Descrição de chapéu The New York Times

Alguma escola é realmente segura nos EUA?, questionam pais após massacre no Texas

Instituições tomam precauções extras após ataque a tiros, entre as quais proibir a entrada de mochilas

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Kimiko de Freytas-Tamura Chelsia Rose Marcius Lola Fadulu
The New York Times

Luz Belliard sentou-se na beirada da cama em Manhattan, na noite de terça-feira (24), no quarto que divide com sua neta de 9 anos, Victoria, e pensou no que iria dizer à menina. Victoria, aluna da terceira série, estava sentada em sua própria cama, coberta de bichos de pelúcia; ela já tinha visto no noticiário da noite que crianças de sua idade foram mortas em um tiroteio numa escola do Texas.

Agora, Belliard tinha que avaliar o que diria a Victoria em sua caminhada para a escola na manhã seguinte: "Obedeça a seus professores. Deite-se no chão. Lembre-se dos exercícios que você faz na aula".

Luz Belliard (à esq.) ao lado da neta Victoria Alvarez (à dir.) e de um primo de sua filha, em Nova York, nos EUA
Luz Belliard (à esq.) ao lado da neta Victoria Alvarez (à dir.) e de um primo de sua filha, em Nova York, nos EUA - Gregg Vigliotti/The New York Times

"Ela é jovem, mas entende –às vezes demais", disse Belliard na quarta (25), diante da escola de Victoria, a Escola Pública 4 Duke Ellington, em Washington Heights, em Nova York. "Levar seu filho para a escola e depois voltar para vê-lo morto, isso não é justo. Não deveria acontecer."

Victoria estava parada ao lado da avó. "É triste que muitas crianças tenham morrido assim. Essas crianças tinham uma grande vida pela frente", disse a menina. "Quando ouço esse tipo de coisa, fico assustada."

Em Nova York e em todo o país na quarta-feira, crianças, pais e cuidadores enfrentaram as consequências da chacina em Uvalde, no Texas, onde um rapaz de 18 anos matou 19 crianças e duas professoras antes de ser morto a tiros pelas autoridades.

Eles abraçaram os filhos com um pouco mais de força e demoraram um pouco mais para deixá-los. Podiam imaginar com facilidade um atirador invadindo a classe dos próprios filhos. E mais uma vez se depararam com uma pergunta assombrosa: existe alguma escola nos EUA em que as crianças estejam realmente em segurança?

Algumas escolas do país tomaram precauções extras após a chacina. Escolas no Texas e na Flórida proibiram a entrada de mochilas em edifícios na quarta-feira. Autoridades de alguns estados, como Geórgia e Virgínia, enviaram policiais a mais para as escolas como precaução.

Na cidade de Nova York, que abriga o maior sistema escolar do país, as autoridades estão estudando maneiras de reforçar a segurança, incluindo trancar as portas das escolas depois que as crianças entrarem. O tiroteio deu um tom sombrio aos últimos dias e semanas do ano letivo.

"Às vezes não sei o que dizer em público", escreveu Deborah Gist, superintendente de escolas em Tulsa, em Oklahoma, num post no Facebook. "Sinto uma enorme responsabilidade de usar as palavras certas. Mas como posso expressar o horror, a indignação, a frustração, a decepção, a dor e o medo causados por um acontecimento como o tiroteio em Uvalde? É o pior pesadelo de um pai ou mãe, de um professor, de um diretor e de um superintendente."

Em Buffalo, em Nova York, não muito longe de onde um atirador racista matou dez pessoas negras num supermercado há menos de duas semanas, o tiroteio no Texas multiplicou o medo. Patricia Davis fez uma pausa antes de deixar seu filho de 13 anos na escola na manhã de quarta.

Tenha cuidado, disse ela. Se alguma coisa acontecer, "jogue-se no chão".

Enquanto se afastava, ela não pôde deixar de se perguntar: "Vou ver meu filho novamente?". "Tudo isso é sem sentido", disse Davis. "Não estamos seguros em nenhum lugar, só faz você querer ficar em casa, se trancar e não sair por nada."

O massacre no Texas também reacendeu a antiga dor em relação ao tiroteio devastador na Escola Elementar Sandy Hook em Newtown, no estado de Connecticut, há uma década, que matou seis funcionários e 20 crianças, algumas com apenas seis anos de idade.

Patricia Davis (à esq.) ao lado dos filhos Alexander, 10, e Jaylen ,13, em Nova York
Patricia Davis (à esq.) ao lado dos filhos Alexander, 10, e Jaylen ,13, em Nova York - Gabriela Bhaskar/The New York Times

Scarlett Lewis, cujo filho de seis anos, Jesse, foi morto em Sandy Hook, disse que saber de cada chacina é "como um soco no estômago, toda vez", que reativa a dor e a tristeza.

"Para mim nunca fica mais fácil", disse Lewis. "Especialmente porque são todos evitáveis. É tão difícil perder um filho, e você sempre tem essa dor."

Na cidade de Nova York, mesmo com algumas das leis de armas mais rígidas do país, alguns pais disseram que estavam em alerta máximo após a chacina no Texas, o massacre em Buffalo e outro no Brooklyn, em abril, no qual um atirador abriu fogo na hora de maior movimento num vagão de metrô lotado, matando dez pessoas e ferindo pelo menos mais 13.

"Os sentimentos estão em toda parte neste momento", disse Victor Quiñonez, cuja filha de 11 anos estuda numa escola no Brooklyn. "É raiva, frustração, tristeza."

"É difícil, porque há uma sensação de vulnerabilidade absoluta para todos neste país, porque você não pode controlar o que as pessoas fazem", disse ele.

Os pais também têm lutado para tranquilizar seus filhos de que é seguro voltar às aulas.

Em Buffalo, José Esquilin, 43, estava sentado junto da mesa quando sua filha, Avalynn, 7, entrou com os olhos arregalados depois de assistir pela televisão na sala de estar às notícias sobre as mortes no Texas.

"‘Isso é aqui? Isso aconteceu aqui? Eles mataram as crianças? Vai acontecer na minha escola?'", ela perguntou, de acordo com Esquilin. Ele explicou que havia muitas escolas em todo o país e que essas coisas eram raras.

Quando ela respondeu que a mesma coisa já tinha acontecido no bairro deles, Esquilin fez uma pausa. "Como pai, ora... O que você pode dizer? É verdade. É muito difícil enfrentar isso."

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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