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Isabella  Ballalai: O desafio de vacinar adultos

A crença de que vacina é "coisa de criança" e a baixa prescrição médica são algumas das razões

Isabella Ballalai

O Brasil vem enfrentando o maior surto de febre amarela silvestre da nossa série histórica, iniciada na década de 1980. De dezembro de 2016 a maio de 2017, foram confirmados 792 casos e 274 mortes pela doença, principalmente nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

Em 2018, o cenário se mantém. De acordo com o boletim mais recente do Ministério da Saúde, de julho 2017 a 6 de fevereiro de 2018 foram 353 episódios confirmados e 98 óbitos. São Paulo lidera as estatísticas.

O quadro é preocupante e demanda mobilização conjunta de diferentes setores da sociedade. O Ministério da Saúde monitora a situação epidemiológica, define áreas em que a vacinação deve ocorrer de forma rotineira e, atualmente, faz o bloqueio do surto por meio da vacinação em massa em regiões de maior risco.

Moradores da zona sul de São Paulo fazem fila em posto volante montado para vacinação contra a febre amarela
Moradores da zona sul de São Paulo fazem fila em posto volante montado para vacinação contra a febre amarela - Rivaldo Gomes/Folhapress

Alguns municípios, inclusive, mobilizam agentes para vacinar os moradores em suas residências.

Antes da explosão de casos, no entanto, a maioria das cidades brasileiras com recomendação de vacinação contra a febre amarela não havia atingido a meta de 95% de cobertura em boa parte delas, o índice era inferior a 50%.

Entre os não vacinados ou com situação vacinal desconhecida destacam-se os homens adultos, os mais afetados pela doença.

Imunizar adultos é um desafio mundial. Exceto quando são noticiadas mortes relacionadas a enfermidades imunopreveníveis, vacinas gratuitas aguardam por eles nas unidades básicas de saúde.

São exemplos: hepatite B e dupla do tipo adulto, para todos; tríplice viral, para menores de 49 anos; febre amarela, nas regiões de vacinação; influenza, para grupos de risco, incluindo gestantes; e tríplice bacteriana do tipo adulto, para gestantes.

Também há outras, oferecidas nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, de acordo com recomendação médica.

Como razões para a baixa procura destacam-se a crença de que vacina é coisa de criança, a pouca informação sobre o calendário de vacinação do adulto e a baixa prescrição médica. A literatura científica e enquetes demonstram que a prescrição é fator primordial para a adesão do paciente.

No entanto, muitos médicos que atendem adultos pouco falam sobre o assunto durante a consulta.

Igualmente importante é facilitar o acesso às salas de vacinação. É necessário ampliar seus horários de funcionamento, eventualmente levar o medicamento a locais não tradicionais e, quem sabe, promover campanhas semelhantes às realizadas para as crianças.

A palavra-chave para mudar esse panorama é educar. Nós, representantes de entidades científicas, devemos atuar para aprimorar o currículo da graduação médica e também o de enfermagem, inserir as imunizações de maneira mais consistente nos congressos de todas as especialidades.

Faz-se urgente intensificar ações de comunicação e de aproximação com todos os brasileiros.

A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), em parceria com sociedades de especialidades médicas e com o Programa Nacional de Imunizações, vem buscando orientar todos os envolvidos no processo de conscientização e vacinação de adultos e idosos, seja por meio de eventos ou de campanhas, como a que incluiu a criação do Família SBIm, único site brasileiro sobre imunizações chancelado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

É tempo de aprender com o presente e buscar soluções para o futuro. O caminho é longo, mas, unidos, conseguiremos superar o desafio.

ISABELLA BALLALAI, pediatra, é presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações 

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