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Petro aposta em vagas estatais no campo para aplacar desemprego na Colômbia

Esquerdista também defende reversão de reforma trabalhista; especialistas veem muitas dúvidas em propostas de Hernández

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Bogotá

A menos de duas semanas do segundo turno do pleito presidencial na Colômbia, o desemprego está entre as principais preocupações dos eleitores, de acordo com levantamento do Instituto Invamer.

Em um país em que a taxa de pessoas sem trabalho está em 12,9%, o esquerdista Gustavo Petro, adversário do populista Rodolfo Hernández no próximo dia 19, propõe em seu programa de governo "um novo contrato social alternativo ao enfoque de subsídios ao desemprego e à flexibilização trabalhista".

Traduzindo: se eleito, quer abolir a reforma aprovada no governo de Álvaro Uribe (2002-2010) que eliminou o pagamento de horas extras e facilitou a terceirização de serviços e a criação de contratos de três meses. O candidato também defende que todos os trabalhadores sejam formalizados, com jornadas de oito horas diárias, e que horas extras e turnos à noite e em feriados sejam remunerados.

Com um lenço verde, símbolo do movimento a favor do direito ao aborto, candidato à Presidência da Colômbia Gustavo Petro acena durante debate em Bogotá
Com um lenço verde, símbolo do movimento a favor do direito ao aborto, candidato à Presidência da Colômbia Gustavo Petro acena durante debate em Bogotá - Daniel Munoz - 2.jun.22/AFP

Para o ex-guerrilheiro, o estímulo para a geração de empregos é responsabilidade do Estado, "que, além de criar alternativas na iniciativa privada, pode absorver trabalhadores na administração [pública]". Essas vagas, afirmou ele em entrevista ao jornal El Tiempo, "não substituirão empregos privados nem serão um programa de emergência", mas um "complemento permanente ao setor privado".

Por meio dessa estratégia, o candidato do Pacto Histórico espera tirar ao menos 2 milhões de pessoas do desemprego.

Repetido em debates e no discurso após o resultado do primeiro turno, o plano envolve investimento no setor rural, a aplicação do artigo sobre reforma agrária do acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o incentivo à formação de trabalhadores na agroindústria. Petro já escreveu que as vagas garantidas pelo Estado envolveriam funções como reflorestamento e cuidado de crianças.

Os fundos para a aposta no campo, diz o esquerdista, virão principalmente da cobrança de impostos mais altos aos 4.000 colombianos mais ricos do país. Expropriações, porém, estão descartadas. A desigualdade no campo é um problema histórico na Colômbia e a razão de fundo pela qual foram formadas as guerrilhas nos anos 1960. Hoje, 80% das terras cultiváveis do país estão nas mãos de 1% dos fazendeiros.

Petro também defende a diminuição da "dependência do modelo extrativista", o que frearia a exploração do petróleo, principal produto de exportação do país. "A transformação do modelo econômico, a redistribuição da terra e a vinculação das comunidades ao conhecimento criarão novos empregos e condições dignas de remuneração e qualidade de vida", afirma em seu plano de governo.

José Daniel Rojas, um dos responsáveis pela estratégia de Petro para empregos, afirma que a ideia é se concentrar em duas opções: usar o dinheiro da taxação de donos de terras improdutivas para a geração de novos postos ou fazer com que proprietários retomem suas produções, criando assim outras vagas.

"Trabalhamos com a ideia de revitalizar a economia do campo com o que o campo tem, investindo na formação dos agricultores e no incentivo à produção. Mais terra cultivada, mais empregos, maior o crescimento das economias regionais", diz ele. "É melhor criar 3 milhões de empregos apostando na economia do campo, na economia produtiva, do que 400 mil empregos numa economia extrativista."

Para Marc Hofstetter, professor de economia da Universidade dos Andes, apostar nesse setor para prover todos os empregos que o país necessita é um delírio. "Essas cifras não melhoram só com a taxação de terras improdutivas. Não serve para um país das dimensões da Colômbia. Embora seja um fato que o país precise resolver o tema da desigualdade no campo, revigorar a economia passa por muitos outros fatores."

O acadêmico também critica o plano de diminuir a exploração de petróleo, uma proposta que classifica de eleitoreira, já que o discurso antiextrativista atrai votos da esquerda. "De modo geral, o programa de Petro é muito criativo sobre como gastar, mas está desinformado sobre as dificuldades para arrecadar a verba."

Já o economista Carlos Sepúlveda, da Universidade do Rosário, vê no plano do esquerdista um lado moderno que "ajusta o modelo econômico atual à sustentabilidade e se preocupa com o ambiente". Ele também concorda com a reforma no campo, embora ressalte a necessidade de um levantamento atualizado das terras cultiváveis. "Nem o governo atual tem isso, então não dá para calcular que se possa partir disso para resolver o problema de vulnerabilidade do emprego na Colômbia."

Também ficaria aquém do necessário, para Sepúlveda, a proposta de taxação das grandes fortunas. "É possível aumentar um pouco a arrecadação, mas é óbvio que não será o suficiente para o aumento do gasto público que o programa sugere."

Se a estratégia do esquerdista para solucionar a crise de desempregados na Colômbia apresenta inconsistências, o programa de governo de seu opositor é ainda mais evasivo em relação ao tema.

Em poucas linhas, a campanha de Hernández diz que o candidato também vai apostar em um "redesenho do campo", baseado numa "política de incentivos e de investimento para que exista desenvolvimento".

O documento também faz referência ao problema dos deslocados —mais de 7 milhões de colombianos que deixaram a área rural, devido à guerra civil, para viver nas periferias das grandes cidades. A promessa de Hernández, expressa em entrevista à TV Caracol, é a de que o campo será novamente atrativo para que essas pessoas "deixem a pobreza urbana e voltem para um campo fértil, que, ao final, é a casa deles".

Nesta terça (7), à agência AFP o candidato populista falou sobre o risco de uma luta de classes no país. "Se em um país somos 50 milhões e há 22 milhões em condições de pobreza e miséria extrema, não é estranho que qualquer ativista politiqueiro, em vez de pensar em como incluir nos circuitos econômicos esses 22 milhões, venha a gerar uma revolta", disse.

Perguntado sobre como evitar esse quadro, ele foi evasivo. "Conseguindo que os políticos não roubem mais as coisas. O povo [está] pagando impostos, [e os políticos] endividando o país, fazendo reformas tributárias e não solucionam os problemas".

Para Sepúlveda, Hernández deixa mais perguntas que respostas. "Ele diz publicamente que vai investir no campo para que a população originária do mundo rural volte, mas ao mesmo tempo afirma que não aumentará o gasto social. Nesse sentido, Hernández e Petro são parecidos. Para ambas as propostas, estão apostando em aumentar o gasto social, não em fazer ajustes."​

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