Descrição de chapéu Mundo leu oriente médio

'Cartas ao meu Vizinho Palestino' é lição fundamental para quem torce pela paz

Obra de Yossi Klein Halevi mostra também que ambos os lados não reúnem apenas posturas belicistas

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São Paulo

Raramente se escreveu uma declaração de amor tão sincera pelo judaísmo e pelo Estado de Israel. Em contrapartida, é um tanto inédita a presença, no mesmo livro, de críticas ácidas vindo de vozes palestinas. Esse conjunto de oposições tem um nome. É a síntese da mais destilada honestidade intelectual.

"Cartas ao meu Vizinho Palestino", do pacifista israelense Yossi Klein Halevi, acaba de ser traduzido pela Contexto. E já nasce como uma lição fundamental para quem torce pela paz e quer entender o Oriente Médio. E a quem também se disponha a saber que os dois lados não reúnem apenas posturas belicistas.

Trecho do muro próximo ao posto de controle em Ramallah, na Cisjordânia
Trecho do muro próximo ao posto de controle em Ramallah, na Cisjordânia - Lalo de Almeida - 15.ago.17/Folhapress

O projeto das "Cartas" é curioso. Yossi Halevi, americano que emigrou para Israel em 1982, participa de um movimento que virou instituição para promover a conciliação entre israelenses e palestinos. Como boa vontade, o autor, além de dar a palavra aos que se encontram do outro lado do muro que separa Israel da Autoridade Nacional Palestina, traduziu seu livro para o árabe e o colocou grátis na internet.

É bem verdade que nada disso resolve o impasse histórico. Mas já são alguns passos. É por isso que a leitura das "Cartas" e das respostas que elas receberam valem a pena. Do lado palestino do muro há fumaça branca. São soldados israelenses lançando gás lacrimogêneo. Yossi pergunta a seu vizinho anônimo. "Como é que você consegue, se é que consegue, manter uma vida normal?" E mais adiante: "Como palestino, são negados a você os direitos de cidadania de que usufruo como israelense".

Mas para um israelense nem tudo são espinhos. Em 1948, o jovem país sobreviveu ao ataque de cinco de seus vizinhos e, em seguida, organizava, a partir dos iemenitas, o retorno maciço dos judeus da diáspora.

A ideia de retorno é fortíssima na linguagem de Yossi. Os judeus, com o sionismo do início do século 20, passaram a voltar a terras que ocupavam há 4.000 anos, quando em Hebron o patriarca Abraão recebeu de Deus a mensagem monoteísta. Desde então, o judaísmo foi um pensamento teológico compartilhado e um sentimento por determinado território que os babilônios e os romanos lhes quiseram negar.

Daí a ideia de desconexão entre o Holocausto e a criação do Estado de Israel. Não foi uma compensação oferecida pela comunidade internacional em troca dos 6 milhões de judeus mortos pelos nazistas. Israel, bem mais que isso, permanecia vivo como aspiração milenar. Yossi tem um radar bem calibrado ao identificar os momentos em que a direita israelense se fortalece com base no medo que ela propaga e que o terrorismo alimenta. O israelense pacifista ao mesmo tempo é indulgente com os trabalhistas de David Ben-Gurion e a predisposição ao diálogo de uma esquerda hoje enfraquecida.

As "Cartas" dão peso quase inexistente ao chamado direito ao retorno dos palestinos, no malogro das negociações de Oslo —em que a conciliação entre os dois povos esteve mais próxima. Os palestinos queriam de volta as terras expropriadas e não se sentiram satisfeitos com a resposta do outro lado.

Ao mesmo tempo, Yossi demonstra indignação frente a certas decisões israelenses, como a de decretar toque de recolher para a população palestina durante festividades numa cidade de maioria árabe.

Os palestinos que responderam ao israelense têm posição mais monológica. Não reconhecem os erros de seus compatriotas e contestam o estatuto de vizinhança que Yossi atribui aos moradores do outro lado do muro, na medida em que inexiste simetria entre colonizadores e moradores dos territórios ocupados.

Mas os porta-vozes do outro lado –empresários, professores– dizem que o diálogo ainda é possível. Lamentam o peso dos ortodoxos extremistas na política israelense e afirmam que eles consideram os árabes culturalmente inferiores. É um contrapeso ao antissemitismo. Mas não lamentam o terrorismo.

Outra discrepância está na maneira pela qual os dois grupos nacionais cresceram nos anos 1960. Enquanto os israelenses construíam as fundações de uma sociedade próspera e moderna, os palestinos cresciam em campos de refugiados e compartilhavam o luto pela perda de suas casas e aldeias, o que foi em parte necessário para que Israel se fortalecesse demográfica e economicamente.

Cartas ao meu Vizinho Palestino

  • Preço R$ 45
  • Autor Yossi Klein Halevi
  • Editora Editora Contexto
  • Tradução Margarida Goldsztajn
  • Págs. 224
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