Descrição de chapéu O que a Folha Pensa

Palpites infelizes

Entre as atribuições de um diretor da PF não está a interferência em inquéritos

O diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segóvia, durante a cerimônia de posse do cargo
O diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segóvia, durante a cerimônia de posse do cargo - Pedro Ladeira/Folhapress

Quando Fernando Segovia foi escolhido para o comando da Polícia Federal, em novembro, aqui se disse que dificilmente um profissional da elite do serviço público colocaria em risco uma boa reputação com atos destoantes dos padrões de rigor dos últimos anos.

Segovia, contudo, parece inclinado a contrariar essa lógica.

Já ao assumir o cargo, o diretor-geral da PF deixou de lado o protocolo republicano e se aventurou a fazer pouco da evidência mais grave de um inquérito envolvendo o presidente Michel Temer (MDB) —responsável por sua nomeação.

Tratava-se da mala contendo R$ 500 mil descoberta em poder de Rodrigo Rocha Loures, ex-assessor da Presidência indicado por Temer a Joesley Batista, da JBS, para cuidar de assuntos de interesses da empresa no governo.

Os fatos não deixam dúvida de que um crime foi cometido, e havia razões de sobra para o afastamento do presidente com vistas à apuração de suas responsabilidades.

Se não há certeza de que o dinheiro se destinava a Temer, ou de que este tinha conhecimento dos atos de seu auxiliar, a expressão desdenhosa do titular da PF ao se referir à prova coletada —"uma única mala"— tampouco contribuiu para a credibilidade das investigações e de seus encarregados.

Segovia reincidiu em declarações impróprias, e mais uma vez em favor do chefe do Executivo, ao indicar o arquivamento de um outro inquérito, cujo alvo é o eventual benefício a uma empresa do setor portuário com a edição de um decreto presidencial em maio.

"Os indícios [de que teria ocorrido propina] são muito frágeis", disse à agência Reuters na sexta (9).

Entre as muitas atribuições de um diretor da PF não está a interferência em inquéritos conduzidos por delegados do órgão, que devem desfrutar de autonomia e trabalhar, tanto quanto possível, a salvo de pressões políticas.

No caso em tela, as investigações não mostraram, de fato, avanços relevantes. Segovia não é, porém, um simples observador. O que diz —ainda que por mera vaidade, inépcia ou imprudência— repercute sobre a instituição que gere.

Sua chegada ao posto se deu sob circunstâncias desconfortáveis, para dizer o mínimo. Já eram notórias as pressões de setores da coalizão governista por algum tipo de freio às ações da Lava Jato; a partir da delação da JBS, abriu-se confronto aberto entre o Planalto e a Procuradoria-Geral da República.

Tudo isso recomendava que se redobrassem os cuidados com a sobriedade de sua conduta. Até aqui, não foi o que se viu.

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