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Fraudes no Enem

Ao que tudo indica, trapaças ocorrem em quantidade muito acima do que se detecta

Movimentação de estudantes em universidade na zona oeste de São Paulo, em novembro de 2017, em dia de prova do Enem
Movimentação de estudantes em universidade na zona oeste de São Paulo, em novembro de 2017, em dia de prova do Enem - Adriano Vizoni - 5.nov.17/Folhapress

Um exame nacional do qual participam quase 7 milhões de estudantes, como o Enem, é coisa séria. Tanto mais porque da nota obtida depende a chance de entrar numa universidade pública, o que para muitos representa a única oportunidade de um diploma superior.

Prevenir e combater fraudes, assim, constitui um imperativo de justiça. Sem isso, alguns poucos mal-intencionados tomarão os lugares que, por mérito, se destinariam aos jovens que obtiveram escores altos sem recurso a trapaças.

E elas ocorrem, em quantidade ao que tudo indica muito acima do que se detecta. Foi o que revelou uma investigação estatística empreendida por esta Folha.

Segundo o trabalho, nas edições de 2011 a 2016 do Enem verificou-se alta probabilidade de haver ocorrido fraude em 1.125 provas. O filtro empregado detectava, em meio a 3 milhões de gabaritos, combinações de respostas com uma chance em mil (ou mais de mil) de acontecer.

Foram incluídas na análise as provas realizadas pelos 10% de participantes que obtiveram as melhores notas. O contingente corresponde àqueles com maior probabilidade de obter vagas em cursos concorridos, como medicina e engenharia.

A cifra de 1.125 possíveis engodos, da simples “cola” entre dois indivíduos a sistemas eletrônicos de transmissão de respostas, aparece em forte contraste com o número de fraudes oficialmente comprovadas pelo Inep (órgão federal responsável pelo Enem) e pela Polícia Federal —apenas 14.

O Inep informa que recorre a estudos estatísticos para localizar prováveis falcatruas e encaminha os indícios coletados à PF, à qual cabe empreender a investigação dos casos. Também vem implementando medidas como instalar detectores de metais, para impedir o ingresso de celulares nas salas, e rastreadores de pontos eletrônicos.

São providências corretas e necessárias, que no entanto dão margem a uma espécie de corrida armamentista entre larápios e examinadores. Como sempre haverá candidatos dispostos a pagar para conseguir entrar numa escola médica, por exemplo, o alto prêmio incentiva a busca incessante de meios mais e mais sofisticados.

A falha do Estado reside em não ir tão fundo quanto poderia na apuração dos indícios de logro. Faz bem o Ministério Público Federal em pedir ao Inep uma investigação mais ampla dos casos.

editoriais@grupofolha.com.br

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