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Concessões demais

É patente que alterações em edital ocorreram para atender a pleitos de empresas de ônibus

Ônibus no Terminal Bandeira, no centro paulistano
Ônibus no Terminal Bandeira, no centro paulistano - Danilo Verpa - 8.fev.18/Folhapress

De acordo com os planos da Prefeitura de São Paulo, em dez anos o sistema de ônibus da capital, se não excelente, será bem superior ao atual. Os coletivos terão assentos estofados, ar condicionado e rede wi-fi, além de emitir metade da poluição que hoje contribui para agravar o aquecimento global.

Não faltam boas intenções no edital lançado terça-feira (24) pelo prefeito Bruno Covas (PSDB). A vida dos usuários melhoraria sobremaneira, ainda que o ganho previsto de 5% no tempo total de percurso não chegue a entusiasmar quem hoje se locomove à velocidade média de menos de 20 km/h.

A diminuição no tempo de viagem seria obtida apesar da redução de 11% na quantidade de linhas e de 5% no número de ônibus.

A licitação prevê um sistema intermediário entre os coletivos de bairro e as linhas estruturais nos corredores. Estes ficariam mais livres, com o fim da superposição hoje comum, e contariam com veículos de maior capacidade, como os articulados e biarticulados.

Especialistas em mobilidade urbana avaliam que as mudanças rumam na direção correta. Há que atentar para os detalhes, entretanto, em particular para as modificações introduzidas por Covas na proposta inicial do antecessor tucano, João Doria.

A concorrência tem o valor de R$ 67,5 bilhões e prevê concessão dos serviços por duas décadas, prazo que parece excessivo. Doria previa reduzir o período a 15 anos, mas Covas cedeu a pressões da Câmara Municipal por cinco anos a mais.

Na versão anterior, o limiar para que empresas concessionárias iniciassem adaptações operacionais e melhoria do perfil da frota era de seis meses, e a gestão atual a ampliou para um ano. O corte na quantidade de veículos também era mais ambicioso (7%, contra 5%).

Fica patente que as alterações introduzidas o foram para beneficiar as concessionárias, o que só reforça a preocupação de que o resultado final venha a favorecê-las mais que aos usuários.

Os passageiros terão de realizar 4% a mais de baldeações para alcançar seus destinos. Somente não ocorrerá piora, de seu ponto de vista, se o tempo de viagem de fato cair —algo longe de estar garantido, dado que Doria só construiu 3,3 km de corredores de ônibus, em lugar dos 72 km prometidos.

É louvável o empenho em racionalizar o sistema e cortar seus custos operacionais. O subsídio despendido hoje para cobrir a diferença entre despesas e receitas, de R$ 3 bilhões anuais, precisa ser reduzido —mas sem prejudicar um serviço ainda distante do ideal.

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