a pior crise humanitária.

Já a Ucrânia disse que conseguiu fazer recuar as ofensivas russas nas cidades de Popasna e Rubijne, ao norte de Mariupol. Os relatos, porém, não puderam ser confirmados de forma independente.

Fora de Kiev, Moscou diz que o objetivo é capturar o Donbass, região parcialmente controlada por separatistas pró-Rússia. Segundo a Ucrânia, combates em Donetsk mataram três pessoas e feriram sete nesta sexta. Em Lugansk, na mesma região, 24 bombardeios deixaram dois mortos e dez feridos.

Os russos enviaram uma nova coluna com milhares de soldados para o leste, no que Kiev prevê ser o próximo grande ataque nesta guerra. Moscou diz que espera tomar toda Mariupol em breve.

A Rússia também afirmou ter matado 30 mercenários poloneses em um bombardeio no nordeste da Ucrânia, em um momento de tensão crescente entre Moscou e Varsóvia. De acordo com o governo ucraniano, os russos atacaram um ônibus que retirava civis da região de Kharkiv, no leste do país, e mataram sete pessoas, além de ferir outras 24. Mais ao sul, na região de Zaporíjia, uma pessoa foi morta e cinco ficaram feridas no bombardeio russo da cidade de Vasilivka.

Ainda nesta sexta, reportagem do canal americano CNN revelou que o governo russo protestou formalmente contra o envio de armas por parte dos EUA para a Ucrânia e alertou o Departamento de Estado americano que a medida pode ter "consequências imprevisíveis".

Na quarta (13), o presidente Joe Biden anunciou o envio de US$ 800 milhões em ajuda militar ao país, incluindo mais de 300 drones, 11 helicópteros e sistemas de artilharia. De acordo com fontes ouvidas pelo canal americano, o protesto russo já era esperado, mas sinaliza que a Rússia pode tomar uma postura mais agressiva contra os EUA e a Otan (aliança militar ocidental).

No começo de sábado (16) pelo horário local, ainda noite de sexta em Brasília, o presidente Volodimir Zelenski exaltou o trabalho de suas Forças Armadas, mas admitiu que a situação no sul e no leste "ainda é muito difícil".

"O sucesso de nossos militares no campo de batalha é realmente significativo, historicamente significativo. Mas ainda não foi suficiente para limpar nossa terra", disse, pedindo novamente aos aliados pelo envio de armas. "A quantidade de apoio à Ucrânia afeta diretamente a restauração da paz. Literalmente define quantos mais ucranianos os ocupantes conseguirão matar."

À rede CNN, Zelenski afirmou que de 2.500 a 3.000 soldados ucranianos já morreram em 51 dias de guerra e que 10 mil ficaram feridos.

Informe atualizado das Nações Unidas confirma que pelo menos 1.982 civis morreram desde o início da guerra, cifra que engloba ao menos 162 crianças. Outras 2.651 pessoas teriam ficado feridas. Mas os números, reconhece a própria organização, são subnotificados devido à dificuldade para acessar áreas sitiadas, como Mariupol.

Ainda nesta sexta, atingiu-se a marca de 5 milhões de refugiados da guerra, segundo monitoramento feito pelo Acnur (Alto Comissariado da ONU para Refugiados). A cifra é majoritariamente composta por cidadãos ucranianos, mas também há pouco mais de 215 mil pessoas de outras nacionalidades que viviam na Ucrânia e tiveram de emigrar.

De acordo com a procuradoria ucraniana, cerca de 2.860 pessoas puderam ser retiradas de zonas de risco por meio de corredores humanitários ao longo do dia. Nos arredores de Kiev, passou de 900 o número de cadáveres encontrados em cidades da região metropolitana, como Butcha, Irpin e Hostomel, desde o recuo russo, há duas semanas, informou o governo regional à Associated Press.

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