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Conveniência sangrenta

Cenário de atritos, cada vez mais constantes e letais, revela-se conveniente

Palestinos tentam se proteger durante protesto contra a transferência da embaixada dos EUA para Jerusalém
Palestinos tentam se proteger durante protesto contra a transferência da embaixada dos EUA para Jerusalém - Ibraheem Abu Mustafa/Reuters

O roteiro do conflito israelo-palestino tem se revestido de uma previsibilidade sinistra. Já se esperava que os protestos na faixa de Gaza nesta segunda-feira (14) seriam os maiores das últimas semanas, por causa das comemorações dos 70 anos de fundação de Israel.

Também era sabido que as tropas do Estado judeu não aceitariam a hipótese de palestinos invadirem seu território em data tão simbólica, não à toa escolhida para concretizar a transferência da embaixada dos EUA para Jerusalém. Tal medida, aliás, agravou o nível de animosidade entre os árabes.

O saldo de ao menos 58 manifestantes mortos nos choques ao longo da fronteira pode chamar a atenção por se tratar da jornada mais violenta em Gaza desde 2014, quando da última invasão militar israelense no território controlado pela facção radical Hamas. Entretanto não se pode falar em surpresa.

Embora à primeira vista pareça ilógico, esse cenário de atritos cada vez mais constantes e letais revela-se conveniente, para os governantes de um lado, e no mínimo aceitável, para os do outro.

Afinal, há tempos o Hamas explora o ressentimento palestino para incitar a população contra o Estado judeu, cujo direito de existir não é reconhecido por seus líderes. Alto-falantes das mesquitas foram usados para convocar os fiéis a engrossar os atos diante do muro que os separa de Israel e, assim, aumentar a chance de alguém furar as barreiras.

No poder desde 2007, o movimento considerado terrorista pelos israelenses arruinou a economia e a infraestrutura locais. Atribuir a culpa pela má administração às restrições para a entrada de mercadorias, entre outras ações impostas pelo vizinho, constitui um argumento de apelo fácil.

Por outros motivos, observa-se semelhante falta de empenho em buscar a paz por parte do governo israelense. O premiê Binyamin Netanyahu se vale do radicalismo em Gaza como justificativa —legítima, diga-se— para recorrer ao poderio militar em defesa do país.

Dada a evidente assimetria de forças entre as duas partes, o nível de ameaça, na prática, é pequeno. No cálculo do linha-dura Netanyahu, não vale o esforço de abrir um canal de negociação, mesmo que isso implique frequente recriminação internacional pela repressão às manifestações palestinas.

O desinteresse nesse tema fica claro diante da expressa preocupação com o programa nuclear do Irã —este, sim, visto como perigo real. No entanto, o primeiro-ministro tampouco parece crer em diálogo para lidar com essa questão.

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