Tubinhos de cachaça artesanal vendidos em blocos de rua ajudam sustentar estrangeiras no Rio

Elas esperam lucro maior no Carnaval para poderem ir embora do Brasil

Rio de Janeiro

Quem frequenta os bares da zona sul do Rio de Janeiro está acostumado a ver um grupo de mulheres carregando placas coloridas com a palavra "Jambu" em letras chamativas. O que pouca gente sabe é que as vendedoras são de fora do Brasil, que sobrevivem aqui com a ajuda da venda da cachaça artesanal. E esperam o Carnaval para seguirem viagem.

As mexicanas Maria Bilbao, 29, e Julieta Ponce, 28, e a salvadorenha Lupita Ayala, 35, são algumas das estrangeiras que estão no país desde meados do ano passado. A reportagem acompanhou uma noite de trabalho das mulheres, em movimentada roda de samba na Pedra do Sal, zona central carioca.

Os cartazes, feitos por elas mesmas, chamam a atenção. Repletos de detalhes coloridos e brilhantes, são vistos de longe pelos foliões. Mesmo antes de começarem as vendas, dois grupos distintos de meninas abordou o trio perguntando o preço e pedindo para comprar algumas doses. Em menos de uma hora, Julieta vendeu 30 tubinhos. Cada um custa R$ 7.

Julieta Ponce vende cachaça em tubinhos feita com jambu - Ricardo Borges/Folhapress

"Em um dia bom, vendemos 35, 40 tubinhos", disse a salvadorenha do trio.

Apesar do sucesso nas vendas, porém, elas não ficam com todo o dinheiro. Para cada tubinho vendido, R$ 5 ficam com um sócio brasileiro que fornece a Jambu para as mulheres. A garrafa da bebida alcoólica custa cerca de R$ 70 e não é fácil de ser encontrada, segundo elas.

Mesmo assim, o comércio ajuda o trio a sobreviver no Brasil e até a juntar um dinheiro para viajar. "Depois do Carnaval, vou para Paraty e Salvador", pretende Lupita.

Ela é de San Salvador, capital de El Salvador, pequeno país na América Central que faz fronteira com Guatemala e Honduras. Desde junho no Brasil, ela dedica cinco dias por semana à venda da bebida.

O jambu é uma erva típica da região norte do Brasil, mais precisamente do Amazonas, Acre, Rondônia e Pará, e também é conhecido como agrião-do-pará. A cachaça feita com o produto é famosa pela sensação de dormência que toma conta da boca de quem a consome. No Rio de Janeiro, é bastante consumido nos bloquinhos de Carnaval.

Vendedoras de cachaça Jambu em meio a movimentação de Carnaval, no Rio - Ricardo Borges/Folhapress

Nos tubinhos vendidos pelas três, a bebida alcoólica é misturada com sucos de cupuaçu, açaí, cajá e graviola, entre outros. "Tem os sabores brasileiros", dizem elas para os potenciais compradores que se interessam.

O trio mora em uma república estudantil no bairro de Santa Teresa, zona central do Rio. Elas dividem apartamento com outras oito garotas, algumas bolivianas estudantes de medicina e uma argentina, que também vende a Jambu. Cada uma delas paga R$ 350 por mês de aluguel.

Das três, Julieta é a que está há mais tempo no Brasil. Chegou em março de 2019, após entrar pela Amazônia. Passou por Manaus, Belém, Bahia, sempre de ônibus ou pedindo carona nas cidades ou estradas. Também atravessou de barco em alguns trechos amazônicos.

"Saí do meu país para isso, conhecer novas culturas", disse a mexicana. Ela está no Rio desde agosto, quando conheceu as novas amigas e passou a vender a bebida.

No dia a dia, fora de feriados festivos, elas apostam nos bloquinhos fora de época, que acontecem de vez em quando no Rio, ou em rodas de samba espalhadas pela zona sul. Também costumam frequentar os bairros mais boêmios da região, como Botafogo, Gávea e Lapa. Todos os dias, elas se revezam pelo Rio de Janeiro no comércio do Jambu.

Em média, em uma noite boa de vendas, como acontece nos bloquinhos de Carnaval, as mulheres vendem todos os tubinhos de Jambu que levam, normalmente em torno de 40. Foi o que aconteceu quando a  Folha esteve com elas.

Maria Bilbao(camisa preta), Julieta Ponce (camisa branca), Lupita Ayala( camisa rosa), vendem cachaça Jambu no período de Carnaval, no Rio - Ricardo Borges/Folhapress

No Carnaval, elas torcem para que o lucro aumente. "Esperamos vender mais, mas vimos uma reportagem dizendo que dessa vez não teremos tantos turistas no Rio, então estamos aguardando para ver como será o movimento", disse Lupita.

A aposta no lucro do feriado, inclusive, faz uma delas cogitar trilhar um caminho alternativo no Carnaval. Depois de seis meses vendendo a Jambu, ela pensa em vender cachaça Gabriela, composto de aguardente com licor de cravo e canela, e "gellyshots", mistura de gelatina com bebida alcoólica, nos blocos. "Assim, acho que posso faturar mais", disse a mexicana.

Além do comércio da bebida, Maria trabalha como redatora publicitária freelancer para veículos do seu país. Conta que escreve de 10 a 15 artigos por semana, enquanto alterna com quatro dias da venda da cachaça feita com a erva do norte.

Após a folia, as três dizem que vão deixar o Brasil. Todas conseguiram juntar dinheiro para seguir viagem. Maria Bilbao, por exemplo, pretende ir para Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Colômbia antes de voltar ao México. As demais devem viajar por aqui antes de retornarem aos seus países para planejarem novas aventuras.

As três hoje dizem que gostam da vida no Brasil, mas nem sempre foi assim. Lupita, por exemplo, contou que sentiu medo no começo. "Sempre me falaram que o Rio de Janeiro é muito perigoso, principalmente para mulheres viajarem sozinhas".

Elas também dizem que se acostumaram com os barulhos inusitados da capital carioca. "Escuto tiros todas as noites nos morros da Coroa e Mineira", disse Maria Bilbao, se referindo a locais nos arredores de Santa Teresa, onde moram. 

Apesar do susto, as três prometem que nunca passaram por nenhuma situação perigosa no Brasil. "No máximo, vi um cara tirando o colar de uma menina na minha frente, em um bloquinho no Aterro", lembrou Bilbao.

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